Bebeto Matthews/AP
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Compositor Elliott Carter morre aos 103 anos em Nova York

A autocrítica rigorosa, a altivez e independência em relação às exigências do mercado e a qualidade indiscutível de sua produção fizeram de Carter o compositor preferido dos europeus de vanguarda

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O 'ESTADO'

06 de novembro de 2012 | 13h46

A morte do compositor nova-iorquino Elliott Carter, aos 103 anos, na segunda-feira, 05, em sua casa em Manhattan, de causas naturais, priva o mundo de um dos criadores musicais que melhor personificaram as ambiguidades, conquistas e angústias do século 20. Não é exagero afirmar que ele viveu como estrangeiro em sua própria terra. Numa recentíssima história da música nos Estados Unidos, sua obra ficou de fora porque o autor o considerou esteticamente um europeu nascido nos EUA por acaso. 

Faz sentido. A autocrítica rigorosa, a altivez e independência em relação às exigências do mercado - anátema em relação a um dos grandes dogmas da vida artística norte-americana - e a qualidade indiscutível de sua produção fizeram de Carter o compositor preferido dos europeus de vanguarda. Pessoalmente, ele era muito convicto de sua profissão de fé artística. Certamente não pensou nem em seu país nem nas convidativas atmosferas europeias. 

Seguiu caminho próprio. Com exceção de seu início, na juventude, quando, conforme confessa, “namorei a ideia populista de escrever para o público”. Foi nos idos de 1924, quando conheceu o pioneiro Charles Ives, o primeiro compositor norte-americano radical e experimental. Depois de tê-lo como padrinho por alguns anos, apresentou-lhe composições neoclássicas - o que estremeceu de vez as relações de amizade entre ambos. Não por isso, mas por convicção mesmo, Carter diz que “aprendi que o público não se incomoda com isso. A partir daí, decidi compor para mim mesmo”.

Nas badaladas festas de seus 100 anos, em 2008, chegou a se irritar com a realização de uma série de concertos só com sua obra em Tanglewood. “Não estou acostumado com isso”, confessou após um concerto com a Sinfônica de Boston em que ele e sua música foram muito aplaudidos. “Quando isso acontece, fico pensando onde errei.”

Algumas de suas atitudes na plena maturidade das últimas duas décadas de vida comprovam isso. Impunha condições aos músicos, grupos e orquestras que lhe pediam encomendas. A várias sinfônicas que não tocaram sua música no passado ele recusava encomendas na lata. Mesmo assim, escreveu prodigiosamente entre 1990 e 2012. É certo que peças mais curtas, mas mesmo assim o volume impressiona. “Começo a pensar numa música nova caminhando pelas ruas de Manhattan”, disse aos 100 anos no documentário Labyrinth of Time, dirigido por Frank Scheffer. Outro lançamento marcante de seus 100 anos foi o CD-DVD da Naxos intitulado 100th Anniversary Release, com 10 obras, várias surpreendentemente “assobiáveis” e entre elas duas extraordinárias: Mosaic, incrivelmente lírica mas não tonal, esclareça-se. Mas Dialogues, de 2004, já retorna ao universo de sua música mais arisca - talvez devido ao caráter percussivo do piano, que Carter enfatiza. Entre as restantes, há até uma Remembering Mr. Ives, de 2001 para violoncelo solo, reutilizando fragmentos da imensa sonata Concord de Ives. No DVD, Carter diz que “cada composição é uma nova aventura”. Outra frase pinçada da conversa com Robert Aitken, flautista e regente do New Music Concerts Ensemble de Toronto, que interpreta as dez obras do CD: “Escrevo música que propicie prazer aos músicos”.

Escrever para os músicos foi lição que aprendeu muito tempo atrás, em dois tempos. Primeiro ainda adolescente, assistiu à estreia norte-americana da Sagração da Primavera. “Foi o que me inspirou a ser compositor.” Meio século depois, Stravinsky devolveu-lhe o elogio, qualificando de “primeira obra-prima norte-americana” o seu concerto duplo para cravo, piano e duas orquestras de câmara, de 1961.

Carter estudou em Paris com Nadia Boulanger, a mestra de 10 entre 10 compositores americanos do período. Voltou ainda neoclássico, mas com sérias dúvidas nas certezas convencionais que ela lhe passara. Tateou nos anos 40 em busca de uma linguagem própria, até que em 1950 passou um ano isolado no deserto no Arizona. Foi o segundo e definitivo estalo. No retorno deste retiro, emergiu com um novo método de composição, que chamou “modulação métrica”. Trocando em miúdos, cada instrumento segue rota própria, ritmos independentes se superpõem aleatoriamente, o que causa uma instabilidade tremenda na sequência da música. Carter aplicou o processo em seu primeiro quarteto de cordas. E nas décadas seguintes ampliou o conceito, até a Sinfonia de Três Orquestras, de 1977, onde cada uma delas tem um número diferente de movimentos, cuja sequência também depende de escolhas dos intérpretes. 

Suas derradeiras composições foram Doze Epigramas Curtos para o pianista francês Pierre-Laurent Aimard, completados em agosto passado; e Instances, para a Sinfônica de Seattle, em abril. Em junho passado, a Filarmônica de Nova York estreou seu Two Controversies and a Conversation

Um lembrete final. Ninguém entendeu melhor a personalidade e a produção musical de Elliott Carter do que seu amigo, pianista e musicólogo Charles Rosen. Rosen gravou, nos anos 90, um CD para o selo Bridge com a até então integral de sua obra para piano (lá estão, em leituras irretocáveis, as excepcionais sonata nº 1 em dois movimentos e as Night Fantasies). Rosen também escreveu um livro definitivo mas difícil de encontrar e por isso mesmo caríssimo (US$ 450 na Amazon): The Musical Languages of Elliott Carter. Outro livro suculento foi publicado pela University of Rochester Press: Elliott Carter: The Collected Essays and Lectures 1937-1995, editado por Jonathan W. Bernard em 1997. 

PRINCIPAIS DISCOS 

Labyrinth of Time

Documentário de Frank Scheffer, realizado no centenário do compositor, em 2009 

The 100th Anniversary Release

CD e DVD com algumas das principais obras do compositor 

Cello Concerto

Seu concerto para violoncelo, gravado por Alisa Weilerstein e Daniel Barenboim

Quartetos de Cordas 

Os quartetos nº 1 e nº 5 foram gravdos pelo Pacifica Quartet e lançados pelo selo Naxos

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