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Concerto aguarda 128 anos para ganhar gravação

É o pianista português Artur Pizarro quem registra em CD a peça para piano e orquestra de Henrique Oswald

João Marcos Coelho , O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2014 | 07h00

É incrível que o belo concerto para piano e orquestra de Henrique Oswald (1852-1931) tenha esperado 128 anos para ter sua primeira gravação na forma original. Mais incrível ainda: nenhum dos intérpretes é brasileiro, nem ela foi feita aqui. O ótimo registro é do pianista português Artur Pizarro, de 46 anos, ao lado da Orquestra Sinfônica da BBC de Gales, regida por Martyn Brabbins. Integra o 64.º CD da monumental série de Concertos Românticos para Piano da gravadora inglesa Hyperion. Completa o CD outra obra ligada ao Brasil: o concerto n.º 2 do português Alfredo Napoleão (1852-1917), composto nos anos 1880, como o de Oswald. O irmão mais velho de Alfredo, Artur (1843-1925), também pianista, foi editor musical no Rio desde 1866.

Segundo o pianista e pesquisador José Eduardo Martins, Oswald apresentou o concerto umas poucas vezes. A melhor delas, ao que parece, em 12 de novembro de 1909, em que solou sob regência de Alberto Nepomuceno no Instituto Nacional de Música do Rio. “A versão para quinteto de cordas atenderia, seria possível imaginar, ao desejo do compositor de interpretá-la – quando ainda estava radicado na Itália – em outras cidades.” 

Como se vê, um CD inteligente resgatando uma importante obra brasileira emoldurada com outra que tem tudo a ver com o País. Que Oswald foi um dos nossos mais significativos compositores românticos – para muitos, o melhor disparado –, ninguém duvida. O espanto é sua obra só começar a ser gravada nos últimos 25 anos. 

Resgate iniciado com o trabalho pioneiro e decisivo de Martins em três CDs a partir de 1988 com sua obra para piano e camerística. Martins foi o primeiro a gravar o concerto na versão para piano e cordas (com o Quarteto Rubio, em 2003). Considera um absurdo a obra ser ignorada: “Reflete um aspecto crônico de nossa cultura musical, em que impera a triste e melancólica mesmice repertorial perpetrada em nosso país”. 

No ano passado, outro oswaldiano, o pianista Eduardo Monteiro, acompanhado pelo Ensemble São Paulo, fez a primeira gravação mundial do trio opus 9, que qualifica como “obra-prima de sua primeira fase que testemunha ainda a influência do romantismo alemão, digna de figurar no catálogo de Mendelssohn”, em CD dedicado ao compositor. Em entrevista ao Estado, ele afirma que “certamente ainda há muitas obras que são praticamente desconhecidas do público, mas que são de grande valor artístico. Minha gravação do quarteto e do quinteto junto com o Quarteto da Cidade de São Paulo é um exemplo”. Você pode ouvir no YouTube Monteiro solando o “Andante con variazioni, para piano e orquestra” em 2004 com a Orquestra Sinfônica da Escola de Música da UFRJ, que ele qualifica como “obra primorosa” – igualmente desconhecida do público.

De gerações diferentes – Martins está com 76 anos, Monteiro com 48 –, ambos têm em comum o grande talento, a paixão por Oswald e a ligação com o Departamento de Música da USP (o primeiro aposentado, o segundo hoje é diretor do setor). 

Em abril de 2015, Martins gravará na Bélgica mais um CD de piano com inéditos de Oswald. Ele ouviu e gostou bastante da gravação de Pizarro a pedido do Estado: “Gosto muito deste concerto. O primeiro movimento Allegro (poco agitato) é bem diversificado, contrastante. Sua cadência é extraordinariamente construída a exibir virtuosismo envolvente. Gosto imenso do Andante, não apenas da apresentação inicial, mas também do tratamento posterior que Oswald dá ao material temático. O Molto allegro final tem seu humor. A tarantela bem ao gosto oswaldiano – há diversas para piano solo, o próprio gravou em longínqua era a Tarantela op. 14 n.º 3, está no YouTube – tem interesse e, segmento tranquilo intermediário, apenas dimensiona a retomada da dança a levar a tarantela a um final sempre em acelerando”.

Autor da primeira tese sobre Oswald em 1988, ele anota ainda que “como a Hyperion teve muita pressa para ver o projeto realizado, a edição foi feita em pouquíssimo tempo; será necessária uma edição crítica cotejando os vários manuscritos existentes”.

A entusiasmante gravação de Artur Pizarro com a Orquestra da BBC provoca duas constatações em quem ouve o concerto de Oswald, aliás claramente superior ao de Alfredo Napoleão: é perverso termos esperado 128 anos para ouvi-lo em sua forma original. E é urgente mapear e gravar em nível de excelência a produção musical brasileira pré-Villa-Lobos.

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