Compositor Harold Faltermeyer fala dos trabalhos na música

Músico compôs o hit 'Hot Stuff', de Donna Summer

Jotabê Medeiros , O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 16h00

TÓQUIO - Ele compôs um dos maiores hits de Donna Summer (Hot Stuff) e produziu um clássico dos Pet Shop Boys (Being Boring). Foi produtor do reputado selo Deutsche Grammophon. Compôs a canção de Um Tira da Pesada, sucesso de Eddie Murphy (o tema do personagem Axel Foley, Axel F, tornou-se uma das músicas mais conhecidas do planeta). Foi o autor da trilha de Ases Indomáveis, cujo teste teve um jovem Tom Cruise, astro emergente, vistoriando tudo no estúdio - o filme ganharia um Oscar, mas o alemão não ficou para a festa.

Lenda da música que acontece no estúdio, longe do palco, o alemão Harold Faltermeyer é uma testemunha privilegiada do pop. Sua carreira começou como bandleader de uma banda de garotos em 1968, nos programas de auditório alemães. Parceiro de Giorgio Moroder, inventou uma batida que desembocou no que ficamos conhecendo como tecnopop, e trabalhou com Barbra Streisand, Blondie, Laura Branigan, La Toya Jackson, Billy Idol (de quem é grande amigo), Cheap Trick, Bonnie Tyler, entre dezenas de outros. Chegou a trabalhar com a lendária cantora alemã Alexandra (codinome de Doris Nefedov), que morreu em 1969. “Ela era a Edith Piaf alemã, uma das maiores que conheci. Mas era uma doida. Morreu num acidente de carro.”

Aos 62 anos, Faltermeyer só não trabalhou ainda com artistas brasileiros - segundo contou ao Estado, durante uma conversa num refeitório em Tóquio. “Conheci Tom Jobim em Munique, por intermédio do filho dele. Mas nunca nem estive no seu país”, afirmou ele.

Um dia, o gênio italiano Giorgio Moroder ligou para ele para convidá-lo a trabalhar consigo. “Ele tinha ouvido falar de mim como um mágico do estúdio”, lembrou, divertido, em palestra para alunos da Red Bull Music Academy, uma das maiores masterclasses do evento. Juntos, trabalharam dois anos nos estúdios Musicland, que Moroder tinha em Munique, e produziram algumas das músicas mais emblemáticas da geração disco e trilhas sonoras memoráveis. Moroder, conta, pagava todas as contas de restaurantes e era o cara mais generoso que conhecera. Ambos detestavam o ambiente dos clubes noturnos, preferiam restaurantes. “Ficar dentro de uma discoteca me parecia estar dentro de um walkman gigante”, brinca.

Mas Faltermeyer é realista ao falar do amigo Moroder. “Giorgio é um gênio. É um dos maiores talentos da música pop em todos os tempos, um dos maiores inovadores. Mas não é um grande músico. Eu era mais bem treinado. Por isso, fizemos um par perfeito. Ele era como um Dr. Frankenstein da música, sabia o que queria, mas também não era bom com a parte técnica”, contou.

Faltermeyer ganhou dois prêmios Grammy. Em 1979, voou de Munique para Los Angeles para produzir um disco de Donna Summer, e acabou compondo para ela um dos seus maiores hits, Hot Stuff. Sua batida e a habilidade nos estúdios o faria um personagem central da era disco (ele diz que sua invenção tem tudo a ver com o que Herbie Hancock insinuou em Rockit, uma de suas faixas clássicas).

Harold Faltermeyer no cinema

Após o disco de Donna Summer, Harold Faltermeyer foi convidado para fazer a trilha de Gigolô Americano, com Richard Gere. Ali, conheceria o produtor Jerry Bruckheimer, que o escalaria para diversas outras trilhas doravante. Uma delas para o filme Ladrão de Corações. Ladrão de Corações, ele ressalta, virou um filme ruim. “Um ladrão acha um diário com as fantasias de uma mulher e se aproveita delas para conquistá-la. Não é um grande filme, mas é uma boa ideia, poderia refilmá-lo.”

Somente a história em torno da trilha sonora de Um Tira da Pesada daria um filme em si. “Ninguém queria a música. Tinham medo de colocar música totalmente eletrônica na trilha de uma comédia.” Ele tinha rodado Hollywood com a música, rejeitada unanimemente. Quem o bancou foi o diretor Martin Brest, que estava acostumado com a música de artistas como Afrika Bambaata. O cineasta afirmou, após ouvir em estúdio: “Tenho de dizer a vocês que esta música é a mais perfeita pista que eu tenho para o filme”. Em 2005, um ringtone com aquele personagem Crazy Frog, com a música como base, tornou-se o mais vendido da História. 

Faltermeyer é tranquilo e ponderado, mas tem opiniões fortes. Prefere, como compositores de trilhas sonoras, Ennio Morricone e Henry Mancini a John Williams e Jerry Goldsmith. “Gosto do que Williams e Goldsmith fizeram, mas eles foram influenciados por Puccini e Mahler, não? Morricone e Mancini tinham ideias únicas.” Recordou que, quando chegou a Hollywood, Henry Mancini lhe disse, apontando para o logotipo da Paramount: “Sabe aquele arco da Paramount? Quando você o atravessa, você perde os seus direitos autorais”. Era verdade, mas também era verdade, como descobriu, que as trilhas sonoras vendiam milhões de discos na época e podiam fazer fortunas. 

“A música no filme tem uma função, como todos os outros elementos. O efeito sonoro é tão importante quanto a cena. Para mim, o que importa é realçar o sentimento e a situação, sem perturbar os diálogos. O filme mais difícil, nesse sentido, foi Top Gun (Ases Indomáveis).”

Outros filmes cuja trilha são dele são: O Sobrevivente (com Schwarzenegger), Fletch, Beleza Fatal, Tango & Cash e Kuffs. Foi indicado a dois Globos de Ouro e dezenas de prêmios. Um dos filmes mais recentes foi a trilha de Cop Out, com Bruce Willis.

Embora seja um expoente da produção musical da Alemanha, ele conta que nunca se relacionou com a outra lenda do seu país, o Kraftwerk (no mesmo café de Tóquio, naquele momento, estava Michael Rother, que integrou o Kraftwerk no início dos anos 1970). “Uma vez, encontrei Ralf Hutter num aeroporto e a gente disse ‘oi’, mas foi tudo”, brinca. A explicação é simples: Faltermeyer abraçou sem preconceitos o chamado “schlager”, a música de entretenimento, feita de hits pops desprezados pela crítica, e isso desde o começo de sua carreira.

“Na minha época, havia dois ou três produtores que mandavam em tudo. Eles não deixavam ninguém mais novo aparecer. Os artistas, para chegar a algum lugar, tinham de passar por eles.” Hoje, analisa, todos têm ao alcance dos dedos milhares de trabalhos feitos anteriormente, tudo em celulares e laptops, e ficou muito mais fácil a vida.

Faltermeyer é um gênio popular, com grande ouvido para o que as ruas revelam. Mas suas referências são múltiplas. Pouco antes de colocar o chapéu e sair pelas ruas de Tóquio, revelou que sempre pensa na canção Rockit, de Herbie Hancock, e nos semitons usados pelo músico quando compõe. Funciona para ele, até hoje, como uma espécie de bússola.

* O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA ORGANIZAÇÃO DO FESTIVAL

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