Composições inéditas mostram Jacob do Bandolim mais relax

Em março de 1967, Jacob do Bandolim tocava Lamentos, choro de Pixinguinha, no Teatro Casa Grande, na zona sul carioca. Terminada a interpretação, foi ovacionado pelo público formado principalmente de jovens. Emocionado, sofreu um enfarte. Jacob não acreditava que a juventude, fascinada pela bossa nova e pelo iê-iê-iê, reverenciava o gênero considerado por ele o representante maior do patrimônio musical brasileiro. Morreria dois anos depois, enquanto vivia uma fase de certa liberdade em relação ao choro. Veja também: Ouça 'Novos Tempos' Ouça 'sapeca Iaiá'  Um chorão mais moderno, diferente da imagem do músico tradicionalista: esse é o recorte do disco Inéditos de Jacob do Bandolim Volume 2, lançado 27 anos após o primeiro volume por conta da recusa das gravadoras, crentes de que música instrumental não tem apelo no mercado. Patrocinado pela Petrobras, ele abre as comemorações dos 90 anos de Jacob Pick Bittencourt, nascido em 14 de fevereiro de 1918, filho único de um capixaba com uma polonesa. Considerado herdeiro de Jacob, o bandolinista Déo Rian interpreta as 14 faixas selecionadas de partituras manuscritas e fitas gravadas, doadas a ele nos anos 1970 pela viúva Adylia Bittencourt, hoje com 88 anos. Uma parte veio do acervo do Instituto Jacob do Bandolim. Rian conheceu o autor de Doce de Coco em 1961, aos 17 anos. Passou a freqüentar a casa de Jacob em Jacarepaguá, além dos saraus aos sábados. Linha tradicional "Ele era muito exigente, quem não se enquadrasse na sua disciplina caía fora", conta Rian. O bandolinista segue a linha tradicional de Jacob, a quem sucedeu no Conjunto Época de Ouro. "Ele fazia o simples e o bonito, o que é bem difícil, tocava com o coração, sua interpretação tinha sentimento", diz. Segundo Rian, a nova geração tem talento técnico de sobra, mas confunde virtuosismo com complicação. "Tem gente tocando bem demais, mas complicando muito, você é músico e não entende", diz Rian. Ao lado de Jacob, Luperce Miranda (1904-1977) é considerado o músico que tornou o bandolim – de origem italiana – sinônimo de choro. Também solista, Luperce fazia interpretações técnicas e velozes. "Era uma fábrica de fazer notas", diz Rian, aluno de Luperce e do clarinetista Moacir Arouca. Jacob é o intérprete da sonoridade limpa, do acorde perfeito, do andamento preciso mais do que ligeiro. "Sua maneira de tocar era mais melancólica, chorosa, o coração estava nas cordas." Rian buscou seguir à risca o estilo do mestre no Volume 2, cujo show de lançamento em São Paulo está previsto para a segunda quinzena de fevereiro, no Sesc. O chorão paulista Izaías de Almeida, de 70 anos, considera Jacob o melhor intérprete do Brasil. "Ele criou uma escola, a do choro melódico, que não é difícil de executar e compreender, mas de interpretar." Em 1955, o músico de São Paulo conheceu o do Rio, criador da forma abrasileirada de tocar o bandolim, cujos estudos eram dados no método francês ou italiano.  Por trás da severidade, Jacob escondia o bom humor, conhecido dos amigos e familiares. "Ele aprontava várias gaiatices", diz a filha Elena Bittencourt. Depois do enfarte em 1967, por recomendação médica o autor de Noites Cariocas teria de reduzir a um os cinco maços de Minister consumidos por dia. Passou a fumar diariamente um Minister junto com quatro marcas diferentes para não contrariar o médico. Músico caseiro Diferente da figura do músico boêmio, Jacob era muito caseiro, lembra Elena. Dividia-se entre o emprego público de escrevente, os ensaios, as apresentações e o trabalho no acervo sobre choro, no qual reuniu cerca de 10 mil itens, entre discos, partituras, livros, álbuns de fotos, fotografias. E um bandolim, hoje com mais de 60 anos e restaurado. Criado pelo Dr. Silva, luthier português, ele aparece nas mãos de Déo Rian na capa do Volume 2. Em tempo: a experiência com fadistas no começo da carreira ajuda a explicar o estilo único do autor de Treme-Treme. Esse arquivo foi vendido nos anos 1970 ao Museu da Imagem e do Som do Rio, auxiliado pelo Instituto Jacob do Bandolim. Segundo o diretor de pesquisas do instituto, Sérgio Prata, em 2008 serão lançados um caderno com as partituras de 140 composições de Jacob e o DVD Ao Jacob, Seus Bandolins (Biscoito Fino), gravação de show em homenagem à fundação da instituição, em 2002, além da realização de concertos sob a batuta de Wagner Tiso. As cerca de 200 fitas de rolo do acervo, no qual Jacob passava as madrugadas trabalhando e que têm gravações de ensaios, discos antigos e programas radiofônicos, foram digitalizadas e estarão disponíveis em CDs no ano que vem. Feito de choros dos anos 1950 e 1960, o Inéditos Volume 2 apresenta a tradição ao lado da experimentação. "Em Novos Tempos, Jacob buscou caminhos novos com outras harmonias", diz Prata. O disco Vibrações (1967) e o antológico show com Elizeth Cardoso e Zimbo Trio no Teatro João Caetano (1968) mostram a face evolutiva de Jacob – do bandolinista influenciado pelos estudos de teoria musical, mais intensos depois da composição de Retratos (1958), suíte de Radamés Gnattali feita para Jacob. Embora tivesse sérias restrições às dissonâncias da bossa nova, Jacob apreciava músicas como Canto Triste (Edu Lobo) e Chega de Saudade (Tom Jobim). Até pediu a Tom para escrever a partitura, cuja execução em quase duas dezenas de gravações apresentava erros, no que o pianista concordava. Se tivesse vivido além dos 51 anos, Jacob poderia ter dado outras harmonias, melodias e arranjos ao choro, apesar do purismo musical. Mas a conjunção ‘se’ indica apenas um exercício da imaginação.

Francisco Quinteiro Pires,

10 de dezembro de 2007 | 16h32

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