DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Como escrever a primeira matéria que Zuza não vai ler?

Mais do que uma fonte, Zuza era o rumo, alguém em quem os jornalistas pensavam muito antes de escrever sobre jazz, bossa nova e música brasileira. A sua aprovação era a glória e o seu silêncio, uma derrota

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2020 | 12h48

É difícil escrever algo sobre Zuza Homem de Mello ou qualquer assunto ligado ao jazz, ao samba ou à bossa nova sabendo que ele não estará lá com o jornal aberto, sentado na poltrona da sala ao lado do toca discos para ler tudo cuidadosamente ao lado de Ercília. Depois, se gostasse do que leu pelo texto ou pelo tema, ia ao computador escrever ao próprio repórter com o editor em cópia para espalhar até onde podia o quanto havia degustado a matéria e da importância que ela tinha para que as pessoas soubessem mais de música. Ele não precisava de mais nada. Aos 87 anos, era respeitado por Wynton Marsalis, havia produzido shows de Elis Regina e participado da evolução tecnológica da TV a partir dos especiais da Record dos anos 1960. Roberto Carlos o chamava para entrevistá-lo, Gil mandava parabéns por vídeo no dia de seu aniversário e toda a história da música moderna a partir do samba-canção passava por ele. Ainda assim, agia, falava, recebia e se despedia de qualquer ser humano ao lado com uma generosidade desconcertante.

Há muitos recortes para se justificar a falta que esse homem fará a partir da manhã deste domingo, dia 4 de outubro. A família perde seu carinho, seu sorriso, sua doçura e tudo o que só cada um deles, sua mulher, seus filhos e seus netos, podem ou não quantificar. Os curadores perdem uma referência de bússola na escolha de line ups estupendos para montar festivais. Os radialistas se despedem de um arquivo de experiências. Os biógrafos não terão mais uma biblioteca viva de lembranças cristalinas e fidedignas. Institutos sérios como Itaú Cultural, Moreira Salles e Sesc não contam mais com o pé direito da estrutura de seus projetos mais sólidos. Clássicos jornais como este Estadão é desfalcado do colunista de suas investidas mais grandiosas, como os especiais de Tom Jobim, Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes que tiveram textos com sua assinatura. E alguns jornalistas, e aqui preciso me incluir em primeira pessoa, algo que Zuza jamais faria, deixam de contar com um amigo leal, um mestre, alguém que capaz de fazê-lo inventar uma matéria apenas para “ligar pro Zuza”.

E cada ligação era uma vida. Se Ella Fitzgerald seria lembrada por alguma efeméride mesmo irregular, eu ligava pro Zuza. “Ella é incrível. Veja suas artimanhas usando na voz técnicas do trompete”, ele dizia. Se havia uma agenda qualquer de um grupo tocando temas de Duke Ellington, ligue pro Zuza. “Duke, para mim, o maior. Um homem que reunia o compositor, o arranjador e o instrumentista. Não há similar no mundo.” Ao fazer uma biografia de Elis Regina, comece por Zuza: “Vou te mostrar uma entrevista inédita que fiz com ela para a Rádio Joven Pan, em que conta de como gostava da voz de Chet Baker.” Se o assunto era biografias, fale com Zuza: “Sabe, a gente precisa parar de pesquisar em algum momento e ouvir os artistas. É preciso se emocionar com eles antes de escrever sobre eles.”

Em nosso último encontro pessoal, antes da pandemia, fomos a um restaurante ao lado de sua casa. Zuza me contou sobre o livro que iria expandir sobre João Gilberto e eu quis saber dele qual, enfim, o grande álbum de João. Vi seus olhos brilharem como se fosse um garoto de 16 anos ao começar a me falar de Amoroso. Ele chorou falando de um disco lançado em 1977 que já havia escutado milhares de vezes. Ao mesmo tempo que o passado vivia tão fortemente em suas memórias, Zuza e Ercília eram vistos em shows de novos artistas de jazz e de música brasileira o tempo todo antes que o mundo nos retraísse. E ele se empolgava com gente nova, como Livia Nestrovski, com a mesma intensidade que trazia as memórias dos anos 50 e 60 para lembrar de suas descobertas durante os anos em que viveu em Nova York entre shows de Thelonious Monk e John Coltrane.

Não por acaso, e para terminar como Zuza gostava de fazer, atendo-se à exatidão dos detalhes, um dos álbum mais transformadores de sua vida foi Brilliant Corners, que o pianista Monk lançou em 1957 com o saxofonista Sonny Rollins e o trompetista Clark Terry, além de Max Roach na bateria, Paul Chambers no contrabaixo e Ernie Henry no sax alto. "Lembre-se de Oscar Pettiford também no baixo em algumas faixas", pareço ouvi-lo aqui. Sim, claro, Pettiford em algumas faixas. A sonoridade, entendo agora, explicava sua essência. Em Brilliant Corners está o peso do passado, o frescor do futuro e, sobretudo, um capacidade extasiante de se sentir o presente que seria levada por mestre Zuza até os seus últimos dias.

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