Como entrar sem ser convidada no Clube do Bolinha

Frank Sinatra integrou um dos mais famosos Clubes do Bolinha da música norte-americana e mundial, o Rat Pack (com Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop). Seu repertório sempre foi de macho romântico, na maior parte da existência, e a maior intérprete feminina das canções que ele celebrizou acabou sendo a própria filha, Nancy Sinatra (que ele formou para isso).

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2014 | 03h00

Por isso, sempre é bacana quando uma garota corajosa vem tentar explorar a “porção mulher” de Sinatra (como Gil disse, em Super-homem, A Canção), à revelia das advertências. Uma enquete recente no site Sinatra Family perguntava justamente qual seria, entre as cantoras, aquela que teria encarado com mais leveza aquele repertório.

O resultado foi o seguinte: Rosemary Clooney vem em primeiro, seguida por k.d. lang (que emparelhou voz com um dos crooners mais famosos depois de Sinatra, Tony Bennett), Peggy Lee, Sarah Vaughan, Billie Holiday, Marilyn Monroe e, com as bênçãos da contemporaneidade, Lady Gaga e Amy Winehouse.

Sinatra, particularmente, adorava Billie Holiday, e costumava dizer que tinha aprendido muito com ela. Mas seus filhos, Frank Jr. e Nancy, que o acompanharam em boa parte da vida, juram que sua favorita era mesmo Ella Fitzgerald (que tinha uma versão de Lady Is a Tramp considerada matadora por gerações de amantes do jazz).

Dentro do universo sinatriano, no entanto, parece claro que Julie London seria a alma gêmea perfeita de Frank. Julie foi uma cantora e atriz que atuou com Gary Cooper e outros astros e morreu em 2000. Cantando Cole Porter, ela dava ao repertório um toque atmosférico, cênico, que poucas colegas conseguiam – não é que fosse melhor, era mais sutil em algumas recriações, sua interpretação tinha algo de uma sensualidade típica dos anos 1950, uma coisa enfumaçada, de lábios grossos. 

O músico Eumir Deodato sustenta que Julie foi protagonista de um álbum que está na gênese da bossa nova brasileira. “João Gilberto é gênio, mas copiou a batida e o jeito de cantar do disco de Barney Kessel e Julie London, Julie Is Her Name, de 1955”, disse Deodato.

Claro que o universo que Sinatra construiu com suas interpretações tinha a ver com o ambiente em que ele desenvolveu sua arte – nasceu e cresceu nos Estados Unidos dos anos 1920 e 1930, no meio de uma Depressão, e seus melhores amigos costumavam ser gângsteres. Isso transparece em seu mundo musical, mas não precisa ser necessariamente uma Jessica Rabitt para dominar esses códigos. Hoje em dia, eles são simbologia e signos culturais, mais do que realidade. A melhor forma de dominá-los é entrar no clube sem ser convidada. Só com o charme. 

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