Associated Press
Associated Press

Como George Harrison descobriu a cítara indiana, conheceu Ravi Shankar e criou um novo rock

O beatle ficou fascinado não apenas pela cítara, mas pela cultura indiana e sua religiosidade

Carlos de Oliveira , Especial para o Estado

05 Agosto 2018 | 19h39

A história oficial dos Beatles conta que o primeiro contato de George Harrison com uma cítara indiana se deu no set de filmagens de Help!, mais especificamente na cena do restaurante, onde um grupo de músicos toca ao fundo do salão. É verdade.

Verdade também que o beatle interessou-se pelo som exótico desse instrumento da música clássica indiana e imaginou utilizá-lo no pop, no rock, nos Beatles. Saiu à procura de uma cítara e a encontrou numa loja da Oxford Street, em Londres. Não era lá um grande instrumento. Parecia mais coisa para turista.

Comprou-a por poucos shillings e foi para o estúdio de Abbey Road, onde a banda preparava seu novo álbum, Rubber Soul, de 1965. De início, John e Paul estranharam aquele instrumento cheio de cordas, mas de sonoridade intrigante. John acabara de compor uma nova canção, Norwegian Wood, supostamente inspirada em uma relação extraconjugal que tivera quando era casado com Cynthia Powell Lennon.

O lick de cítara tinha apenas 13 notas. Tudo muito simples. Mas quem poderia imaginar que, naquele momento, Harrison estaria criando uma outra denominação musical, o raga rock, logo copiada pelos Rolling Stones em Paint in Black. A cítara atravessou o Atlântico e aportou nos Estados Unidos, onde foi usada pelos Byrds e, mais adiante, por hippies de todos os matizes, no chamado verão do amor.

Poderia ter sido uma moda passageira. Só não foi porque George ficou fascinado não apenas pela cítara, mas pela cultura indiana e sua religiosidade. Na verdade, a história da cítara e seu sentido mais profundo, místico até, na vida de George Harrison começa em junho de 1966, graças aos esforços de um indiano de nome Ayana Angadi e de sua esposa, a inglesa Patricia Fell Clark.

Ayana, nascido na vila de Jankanur, havia se mudado para Londres em 1924, para graduar-se em matemática. Em 1943, casou-se com Patricia. Três anos depois criaram em sua casa o Círculo de Música Asiática (AMC, na sigla em inglês), uma espécie de rede cultural que apresentou músicos indianos como Ravi Shankar, um mestre clássico, a músicos ocidentais. Os Beatles só o conheceriam um pouco mais tarde.

Voltemos, então, à gravação de Norwegian Wood. Quem entende de cítara informa que, apesar da profusão de cordas do instrumento, a melodia é executada em apenas uma delas. As demais vibrariam por simpatia. Pois foi justamente essa corda que se partiu durante a gravação da música.

Onde encontrar uma nova corda e como fixá-la corretamente ao instrumento? George recorreu à embaixada da Índia em Londres e esta o remeteu à AMC. O beatle não só resolveu seu problema, podendo concluir a gravação de Norwegian Wood, como tornou-se um convidado especial para as sessões de música indiana no AMC.

Há quem sustente que nada de bom acontece sem que haja uma pitada de sorte, de coincidência, sincronicidade, ou como queiram chamar.

Ravi Shankar. Terminado o álbum, os Beatles partiram para um tour pelos Estados Unidos, onde David Crosby e Roger Mcguinn, dos Byrds, apresentaram aos Beatles a música de Ravi Shankar. George ficou maravilhado. No ano seguinte, outra coincidência: George e sua mulher à época, Pattie Boyd, foram convidados para um jantar na residência dos Angadi, onde funcionava a AMC.

O outro convidado era Ravi Shankar.

Começaria aí uma relação de mestre e discípulo, segundo a página George Harrison in Memorial.

Com a ajuda de Shankar e de outros músicos indianos, George gravou Love You Too, no álbum Revolver. Em 1967, no álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band novamente o beatle voltaria à cítara na música Within You Without You, inspirada na música clássica indiana, uma espécie de fusão intercultural e filosofia meditativa, segundo alguns críticos.

A partir daí, George mergulhou fundo na religiosidade (não apenas indiana), como ficou evidente em sua obra prima All Things Must Pass, de 1970, primeiro álbum solo de um beatle depois do fim da banda.

George morreu de câncer em 29 de novembro de 2001, aos 58 anos, em Los Angeles. Cremado, suas cinzas foram jogadas nos rios Ganges e Yamuna, na Índia. Um ano depois, Eric Clapton e Ravi Shankar produziram um tocante espetáculo intitulado Concert for George, no Royal Albert Hall, Londres

O concerto foi dividido em duas partes. Na primeira, Anouska Shankar, filha do mestre indiano, tocou em sua cítara a peça Arpan, que significa oferecer. Em seguida, regida por Anouska, uma orquestra indiana, com instrumentos típicos e cantos, concluíram a composição de Ravi Shankar.

Na segunda parte do espetáculo, Clapton e dezenas de amigos de George, além do filho Dhani, tocaram suas músicas. A ligação de George com a cítara e com a Índia estava definitivamente selada. Algo a ser visto e ouvido com carinho e emoção.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.