Márcio Fernandes/AE
Márcio Fernandes/AE

Como ser grande

A dupla sertaneja que criou um modelo de negócios no show biz e passou a ganhar mais em direitos autorais do que Roberto Carlos

Cristiane Bomfim, Especial para o Estado,

06 de abril de 2013 | 07h00

De repente, duas bolhas gigantes de material sintético surgem no palco da dupla Fernando e Sorocaba. Aos gritos e com os celulares erguidos, fãs incrédulos olham sem saber o que pode acontecer. Fernando entra em uma, Sorocaba em outra, e os dois começam a andar sobre o mar de gente, conduzidos por mulhares de braços como se flutuassem pela plateia. Uma cena impressionante que a banda de rock norte-americana Flaming Lips imortalizou em seus shows era protagonizada pela primeira vez por uma dupla sertaneja que não para de inventar moda e reinventar um modelo de negócio do show biz nacional. Bolha, grua, teletransporte, abertura de show com tecnologia 4D. A cosmética de Fernando e Sorocaba ainda não é o mais importante. Em tempos de crise batendo à porta do entretenimento de massa, eles aparecem no palco e fora dele com a mesma habilidade para fazer dinheiro.

O levantamento mais recente realizado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais, Ecad, aponta Sorocaba, pelo segundo ano consecutivo, como o artista que mais arrecadou direitos em 2012. Uma posição que já era sua em 2011. Composições de sua autoria renderam mais do que todas as músicas de Roberto Carlos executadas em 2012, ano em que o Rei ficou em 3º lugar. Chico Buarque veio em 7º e Caetano Veloso, em 10º. Isso tudo fruto de cinco anos de uma carreira que garante 270 shows por ano, algo como cinco por semana, a cachês de R$ 300 mil cada.

Usando uma estratégia centralizadora, os amigos criaram em 2009 a F&S Produções Artísticas. A ideia era ter um escritório que cuidasse de toda a carreira da dupla. Hoje, uma equipe formada por 30 pessoas é responsável também pela produção de duplas em série, como Marcos e Belutti, Thaeme e Thiago, Mateus e Cristiano e o grupo de pagode Inimigos da HP. O mineiro Lucas Lucco, 22 anos, é o novo contratado. "Eram quatro, cinco solicitações de shows para o mesmo dia. Montamos um casting que pudesse cobrir algumas dessas datas no embalo de Fernando e Sorocaba", explica Sorocaba. Como patrões, eles recebem em média 30% do faturamento de seus artistas. A fórmula não garante 100% de acerto. Em 2010, tentaram uma parceria com Henrique e Diego que acabou frustrada por divergências de propostas.

Enquanto Sorocaba compõe para ele e seus artistas, Fernando se especializa em produção, assinando trabalhos de nomes lucrativos como Chitãozinho & Xororó. As canções são editadas por uma empresa da família de Sorocaba, a JKF Editora. Um pulo do gato que garante aos amigos maior rendimento no recebimento de direitos, já que não precisam abrir mão de uma porcentagem caso pertencessem a uma editora terceirizada.

As estratégias renderam resultado com rapidez impressionante. Por quatro anos, de 2009 a 2012, eles lotaram a arena de Barretos durante a maior festa de peão do Brasil. Só em Goiânia, no ano passado, reuniram 65 mil pessoas - um público de Morumbi lotado em dia de show do U2. A turnê mais recente, lançada no último dia 28, na casa Villa Country, custou R$ 1,5 milhão e veio com mais novidade tecnológica. Três painéis de LED se movimentam em sentido horizontal e vertical exibindo imagens com perfeição. O teclado e a bateria ficam no meio do público. "Somos centralizadores. Isso pode até ser defeito, mas tudo é resultado de tentativas, erros e acertos e está dando certo", diz Sorocaba.

Na estrada

Nascido em Ji-Paraná, Rondônia, Fernando Zorzanello, 28 anos, fugia do trabalho na roça ao lado do pai para tocar o violão do avô quando criança. Aos 15 anos, decidiu mudar-se para a capital Porto Velho para viver de música. Revezava-se entre a escola de dia e as apresentações à noite. Em 2003 e com 18 anos, viajou para Cuiabá, no Mato Grosso, onde vivia de favor e cantava em troca de R$ 100. "Achava que lá teria mais chances".

No Paraná, outro Fernando perseguia o sucesso. Fernando Fakri de Assis, o Sorocaba, 32 anos, dividia o tempo entre o curso de agronomia na Universidade Estadual de Londrina, a composição de músicas e os shows na faculdade. "Meus pais só levaram a sério minha vontade quando começou dar certo", diz o cantor que nasceu em um bairro nobre de São Paulo. Depois de elaborar um plano de carreira na música sertaneja, percebeu que precisava de um parceiro que fizesse a segunda voz e chegou ao nome de Fernando por indicação de um músico com quem já havia tocado. Após uma semana de testes, teve a certeza de ter encontrado quem procurava. "A voz do Fernando combina com a minha." E o faro para negócios também.

ENTREVISTA

Glória Braga

Superintendente do ECAD

‘SERTANEJO ESTÁ EM TODO PAÍS’

Glória Braga fala sobre o fenômeno da dupla e de polêmicas que envolvem a entidade.

Qual o seu posicionamento quanto à pressão pela fiscalização do ECAD?

Existe hoje um direcionamento de governo de maior intervenção em todos os segmentos da sociedade. A fiscalização do Ecad faz parte dessa política do Estado. Não recebemos nenhuma subvenção do Estado e se ele quiser fiscalizar, que seja de forma técnica.

O que os compositores recebem reflete com fidelidade a execução de suas músicas?

O maior inimigo do compositor é o não pagamento do direito autoral. O não pagamento impacta até na coleta de informações. Os valores poderiam ser muito maiores. Só as TVs por assinatura nos devem R$ 2 bilhões em direitos.

O que explica o fato de os sertanejos estarem nas primeiras colocações de arrecadação?

O sertanejo é um sucesso nacional, toca permanentemente. A posição do Sorocaba é fruto disso. E o sertanejo está em todo o País. Esse é o motivo.

Tudo o que sabemos sobre:
SertanejoFernando e Sorocaba

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.