Acervo Estadão
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Compositor Tito Madi, o rei do samba-canção, morre aos 89 anos

Ele estava internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, em decorrência de uma pneumonia e de problemas renais

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2018 | 11h20

RIO - Rei do samba-canção e precursor da bossa nova, o cantor e compositor Tito Madi morreu na manhã de ontem, no Rio, aos 89 anos. Ele estava internado havia duas semanas no Hospital São Lucas, em Copacabana, em decorrência de uma pneumonia e de problemas renais.

Madi estava consciente, de acordo com a filha, Carmem Maddi Bulcão, e feliz com o novo CD de Nana Caymmi, com seu repertório. Ele ainda deixou músicas inéditas; entre elas, parcerias com Paulo César Pinheiro – duas serão gravadas por Aurea Martins.

“Pouco antes de se internar ele teve essa grande alegria, que foi receber o CD da Nana com músicas dele. Foi uma cópia inacabada que o produtor levou. Ficou muito realizado”, contou Carmem.

Madi teve um acidente vascular cerebral em 2008, e desde então se deslocava de cadeira de rodas. Segundo a filha, ele gostava de rememorar em casa momentos do auge da carreira, e era muito dedicado à família. 

“Meu pai foi o melhor que alguém pode ter. Mesmo com a carreira, as muitas viagens, fazia questão de acompanhar tudo da vida dos (dois) filhos e dos (quatro) netos. Gostava de falar dos momentos de auge, mas também não dormia sem saber se todos já estavam em casa”, disse Carmem. O enterro será hoje no Cemitério São João Batista.

O compositor de Balanço Zona Sul, Chove Lá Fora e Não Diga Não chegou a fazer shows em 2015, para o lançamento do CD Quero te Dizer Que Eu Amo, gravado com o pianista Gilson Peranzzetta, um colaborador antigo.

Na ocasião, contou com participações de artistas como Leny Andrade e Áurea Martins. Foi um momento leve na maturidade, recorda-se Aurea, companheira de palcos desde os anos 1980.

“Ele já estava de cadeira de rodas, mas estava relativamente bem no palco. Cantou alguma coisa. Ficou muito feliz com o show. Tito era uma escola de sensibilidade, suavidade e musicalidade. Suas canções serão eternizadas”, contou Aurea nesta quarta-feira, 26.

“Trabalhamos juntos na casa Noturno, no Leblon. Era meu amigo. Eu abria show dele, ele era a grande atração. Do seu repertório, o que mais toca é Sonho e Saudade. Agora recebi das mãos do Paulo César Pinheiro duas canções inéditas deles dois para meu CD com Cristóvão Bastos.

Peranzzetta lembra que o show de 2015 foi um sopro de vida para o compositor. “Ele ficou muito contente. Esse encontro nosso foi muito lindo, dividi uma faixa com ele, ele cantou composições minhas. Ele já estava bem abatido pelo AVC, doente”, contou o músico.

“Ele era realizado como compositor, um cara feliz com a música que fazia, uma figura incrível, sempre tranquilo e generoso. Teve um papel muito importante no pré-bossa nova, figura central na música brasileira. A pessoa só morre na medida em que não se fala dela. Tito Madi vai permanecer.”

Descendente de libaneses, Chauki Maddi nasceu numa família musical na pequena cidade de Pirajuí (SP), em 1929, e começou profissionalmente em 1952, como cantor da Rádio Tupi de São Paulo, já com o nome simplificado para o português.

Poucos anos depois chegou ao Rio, onde fez a carreira e se radicou, no bairro de Copacabana, epicentro da vida musical da cidade à época, e do samba-canção em particular. 

Madi compunha desde os 10 anos de idade, musicando poemas clássicos. Também foi letrista. O romantismo deu o tom de seu trabalho. Ao interpretar, foi inspirado pelo canto macio de Lúcio Alves e Dick Farney. Por sua vez, a voz suave dele influenciou Roberto Carlos e João Gilberto nos anos 1950. 

Não Diga Não foi prenúncio do sucesso futuro no começo da década. Chove Lá Fora, hit de 1957, seria versionada para o inglês e gravada pelo quinteto The Platters (com o título It’s Raining Outside). O grupo gravou também Quero-te Assim (I Wish).

Balanço Zona Sul estourou com Wilson Simonal nos anos 1960. Madi teve como parceiros mais recentes, além de Paulo César Pinheiro, Carlos Colla, e deixou músicas gravadas em fitas cassete.

Em 2015, por ocasião do show com Peranzzetta, ele deu uma entrevista ao jornal O Dia em que disse: “Tenho saudade de quando eu tocava, de quando ia nos programas de televisão e de quando viajava. Me chamam sempre para ir a Conservatória (cidade do interior do Rio considerada ‘a capital da seresta’), mas tenho medo de ficar sozinho no quarto de hotel”. 

Na entrevista, Madi relembrou também uma briga que teve que João Gilberto em 1961, na qual o cantor, ele contou, lhe deu um golpe com o violão na cabeça. Restou uma cicatriz. “Ficamos sem nos falar por décadas, até que, ao fazer um show no Rio em 2008, ele cantou Chove Lá Fora e falou bem de mim no palco. Já o perdoei.”

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