José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Concerto mostra a profusão de temas presentes nas obras do mexicano Silvestre Revueltas

Obras reafirmam a vida intensa de compositor

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

29 de agosto de 2015 | 05h00

Há muitos elementos que aproximam a música do mexicano Silvestre Revueltas (1899-1940) com a de Villa-Lobos: a sempre farta percussão com instrumentos locais; o gosto pela colagem de seções sem pontes, ou seja, de modo brusco; a profusão de temas, rítmicos, melódicos ou harmônicos, se sobrepondo e se amontoando. A luxúria sonora, enfim, do Novo Mundo, diria um europeu extasiado. Foi o que se viu e ouviu no concerto de quinta, 27, na Sala São Paulo, dominado por duas obras de Revueltas, modernamente menos tocado do que merece.

Viveu intensamente. Descoberto e abençoado por seu padrinho Carlos Chávez (uma espécie de Villa mexicano), rompeu com ele nos anos 1930 e lutou contra os fascistas na Guerra Civil Espanhola em 1937 (naqueles mesmos anos, Villa fechava com o Estado Novo para viabilizar seu projeto musical para o Brasil). Antes de o alcoolismo destruí-lo, Revueltas compôs cerca de 30 obras em sua última década de vida, oito delas trilhas para cinema. 

La Ventana, de 1931, escrita logo após seus estudos nos EUA, é mais arisca, cheira a Ives pela justaposição de bandinhas com cantos sombrios de instrumentos como a tuba. Já a monumental La Noche de los Mayas é mais “macia”. Escrita como trilha de filme, soa como majestosa sinfonia, com direito a um scherzo dançante (Noche de Jaranas) e a um movimento lento (Noche de Yucatán), emoldurados por Noche de los Mayas e Noche de Encantamiento, que privilegiam o clima de festa caótica e o aproximam da estética villa-lobiana.

Na primeira parte, uma obra que levantou o público pela originalidade: o Concerto para Sucata e Orquestra, do holandês Jan Järvlepp. A peça é de 1995 e põe como solista um quarteto de percussionistas – no caso, o grupo mexicano Tambuco – tocando garrafas, calotas e outros materiais aleatoriamente reciclados. 

Seus três movimentos alternam, de modo inteligente, dois essencialmente rítmicos com um intermediário em que o Tambuco sopra a quatro vozes em garrafinhas com quantidades de água diferentes, gerando melodias. A ideia é boa, inclui até cadências alternadas pelos solistas; mas 27 minutos é tempo demais. Há repetições além da conta, os mesmos truques percussivos impressionam na primeira audição, mas cansam se repetidos. Quinze minutos enxugariam as repetições e deixariam a obra mais impactante.

Giancarlo Guerrero saiu-se bem na condução da Osesp, atenta a partituras cheias de detalhes e armadilhas polirrítmicas propositais. Ele substituiu, na última hora, a regente mexicana Alondra de la Parra, que cancelou por causa da gravidez. Nenhum problema: ao todo, Guerrero rege 26 vezes a Osesp este ano (incluindo o Festival de Campos do Jordão), bem mais do que o regente associado Celso Antunes (16), segundo informações da orquestra. Cabe a pergunta: não havia nenhum regente brasileiro, mesmo jovem, disponível? 


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