ALESSIA PIERDOMENICO/REUTERS
ALESSIA PIERDOMENICO/REUTERS

Como Mark Ronson virou o produtor queridinho da indústria

O artista ganhou fama ao assinar a produção dos discos mais pop da última década

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

06 de abril de 2015 | 03h00

“Se eu sonhava em ser um popstar?” Mark Ronson repete a pergunta quase instintivamente, como se precisasse ganhar alguns preciosos segundos para elaborar a resposta. Músico e produtor, ele ganhou fama ao assinar a produção dos discos mais pop da última década, mas a entrevista era uma ocasião rara para falar de si. Ronson realizou uma série de entrevistas individuais por telefone com jornalistas do mundo todo para divulgar o novo disco solo dele, o quarto da carreira, Uptown Special, lançado no Brasil pela gravadora Sony Music.

Diferentemente dos colegas de profissão, produtores cuja figura é de alguém escondido nas sombras, resignado a viver entre as quatro paredes dos estúdios, Ronson não se esconde. Coloca seu rosto diante dos paparazzi vorazes. A fama massiva é assustadora – ele viu os efeitos dela na amiga Amy Winehouse –, mas o produtor e músico sabe como participar do jogo sem ser tragado por ele. E a publicidade, aliada ao talento, não lhe fez mal.

Do disco 19, estreia de Adele, a Back to Black, obra-prima de Amy Winehouse, do novo e refrescante New, de sir Paul McCartney, a Unorthodox Jukebox, mais um retumbante sucesso Bruno Mars, os principais lançamentos do pop que se enquadravam na categoria de R&B na última década compartilhavam a sonoridade vintage, o funkeado cheio de suingue e o resgate do melhor da música negra dos anos 1960 e 1970. Todas são peças-chave da construção musical de Ronson.

" SRC="/CMS/ICONS/MM.PNG" STYLE="FLOAT: LEFT; MARGIN: 10PX 10PX 10PX 0PX;

De família rica e influente na música (o pai dele, veja só, tocou guitarra com David Bowie, na banda Spiders From Mars); de boa pinta na sua maneira; e jovem (39 anos), mas com o devido respeito e conhecimento às tradições da black music clássica. Características reunidas, não é difícil entender como um britânico branquelo e franzino se tornou o rosto de uma geração que busca resgatar a música negra norte-americana.

O novo Midas do pop nasceu no noroeste de Londres, em um berço dourado, mas passou por um longo aprendizado para chegar onde está. Conviveu com o movimento hip hop no início dos anos 1990, tornou-se DJ e vibrava quando conseguia receber US$ 50 para tocar em algum clube noturno. Em dez anos, ele já havia conseguido assinar um contrato com a gravadora Elektra Records e lançado o primeiro disco, Here Comes the Fuzz, um álbum que reunia músicos distintos, como Jakc White, Aya, Sean Paul e Sean Paul.

A estrada de Ronson cruzou com Lily Allen. Ela, ainda uma estrela emergente que gravada o disco de estreia, Alright, Still. E, ele, um produtor que precisava de espaço. Ela, com o hit Smile, encontrou a fama. Ronson, naquele mesmo ano de 2006, dava o passo mais importante na carreira ao lado da sua cara-metade musical, Amy Winehouse, com quem gravou o sucesso Back to Black.

Depois disso, os trabalhos surgiram aos montes para Ronson. “Escolho por instinto”, explica o produtor sobre o processo de escolher qual será o próximo álbum a ser gravado. Foi por instinto que chegou a Adele, dois anos antes do estouro dela. Na época, ela estreava com 19, um disco não tão impressionante como o sucessor, mas a semente do R&B dolorido foi plantada ali. “Não é possível fazer milagre. Acho que meus melhores trabalhos foram feitos ao lado de pessoas realmente talentosas”, explica. “Não dá para fazer um truque no estúdio e transformar artistas ruins em alguém bom.” Para ele, “Amy (Winehouse) e Adele são donas de vozes que não precisam de nenhum truque”.

O currículo recheado e uma noite como DJ foram o suficiente para que ninguém menos do que Paul McCartney escalasse Ronson para produzir o novo disco de inéditas. Depois de se aventurar por standards em Kisses on the Bottom, o ex-Beatle gostaria de se conectar com a música de hoje e Ronson foi o escolhido para essa repaginada.

O produtor costuma ser bombardeado por questões sobre Paul e Amy, as duas mais importantes colaborações – o que é compreensível. Mas, ainda assim, não consegue enxergar uma ligação entre as duas forças motoras tão distintas como os dois. Amy, com sua fúria rebelde, e Paul, com o pop cristalino e puro. “São duas lendas”, diz ele. “Não consigo, contudo, forçar uma ligação entre os dois”, explica.

Uptown Special coroa a boa fase de Ronson como produtor – e como estrela principal. O hit Uptown Funk, lançada primeiramente no mais recente álbum de Bruno Mars, é a música mais tocada nas rádios do mundo todo, nesta última semana, de acordo com a Crowley, e é a segunda faixa mais executava no serviço de música por streaming Spotify desde o lançamento, em novembro do ano passado.

Ronson admite que enfrentou um bloqueio criativo durante a gravação de Uptown Funk. “Foi uma das primeiras que gravamos a base”, lembra ele. “Depois, foi difícil conseguir repetir aquela energia. Chegamos a um ponto insano.” O álbum começou a ser gerido ainda em 2012, mas a agenda afastou Ronson do disco solo, lançado agora.

Colocar o próprio nome na capa de um álbum não é um passo comum na carreira de um produtor, mas Ronson não é comum. “Acho que talvez quando eu tinha 12 ou 14 e comecei a tocar guitarra com uma banda, naquela época, eu imaginava que gostaria da ideia de ser uma estrela”, admite, ao responder a primeira pergunta. “Depois, percebi que não tocava guitarra tão bem assim para isso”, completa, rindo.

Tudo o que sabemos sobre:
Música

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.