Compositores analisam sua obra produzida em tempos de pandemia

Compositores analisam sua obra produzida em tempos de pandemia

A convite do 'Estadão', Zélia Duncan, Zeca Baleiro, Roberta Campos, Sérgio Britto e Francis Hime falam sobre o exercício de compor sob o efeito da quarentena; veja vídeos exclusivos com músicas feitas por eles neste período

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

Assim como outros artistas, os compositores têm agido, e reagido, de formas diferentes neste período de pandemia. Há quem esteja paralisado em seu processo de criação nestes tempos difíceis. O que é legítimo. Mas há também quem busque refúgio – e força – na música para enfrentar essa fase árida. O que é compreensível. A convite do Estadão, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, Roberta Campos, Sérgio Britto e Francis Hime, que ocupam esse segundo grupo, falam sobre o exercício de compor sob o efeito da quarentena, e como isso tem refletido em sua obra. Apesar dos pesares, os cinco, nomes respeitados da música brasileira, continuaram dedicados à composição. Em geral, são canções que não falam literalmente sobre a quarentena, mas a gangorra de sentimentos provocada pela pandemia se traduziu em canções de amor, melancólicas ou mesmo mais esperançosas. 

Quarentenada em São Paulo, Zélia Duncan entrou em isolamento logo na sequência de ter seu show no Rival cancelado por causa do coronavírus. Aliás, ela recebeu a notícia no próprio teatro, pouco tempo antes de entrar no palco. Mesmo sem público, Zélia e a banda fizeram a apresentação, que foi gravada e transmitida online. “Foi muito emocionante e muito angustiante”, ela lembra. Apesar do baque, Zélia retomou suas composições rapidamente. “Gosto muito de ler e escrever, e aí as parcerias começaram a aparecer. Uma das primeiras foi com Xande de Pilares e a gente fez um samba muito bacana, chamado A Dor Tem Que Valer.” 

Ela emendou outras parcerias, com compositores como Marcos Valle, Ivan LinsLucina, Moska e Leoni. Mas houve uma parceria em especial, com Juliano Holanda, que rendeu mais de 30 músicas durante este período e a ideia de um disco assinado pelos dois, previsto para 2021 – e que fará parte das comemorações de 40 anos de carreira de Zélia. “Assim como tive aquele espasmo com Ana Costa e nasceu o álbum Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz, esse é um disco que vai ser um documento dessa época para nós. Estamos já na boca de começar a trabalhar. Comprei um microfonezinho para gravar em casa, também é uma coisa nova para mim. Tenho feito uns violões em casa, vozes em casa. Então, foram muitas frentes abertas nesse lugar de ficar sozinha e se inventar todo dia”, diz. “E o artista precisa se perdoar quando não faz nada, a gente se culpa demais. O ócio tem seu lugar na vida da gente.”

E que tom ganharam as músicas desse cancioneiro do isolamento? “Há de tudo: as canções mais profundas, as mais leves, as de amor. Esse negócio da montanha-russa figura bem o que todos nós estamos vivendo. De você entrar nesse carrinho e não saber onde isso vai dar. Claro que viver já pressupõe o inesperado, mas a gente está vivendo o inesperado num momento de abismo. A gente está caindo, o Brasil caiu e ainda não parou. E a gente se pergunta: onde é que isso vai dar? E o papel do artista é perguntar. Então, esse disco vai perguntar e com desejo de responder a algumas coisas, e de rastrear até a beleza desses momentos.” 

Zélia também compôs com Zeca Baleiro, seu antigo parceiro musical. E a lista de parcerias de Baleiro neste período também é extensa: além de Zélia, inclui nomes como Wado, Vinícius Cantuária, Flávio Venturini, Chico César e poeta arrudA. “Estou compondo bastante, porque o isolamento trouxe um tempo mental que há muito tempo a gente não experimentava. O trabalho do artista é muito impulsionado por esse tempo para pensar, para criar, para deixar que as coisas aflorem”, diz o cantor e compositor.

Mas foi com Chico César que Baleiro produziu o material mais encorpado dessa safra de canções, que os dois pretendem registrar em disco. “Apesar de a gente ser contemporâneo e amigo, a gente nunca compôs muito junto. Cada um tinha seu próprio projeto. Então, veio essa enxurrada, foi uma retomada da parceria.”

Fazendo um panorama dessas composições feitas na quarentena, Baleiro fala sobre os caminhos que seguiram letras e melodias. “Há um pouco de melancolia em algumas canções; também fala um pouco da situação, uma crônica mais das emoções, das transformações pessoais que a pandemia e a quarentena foram naturalmente causando nas pessoas”, diz. “Mas, ao mesmo tempo, as últimas que fiz têm essa coisa esperançosa, porque acho que o artista é também um espelho. É importante cantar a esperança, a resistência, as utopias.” 

Roberta Campos tinha planos de entrar em estúdio, em abril, para gravar seu novo álbum, quando a pandemia avançou pelo País. “Desse disco que eu já tinha feito todas as músicas, acabei mudando três canções dele (por outras) que compus durante este período (de quarentena)”, conta a cantora e compositora, que conseguiu gravar no mês passado, no Rio, o álbum previsto para o ano que vem. 

Mas como seu processo de composição não cessou, outras canções nasceram nos últimos meses. E, assim, outras cinco músicas farão parte de um EP, Só Conheço o Mar, que sairá em 11 de dezembro. “Ele fala mais deste período, traduz mais meu sentimento dentro do isolamento e da pandemia”, afirma. “Faz tempo também que não gravo um disco. Meu último álbum saiu em 2015, o Todo Caminho É Sorte, e daí resolvi lançar agora esse EP, até para dar um frescor para a vida, para a minha música, para este momento. Costumo fazer músicas mais leves. É uma coisa mais introspectiva, mas, ao mesmo tempo, tem uma positividade.” 

A música sempre salvou Roberta, como ela própria diz. E agora não foi diferente. “De momentos difíceis, de dores, sempre tirei um lado bom e transformei aquilo. É um momento de resiliência, de se reinventar. Mesmo sendo um negócio tão pesado, você vê uma luz no fim do túnel, e é mais ou menos por esse caminho que vai o EP. Inclusive, a última faixa se chama Tudo Vai Ficar Bem. É o que eu acredito, é o que eu penso.”

Também com um novo disco sendo arquitetado, Sérgio Britto, do Titãs, já tinha boa parte das músicas do repertório quando chegou a pandemia. Três canções acabaram sendo compostas durante a quarentena e entraram em seu disco solo Epifania, que será lançado em compactos, a cada três meses – o primeiro, com Epifania no lado A e Tradição no lado B, chegou às plataformas digitais na sexta, 6.

Foi lançado ainda o clipe de Epifania, que Britto gravou no Litoral Norte de São Paulo, onde está confinado, registrando um ambiente sob o impacto destes tempos, de praia vazia e natureza evidenciando sua força. “Achei que não fazia sentido ficar esperando que tudo voltasse à normalidade mais normal, e que, à medida que eu conseguisse fazer as coisas, eu iria fazer, para não ficar no limbo.”

Britto não parou de compor. “Não compus sobre a pandemia, não me deu essa vontade: ‘Vou falar sobre isso’. Eu tinha outras coisas que achava mais interessantes e mais verdadeiras.” Ao todo, são 12 canções, que tratam de uma variedade de temas e são embaladas por uma sonoridade que dá identidade aos projetos solos do músico, com pop, bossa nova e MPB. Um dos destaques desse novo trabalho, Epifania foi finalizada durante este período. “Não fiz pensando neste momento, mas ela fala de transformação, dessa coisa de você adequar e descobrir a essência das coisas.”

Compondo intensamente, Francis Hime viu seu leque de parceiros na música popular aumentar durante a quarentena. Estreou parcerias com Zélia Duncan, Moacyr Luz, Paulo Mendonça, Pierre Aderne e Flávio Marinho. Já com a antiga parceira musical, a mulher Olivia Hime, compôs Mar Enfim, “uma valsa lenta bastante romântica que ela letrou”.

“Fiz também uma música com Jorge Fernando, um fadista de Portugal. Ele fez um poema chamado Anjos Secretos, que eu musiquei, sobre os cuidadores da saúde”, diz Hime. Foi a única canção que falou sobre pandemia. “Fiz um contraponto: em vez de fazer uma música melancólica, triste, fiz uma música vigorosa.” 

Dos parceiros, Hime recebe letras variadas: “Mais contidas, mais melancólicas, algumas mais engraçadas”. “E as músicas que eu faço também são muito variadas.” Nestes tempos difíceis, a música funciona como refúgio. “Até de uma certa forma explica por que estou compondo tanto. É uma espécie de salvo-conduto para enfrentar este período.” 

Veja vídeos exclusivos gravados pelos compositores para o 'Estadão':

 


 


 


 


As letras das músicas da quarentena:

Eu e Vocês (Juliano Holanda e Zélia Duncan)

Uma daquelas

Pra suavizar a alma.

Uma tranquila

Pra reconquistar a calma.

Uma daquelas doces

Pra detonar o amargo

Uma suave

Feito brisa ao cair da tarde.

Uma balada simples,

Um amigo em casa.

Balanço manso voa

No quintal risadas.

Uma daquelas raras

Pra aquecer saudade

Uma que chame nosso nome

Feito mãe, feito vontade.

Vontade de cantar

Num coro essa canção

Com voz de coração

Eu e vocês

Vontade de cantar

No corpo essa canção

Com voz de multidão

Eu e vocês

 

Distantes e Tão Próximos

(Zeca Baleiro e arrudA)

distantes e tão próximos

o amor em tempos ásperos

e o que dirão os astros

tudo parece tão difícil

o amor em cada passo

e não faltará espaço

distantes e tão próximos

o amor em tempos áridos, despidos

até os ossos de armaduras

e outros artifícios

distantes e tão próximos

cantar um novo início

 

Meu Amor É Seu

(Roberta Campos)

Seu rosto, meu caminho colorido

Seguro firme com as minhas mãos

Teus olhos me olham

Com atençao

A sua voz me guia e seu perfume

Me faz sentir a vida em um milhão de segundos

A noite já caiu 

E eu tô aqui

Me beija, te quero bem perto

Me sinta, me ame

Meu universo é vc, meu universo é vc

Meu amor, meu amor

Meu amor é seu

Meu amor, meu amor

Meu amor é seu

A sua voz me guia 

E seu perfume me faz sentir a vida em um milhar de segundos

A noite já caiu 

E eu tô aqui

Me beija, te quero bem perto

Me sinta, me ame

Meu universo é vc, meu universo é vc

Meu amor, meu amor

Meu amor é seu

Meu amor, meu amor

Meu amor é seu


Epifania

(Sérgio Britto)

Abra os olhos, não espere mais

Feche a porta, não olhe pra trás

Abra os olhos e diga adeus

Não esqueça nada que é tudo seu

E não se esconda mais

Em meio ao lixo que o mar traz

E não se esconda atrás

De estrelas que não existem mais

E se for amor

Como há espinhos na flor

E se for amor

Será sempre amor

E se for amor

Como há espinhos na flor

E se for amor

Sempre haverá dor

Abra os olhos, não pense mais

Feche a porta, não diga aonde vai

Abra os olhos e entregue a deus

Não esqueça nada que é tudo seu

E não se esconda mais

Na sombra que o seu muro faz

E não se esconda atrás

De um mundo que não existe mais

E se for amor

Como há espinhos na flor

E se for amor

Será sempre amor

E se for amor

Como há espinhos na flor

E se for amor

Sempre haverá dor


Mar Enfim

(Francis e Olivia Hime)

Mar

Dos degredos

Dos presságios

Heresias

Nas coxias do tempo

Teci teu manto

Mar - tantas eras -

Leito de trevas

E em vão

Rasgo o peito e tinjo o mar

Entrego a vida por um grão

Sacio a sede no teu sal

Imprudentemente espero

Junto a margens traiçoeiras

Mar de tontas caravelas

Dos amores naufragados

Mar - enfim

Chamarás por mim?

Soberanamente

Mar

 

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