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Compositora cria projeto que leva criação contemporânea às crianças

Pequenos têm primeiro contato com Igor Stravinski, Luciano Berio e John Cage

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 de novembro de 2015 | 04h00

RIO - Jonas não gostou muito de Stravinski. Nada contra o compositor. O negócio dele é “mais rap”. Por quê? “É mais direto”, ele responde. Mas o Igor não concorda. “No rap eles contam uma história, não é? Então, na música do Stravinski também tem uma história que a cantora canta.” Jonas faz uma cara pensativa, observado de perto pela Mariana e o Luiz Carlos, que esperam uma resposta. “E a história era bem legal”, insiste o Igor. “Eu entendi o que você quis dizer, mas, não sei, acho que preciso pensar um pouco.”

Igor, Jonas e Mariana têm 10 anos; Luiz Carlos já fez 11. E no começo da tarde de quinta-feira, dia 19, tinham acabado de acompanhar uma apresentação da compositora Jocy de Oliveira em um salão da Irmandade Divino Espírito Santo da Lapa, no centro do Rio de Janeiro. Ao longo de 50 minutos, com outras 30 crianças, ouviram falar – em alguns casos, pela primeira vez – do maestro Eleazar de Carvalho e dos compositores Igor Stravinski, Luciano Berio e John Cage. São nomes consagrados da música do século 20, mas, ainda assim, capazes de despertar reações amedrontadas da mais adulta e habitual plateia de concertos.

“Isso é algo que sempre me incomodou”, explica Jocy, um dos principais nomes da composição brasileira, que, em abril de 2016, completa 80 anos. “Quando o assunto é música contemporânea, estou cansada de ouvir as pessoas dizendo ‘pode ser que eu goste, mas não entendo’, o que cria um tabu. De forma geral, a música erudita em si já é alvo desse receio e, no caso da nova criação, ele se multiplica. E como se resolve isso? Uma das maneiras é mostrar a riqueza desse repertório para as crianças”, diz ela, durante um almoço em um restaurante na Lapa, pouco antes da apresentação. Foi assim que surgiu a série Desmistificando a Música Contemporânea – e, dentro dela, o projeto Estórias em Concerto, destinado às crianças.

Superdotados. Até agora, foram realizadas quatro apresentações – e, até abril, devem ocorrer mais 15. No dia 5, o palco foi a ONG Ser Cidadão, no bairro Santa Cruz. E, na última quinta-feira, dia 19, a sede do Programa Estrela Dalva, no centro do Rio, ligado ao Instituto Lecca. O foco do trabalho, iniciado em 2007, são crianças carentes superdotadas. São selecionados, anualmente, cerca de 60 alunos que recebem orientações complementares ao ensino regular, além de participar de atividades de leitura, visitas a exposições, concertos, debates ou oficinas cujo objetivo é apresentar a eles algumas profissões.

A apresentação da manhã ocorreu na sede do projeto, mas, à tarde, o número maior de crianças fez com que a organização pedisse emprestada à igreja uma de suas salas. No caminho até lá, Jocy explica a sua metodologia. “Uma vez que a ideia surgiu, colocou-se um desafio: como apresentar esse repertório de uma maneira eficiente, didática e, ao mesmo tempo, sem fazer concessões?” O caminho escolhido foi colocar o foco em histórias – as da própria Jocy e a das obras apresentadas. “Há as histórias de vida e há as estórias, as lendas, os mitos, muitos deles usados em obras desses autores. Entendi que essa era a saída.”

Silêncio e ruído. As crianças se posicionam e Jocy logo se dirige a elas. “Eu vou começar com a minha história. Quando eu tinha 13 anos, era só um pouco mais velha que vocês, fui ao Teatro Municipal. Era o concerto de uma grande orquestra, a Orquestra Sinfônica Brasileira. Alguém já ouviu falar dela?” Várias mãozinhas tímidas se levantam. “Pois então, eu fiquei encantada. Primeiro com aquele homem que estava regendo, um maestro chamado Eleazar de Carvalho. E pensei: eu quero casar com ele!” Uma ou outra risadinha marota.

O maestro surge, então, no vídeo, ensaiando uma orquestra. E Jocy, em seguida, continua. “Mas não foi só isso, a música que ele tocou também me impressionou muito. Era uma obra chamada Sagração da Primavera, de Igor Stravinski. E, quem podia imaginar: anos depois, eu casei mesmo com o Eleazar e nós viajamos o mundo. E, em uma dessas viagens, eu conheci o Stravinski. Surgiu uma grande amizade e eu tocaria, nos anos seguintes, muitas das suas obras.”

Entre conversa, trechos em vídeo e música ao vivo, as crianças conhecem pedaços da Sagração e ouvem Gabriela Geluda interpretar canções de Stravinski, baseadas no folclore russo (“Caramba”, não resiste um menino, ao ouvir de perto a voz da soprano).

Em seguida, são apresentados outros autores. Entre eles, John Cage que, em um vídeo, se diverte tentando explicar o que é um som. Com a ajuda do compositor Marcelo Carneiro, eles ouvem O Mais Devagar Possível, obra que pode levar anos para ser interpretada. Jocy explica que, em uma igreja da Alemanha, ela vai ser tocada ao longo de 600 anos. “Será que o planeta vai existir até lá?”, ela pergunta. “Só se a gente cuidar da natureza”, diz uma menina. Depois, um trecho de 4’33, famosa peça em que os músicos ficam em silêncio durante quatro minutos e 33 segundos. E uma dica: não há certo ou errado na hora de ouvir uma obra. “O que existe é a opinião de cada um. E essa opinião vale”, afirma Jocy, antes de encerrar a apresentação – e ser cercada pelas crianças, em busca de um autógrafo.

Enquanto isso, Jonas segue pensativo. Na verdade, aquela canção era legal. “Deu bastante medo, tinha uns ruídos bem legais”, diz, quebrando o silêncio. E por falar em silêncio, que tal o John Cage? “Foi bacana, porque a gente percebeu um bando de sons que estão sempre aqui e a gente não percebe normalmente”, define Mariana. Cage não faria melhor.

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