REUTERS/Carlo Allegri
REUTERS/Carlo Allegri

Como festivais de música podem funcionar em harmonia com o meio ambiente

Eventos tanto contribuem para a crise climática como são prejudicados por suas próprias práticas

Julia Gray, The Washington Post

26 de outubro de 2021 | 10h00

Em 1969, meio milhão de jovens pegaram carona até a fazenda de Max Yasgur em Bethel, no estado de Nova York, e o festival de música moderno nasceu debaixo de uma chuva torrencial. Em 2021, para sua versão da era covid, o Bonnaroo foi remarcado do verão para setembro - apenas para ser cancelado dois dias antes de começar, por causa de “inundações extremas” em todos os campings do Tennessee. Poucas semanas antes, o furacão Henri pôs fim ao show We Love New York no Central Park.

Os festivais de música estão na posição hoje tão comum de contribuírem para a crise climática e, ao mesmo tempo, serem prejudicados por suas próprias práticas. As latas de lixo transbordam de copos de plástico, luzes brilhantes e caixas de som estrondosas devoram energia elétrica; fãs e artistas vêm de caro e avião de todo o mundo. Por alguns dias, os festivais produzem felicidade em parques e campings fechados. Vendem o poder transgressivo da música num palco patrocinado por aplicativos de entrega. Mas os verões estão ficando mais quentes, as tempestades são fatais e as janelas para promover grandes eventos ao ar livre estão diminuindo. Qual é o sentido da música se, no fim, ela só vai nos trazer desastres?

“Neste verão, o que vimos meteorologicamente foi um grande número de inacreditáveis ondas de calor, chuvas e inundações, quebrando todos os recordes. Quando você tem milhares de pessoas reunidas ao ar livre ou em circunstâncias parcialmente expostas, estes são precisamente os tipos de condições em que as tempestades e o calor extremo são um grande problema”, disse Daniel Swain, cientista climático da UCLA.

No mês passado, o Governors Ball celebrou seu décimo aniversário com uma festa de vários dias em Nova York. Os organizadores transferiram o festival da Ilha Randalls para o Citi Field por causa da proximidade com o metrô e da “flexibilidade diante de possíveis eventos climáticos” quando a edição de 2019 terminou em absoluta desordem. Depois de acenar com um possível cancelamento diante de uma previsão de tempestade, os organizadores decidiram abrir os portões na tarde de domingo para o último dia do festival. Em poucas horas, a chuva começou a cair e os palcos ficaram no escuro. Uma voz veio dos alto-falantes instruindo os presentes a evacuar imediatamente a ilha. Adolescentes chapados destruíram as vitrines da marca e invadiram cenários para fotos. O caos se instalou enquanto milhares de pessoas corriam para a Ponte da Ilha de Ward, destruindo tudo no caminho.

Desta vez, a página do evento prometeu: “Estamos preparando as áreas de asfalto com AstroTurf de alta qualidade, para dar um toque de cor e conforto”. Estava excepcionalmente quente para o final de setembro, e jovens hiperestimulados da Geração Z e do Milênio afluíam vestidos de collant de neon e camisetas de basquete. A Honda oferecia tatuagens grátis. A Red Bull montou um “Sky Seats”, onde os participantes competiam por uma chance de beber bebidas energéticas gratuitas. Quando tentei pedir um whisky sour no estande da Jim Beam, uma mulher me indicou uma coleção de iPads. “Você tem que fazer o quiz antes”, disse ela. “O algoritmo vai descobrir qual sabor combina mais com você, baseado na sua personalidade”.

Impactos

O argumento de que “os festivais não têm mais nada a ver com música” é um ponto discutível. Os festivais são atrações turísticas que alimentam um negócio extremamente lucrativo. A estimativa é que, no ano que vem, a indústria de música ao vivo vai movimentar US $ 31 bilhões em todo o mundo. E, em linha com os grandes negócios contemporâneos, as empresas de entretenimento são incentivadas a refletir sobre sua pegada de carbono e traçar metas para deixar suas produções mais sustentáveis. O transporte de artistas e fãs é considerado o aspecto mais ambientalmente complicado da organização de um festival, então alguns eventos incentivam caronas e transporte público.

O Coachella, que acontece no meio do deserto, três horas a leste de Los Angeles, criou o “Carpoolchella” para recompensar os participantes que viajam juntos de carro. Ainda assim, mesmo sendo um dos maiores e mais lucrativos festivais de música do mundo, suas iniciativas são frágeis. A página de sustentabilidade do Coachella está repleta de retóricas fofas, tipo “Fale sobre os impactos das mudanças climáticas”, “Faça parte de uma turma para recolher resíduos e aumentar a reciclagem e a compostagem” e “Compartilhe as melhores práticas”.

De acordo com um relatório de impacto ambiental sobre o Coachella e outros festivais realizados pela empresa organizadora Goldenvoice, esses eventos geram cerca de 1.612 toneladas de resíduos sólidos anualmente, ou cerca de 107 toneladas por dia de festival. Apenas 20% desse lixo é reciclado.

Isso não é incomum. Dogan Gursoy, cujo livro Festival and Event Tourism Impacts estuda como os megaeventos afetam as comunidades anfitriãs e o meio ambiente, disse que 70% a 80% dos resíduos dos festivais não são separados para reciclagem. Enviar os resíduos para aterros é mais barato, obviamente. “Muitas empresas só passam um verniz de consciência verde, só se concentram nas atividades que podem gerar mais receita”, disse Gursoy. “Os festivais precisam se concentrar nos esforços de sustentabilidade que talvez não ajudem seus resultados financeiros e precisam fornecer dados concretos sobre suas práticas ambientais. O objetivo final deve ser zero emissões de carbono, zero pegada de carbono”.

Caminhando pelo Governors Ball, vi gestos verdes na forma de tacos veganos, recipientes de reciclagem espalhados e água na caneca. As bebidas vinham em copos de plástico descartável. Um canteiro de grama falsa me levou à área onde VIPs desfrutavam de álcool grátis e de um refúgio das hordas de Ps menos importantes. Jason Littrell, bartender e consultor da indústria de bebidas alcoólicas, estava preparando bebidas tropicais no estande da Vice x Broken Shaker. Parte de seu negócio, ele me disse depois, usa dados para ajudar os clientes a planejar exatamente o que precisam para determinado evento - copos, bebidas, gelo, mão de obra etc. - economizando dinheiro e evitando o consumo excessivo. Os anos de trabalho em festivais e grandes eventos lhe ensinaram que o excesso é a norma.

Os organizadores calculam o que e quanto comprar, levando em consideração as contingências em potencial, mas depois pedem mais. “Você nunca tem certeza e não pode sair correndo depois”, disse ele. “Lidamos com muitos elementos reativos. Apesar do fato de conseguirmos atender a 30 mil pessoas, ainda mandamos alguém para esvaziar as prateleiras de copos de todos os Walmart. Acontece o tempo todo. As coisas acessíveis são as descartáveis. É assim que a coisa funciona”. Oferecer um bacanal gratuito, como o serviço de bebidas ilimitadas na área VIP, exige esse tipo de despesa. “As empresas do festival prendem as pessoas dentro do espaço e, em seguida, garantem que elas comprem coisas. É assim que esses negócios criam milhares de empregos”, Littrell disse, meio que rindo. “Elas estão basicamente criando uma cidade, têm que encontrar recursos, suprimentos, equipamentos. E, depois de alguns dias, tudo acaba”.

Artistas e meio ambiente

A esta altura, os artistas estão bem cientes desses impactos negativos. Em 2019, a banda Massive Attack encomendou um estudo sobre as emissões de carbono da indústria da música ao vivo. O vocalista da banda, Robert Del Naja, admitiu que eles talvez venham a interromper as turnês, escrevendo, “num contexto de emergência, é inaceitável continuar fazendo os negócios como sempre - independentemente de sua natureza, perfil ou popularidade”. O Coldplay também pausou sua agenda de turnês até que pudessem produzir shows neutros em carbono, que serão lançados em março.

Um hiato nas turnês talvez não signifique muito para uma grande banda. Mas shows e festivais são cruciais para a subsistência da maioria dos artistas, agora ameaçados pela pandemia persistente e pelas mudanças climáticas. O trio pop Muna está em turnê com Phoebe Bridgers, e Governors Ball foi seu segundo festival desde da retomada dos eventos. “Estamos com medo”, disse a cantora da banda, Katie Gavin. “Vai ser prejudicial para a turnê se alguém da banda ou da equipe pegar covid. Temos que ser muito cuidadosas na turnê para que possamos continuar na turnê”.

“Estou com medo do estado sócio-político do mundo, com medo das mudanças climáticas, com medo da covid”, disse Naomi McPherson, outra integrante do grupo. A banda relembrou cenas de fãs desmaiando por causa das ondas de calor recentes. “Estou com medo todos os dias. As coisas estão ficando mais extremas”. A Muna tenta fazer escolhas “éticas”, como imprimir a marca da banda em camisas vintage e usar garrafas de água reutilizáveis. “Sentimos o mesmo que qualquer pessoa que esteja tentando descobrir como fazer mudanças na sua própria vida”, disse Gavin. “Não somos uma grande empresa. Somos só três artistas na estrada. Tentamos fazer nosso trabalho como artistas e acho que às vezes as pessoas só querem um momento para se perderem na música”.

“É um microcosmo de um problema maior. As decisões individuais são importantes, mas você é limitado pelas decisões disponíveis”, disse Swain, o cientista climático da UCLA. “[Os organizadores] precisam facilitar as escolhas boas”.

A organização sem fins lucrativos Reverb promoveu o verde em mais de 250 turnês, trabalhando com grandes bandas como Dave Matthews Band, Dead & Co., Billie Eilish e Tame Impala. Seus esforços incluem a distribuição de garrafas de água reutilizáveis e instalação de estações de refil, implementação de sistemas de reciclagem e compostagem, estabelecimento de “vilas de ação” para organizações locais e doação de itens não utilizados, como produtos de higiene pessoal e baterias. O objetivo é deixar todas as turnês “positivas para o clima”, o que significa que os eventos eliminam mais poluição de gases do efeito estufa do que criam.

“É um problema contínuo. Estamos vendo incêndios florestais no oeste e inundações no leste. As pessoas estão começando a prestar mais atenção”, disse o cofundador Adam Gardner. Ultimamente, ele notou um aumento nos festivais e locais solicitando parcerias.

“Os festivais estão numa posição única porque muitas vezes estão construindo do zero. E têm a oportunidade de efetuar mudanças envolvendo todos os fãs”.

Mais festivais estão encontrando espaço para soluções criativas. O Glastonbury, no sul da Inglaterra, baniu as garrafas plásticas descartáveis e começou a usar pratos e talheres compostáveis ou reutilizáveis. O Bonnaroo planejou construir um palco movido a energia solar para painéis de discussão, bem como um “jardim de aprendizagem”, onde os participantes aprendem a cultivar seus próprios alimentos. Gursoy sugere incluir os custos adicionais dos esforços de sustentabilidade no preço do ingresso. Susan Clark, diretora do programa de mestrado em liderança de sustentabilidade da Universidade de Buffalo, disse que os festivais podem se tornar menores e mais localizados para reduzir o número de viagens e o risco geral. Além disso, em caso de cancelamento, menos pessoas significa menos reembolsos.

Jon Christensen, que ensina comunicações ambientais na UCLA, está confiante de que a indústria se adaptará com ajustes de custos e seguros. Mas as compensações de carbono precisam desempenhar um papel construtivo na solução, bem como as regras e incentivos para organizadores e participantes.

“O desejo de celebrar juntos por meio da música não vai acabar”, disse ele. “Se não pudermos ter beleza e alegria para enfrentar a crise climática, não teremos sucesso”. / Tradução de Renato Prelorentzou

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