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Comparado a Chet Baker, trompetista Chris Botti toca em SP

Músico que mistura rock, pop jazz e clássicos é atração do BMW Jazz Festival

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

28 de maio de 2014 | 03h00

O homem que mais vende discos de jazz na atualidade é, como Chet Baker, trompetista. Como Baker, que foi modelo, ele também é boa pinta - chegou a ser incluído, numa eleição da revista People, entre as 50 pessoas mais bonitas do mundo. Antes dessa fama, que ele considera uma brincadeira, Botti integrou bandas que acompanhavam nomes como Aretha Franklin e Frank Sinatra, assim como outros do universo rocker, como Steven Tyler e Roger Daltrey. O trompetista já esteve no Brasil antes, mas não como band leader. Ele veio acompanhando Paul Simon e voltou depois para tocar com Sting no Rock in Rio, em 2001. "Esperei a vida toda para voltar ao Brasil com minha própria banda", exagera Botti, que só tem 51 anos, em entrevista ao Estado.

Christopher Stephen Botti é provavelmente o astro mais cintilante do BMW Jazz Festival, do ponto de vista do alcance midiático de sua figura. Gravou What a Wonderful World com o guitarrista do Dire Straits, Mark Knopfler. O músico conversou com a reportagem na semana passada.

Hoje, você tem a popularidade de um ídolo pop. É irônico, porque ao mesmo tempo você não tem nenhum hit, nenhum sucesso massivo. Como explica isso?

Afortunadamente, e eu encho a boca para falar isso, nós fazemos turnês pelo mundo todo e tocamos até 300 vezes por ano, coisa do tipo. E nós somos mais conhecidos por termos uma grande banda e um grupo de músicos de alto nível porque, você sabe, acontece muito de um músico ser muito famoso e não ser grande coisa como músico. Acontece o tempo todo. Mas ter uma banda que prima pela qualidade e se manter durante tanto tempo sendo prestigiado pelas plateias é para mim a verdadeira façanha. E talvez por isso tenha demorado tanto para acontecer em minha carreira, uma trajetória que começa com 27 anos acompanhando Paul Simon e Michael Brecker e Steve Gadd, tantos músicos e tantos estilos diferentes.

Ouvindo seu trompete, é ponto pacífico que você é um músico de jazz, principalmente. Embora toque de tudo, sua abordagem é de jazzista. É como você se define?

Certamente sou um músico de jazz. Mas eu prefiro ser definido como um trompetista. Os meus shows são muito diferentes dos meus discos. Nos discos, quando você faz um álbum, especialmente álbuns instrumentais, você faz um esforço para manter o ouvinte ligado naquele conceito, o que é diferente de um show ao vivo. No show, você tem de tocar, tem de convencer as pessoas, todas diferentes, de que aquilo ali vale a pena. É diferente de conseguir a adesão emocional de um determinado tipo de ouvinte que se liga em música popular ou clássica ou jazz. Eu tenho a sorte de ter tido a formação de um músico de jazz, mas ao longo da minha carreira, em diferentes tipos de shows, acompanhando músicos populares de vários gêneros, como Joni Mitchell, ou Paul Simon. Isso me ensinou a mesclar as duas coisas: fazer um som que seja reconhecível, imediatamente, mas também introduzir algo que o espectador diga: "Uau, eu nunca ouvi isso antes! É baseado no jazz, mas não é tão avant-garde, não é daquelas coisas que só algumas pessoas entendem!". Acho que esse é o verdadeiro truque. Por exemplo, veja o caso do Miles Davis: os dois álbuns de maior aceitação pública dele são também muito vanguardistas, Kind of Blue e Sketches of Spain. Eles são de uma grandeza melódica e cool, mas não são do tipo Miles-Miles, um cara tocando para si mesmo. Mesmo um artista como Keith Jarrett, as coisas mais bonitas que ele gravou são as que têm a maior abrangência. Eu mantenho meus discos com essa possibilidade de serem tocados ao vivo para um grande público e também de introduzirem o novo.

 

 

 

 

Certamente você é um trompetista muito diferente de Tom Harrell, por exemplo. Com isso você concorda, certo?

Eu conheci Tom Harrell quando eu tinha 15 anos. E mantivemos alguma amizade. Eu me lembro que eu tinha 15 e ele tinha uns 30 ou 35 anos, e a beleza da música dele me impressionava muito. Eu liguei para ele e pedi para ele alguma orientação. Você sabe, em Nova York, é muito raro que alguém dê atenção para um pedido desses. Mas ele me pediu meu endereço e me mandou pelo correio dois discos dele. Foi uma das coisas mais generosas e genuínas que um músico fez em meus anos de formação. Ele conversou comigo, e me deu dicas. Mas é fato, somos muito diferentes. O toque dele é muito puro, ele toca para adiante, é jazz em toda sua extensão. E eu amo aquele jeito e sua música. Mas minha abordagem é outra. É mais ou menos o seguinte: eu seria John Mayer, ele seria Bob Dylan. Acho que isso é que faz o trompete um instrumento tão especial, ele se aproxima muito da voz humana. E são muitas vozes.

E Chet Baker? Foi influente para você e seu jeito de entender o instrumento?

Chet tinha um bonito fraseado, um estilo todo especial, um jeito muito emocional de tocar. Tem seu próprio lugar na história da música, assim como Miles, Tom Harrell. Eu, quando era moleque, adorava ouvir Chet Baker, Tenderness, aquele jeito vulnerável que ele ressoava. E ele também tinha um espírito atormentado, e a sua música tinha uma grande similaridade com sua voz interior. Isso acontece com muitos músicos. É possível notar a diferença entre um músico como Chet Baker e outro como Clifford Brown. E é isso que faz o trompete um instrumento único, é diferente de músico para músico.

Você pretende tocar aqui o repertório de seu disco Impressions, que ganhou o Grammy?

Na verdade, tocamos umas duas músicas de Impressions, mas nosso show será como uma miniversão do disco Chris Botti in Boston, gravado com uma sinfônica. Teremos um violinista clássico e duas diferentes cantoras no palco. Uma forma de transitar pelas fronteiras entre jazz, clássico e música popular. É muito mais rock’n’roll do que jazz, mais erudito do que popular. Enfim, é um jeito de manter o ouvinte atento. Eu costumo tocar trompete como se estivesse cantando, porque eu preciso saber como manter o ouvinte dentro da música, e não fora. Miles fez isso com muitos dos seus discos. E também uso muitos cantores como convidados, porque há um trânsito de vozes, e a audiência entende melhor. Para mim, foi ‘ok’ ganhar o Grammy na categoria pop instrumental. A palavra pop ali é usada para diferenciar do jazz tradicional, e eu realmente sou diferente.

Você foi eleito uma das 50 pessoas mais bonitas da People. Aquilo causou uma enxurrada de garotas atrás de você nos shows depois daquilo?

(Risos) Aquilo foi em 1927, muito tempo atrás. Falando sério, eu toco numa banda, me preocupo em manter essa banda tocando em alto nível. Entendo que aquilo é parte de uma cultura pop que precisa de certo tipo de assunto, mas a verdade é que só deu combustível para meus amigos fazerem bullying comigo durante muito tempo. Não é algo a ser levado a sério.

BMW JAZZ FESTIVAL

HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281, 4003-1212.

5ª a dom., 21 h. R$ 50/ R$ 180 (dom., 18 h, grátis, Auditório Ibirapuera). 

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