Natalia Mantini/The New York Times
Natalia Mantini/The New York Times

Como Camila Cabello perdeu alguns amigos e encontrou sua voz

'Camila', primeiro disco da cantora e compositora pop cubana, ex-integrante do grupo Fifth Harmony, já está disponível

Reggie Ugwu, The New York Times

12 Janeiro 2018 | 13h30

MIAMI — Camila Cabello se apaixonou apenas uma vez. Mas quando se trata de "crushes", ela é uma especialista.

A cantora e compositora pop, ex-integrante do grupo Fifth Harmony, encheu páginas de notas no seu iPhone com ruminações sobre loucura doce da paixonite e as suas consequências — palavras de desejo e bravura que seus fãs transformam em legendas de Instagram e gritam para ela de volta em seus shows. Um par de duetos sugestivos nos últimos dois anos, I Know What You Did Last Summer, com Shawn Mendes, e Bad Things, com Machine Gun Kelly, tem mais de 520 milhões de streamings, segundo a Nielsen Music. Junto com seu sucesso solo do último verão, Havana, que lidera a parada pop da Billboard por mais tempo do que qualquer outra canção de uma artista mulher nos últimos cinco anos, eles ajudaram a torná-la um modelo para jovens garotas à beira de um terreno emocional mais íngreme.

Numa tarde de dezembro em um bairro frondoso de Miami, Cabello, de 20 anos, revisitou o marco zero das suas vicissitudes românticas. Dez anos atrás, no parquinho da Pinecrest Elementary School, um jovem Romeu combinou um encontro com ela entre as rosas do Panamá e lhe deu seu primeiro beijo, destravando o código fonte de uma arca sem fundo de canções de amor.

“Foi esse garoto com quem eu fiquei obcecada todo meu tempo na escola”, ela lembra. “Ele me beijou na bochecha e eu corri — ainda faço isso quando alguém quer me beijar.”

Embora ainda não esteja na idade legal para beber, Cabello percorreu um longo caminho desde a escola. Aos 15, ela apareceu na casa de milhões de americanos como participante do reality musical The X Factor. O programa a colocou num grupo de cinco mulheres modelado no One Direction, que os espectadores nomearam Fifth Harmony. Dois discos — na gravadora Syco, de Simon Cowell, em parceria com a Epic Records — e seis turnês se seguiram num espaço de cinco anos, durante os quais Cabello foi, se não oficialmente a líder do grupo, uma favorita consensual, com a maior voz e aqueles olhos desestabilizadores.

E aí tudo ruiu. Como tende a acontecer com grupos pop fabricados. Só que nesse caso, a separação foi repentina e surpreendemente perversa: um dia, o Fifth Harmony estava apresentando o último show da turnê Jingle Ball, sorrindo e balançando os cabelos. No outro, comunicados conflitantes e contraditórios foram lançados, e Cabello se encontrou sozinha no canto solitário de uma divisão aguda.

Isso foi apenas há um ano. Nesse ínterim, Cabello se levantou aos trancos e barrancos, colocando as mãos nos controles da sua vida profissional pela primeira vez.

Seu novo álbum, Camila, vai testar as prospecções de sua proposta solo. As maiores estrelas a romperem com grupos — Michael Jackson, Justin Timberlake, Beyoncé — o fizeram com uma base mais sólida, numa era em que a indústria da música prosperava. Hoje, Cabello é apenas uma em uma cacofonia de vozes tentando estourar num ambiente difícil, pós-streaming.

“Não é fácil para ninguém, não importa seu ponto de partida”, disse Tom Poleman, programador chefe do conglomerado de rádio iHeartMedia, que recentemente levou Cabello aos estúdios. “A área é tão competitiva que você realmente precisa do alinhamento dos planetas.”

Biografia. Cabello vem de uma linhagem de trabalhadores. Ela nasceu em Havana, de mãe cubana e pai mexicano, e se mudou entre Cuba e México até os seis anos. Um dia, sua mãe, Sinuhe, lhe disse que ela iria para a Disney World, e as duas passaram o mês seguinte juntas no ônibus para um centro de imigração na fronteira mexicana com os Estados Unidos. Sinuhe era arquiteta em Cuba, mas em Miami, para onde ela e a filha se mudaram com um amigo da família, ela encontrou emprego no setor de calçados de uma loja de departamentos. 

O pai de Cabello, Alejandro, emigrou mais tarde e trabalhou lavando carros num shopping. Eventualmente, o casal economizou o suficiente para começar uma empresa de construção. “A história dos meus pais me ajuda a saber o que é importante na vida”, diz Cabello. “Muitas vezes você pode estar aqui e estar no Twitter e pensar que o mundo é a internet. Mas eu sei como é nos lugares de onde minha família vem, e as lutas pelas quais as pessoas passam.”

Foi uma surpresa para Sinuhe e Alejandro quando, como presente de aniversário de 15 anos em 2012, Cabello pediu que eles a levassem para o teste da segunda temporada do The X Factor.

“Ela era tão tímida, tão tímida”, diz Sinuhe, que agora viaja nas turnês, descrevendo como sua filha mais velha cairia em lágrimas em festas de famílias com muita gente e música alta. “Nós nem pensamos que a música era uma possiblidade para ela”, diz Sinuhe.

No Fifth Harmony — com Ally Brooke, Dinah Jane, Lauren Jauregui and Normani Kordei — Cabello estava nas nuvens. O grupo tocou na Casa Branca (duas vezes) e lançou hits viciantes como Worth It e Work From Home, que arrebanharam mais de 1 bilhão de streamings, segundo a Nielsen Music, e lhes renderam uma legião de fãs ferozmente leais.

Mas sonhos podem mudar. Num comunicado divulgado no dia 18 de dezembro de 2016, as outras quatro membros do Fifth Harmony sugeriram que Cabello lhes tinha virado as costas, comunicando a intenção dela de abandonar o grupo “por meio de seus representantes”. Cabello, numa nota subsequente, disse que havia sido transparente sobre seu desejo de explorar uma carreira solo e foi pega de surpresa no que se tornou uma excomunhão pública.

Em um banquete de comida cubana em um dos restaurantes preferidos da família em Miami, e em uma subsequente entrevista em Nova York uma semana depois, ela concordou em falar com detalhes sobre como as coisas desandaram.

Ela disse que a colaboração, no fim de 2015, com Mendes — a primeira vez que um membro do Fifth Harmony lançou música com um nome próprio — criou tensão; que ela pediu ajuda para escrever músicas para o Fifth Harmony e foi rejeitada; que ela inicialmente queria ficar no grupo enquanto trabalhava num disco solo, mas as outras meninas lhe fecharam a porta.

“Eu estava apenas curiosa e queria aprender, e vi todas essas pessoas ao meu redor fazendo música, escrevendo canções e sendo tão livres”, ela disse. “Eu só queria fazer isso, e não funcionou.”

Cabello disse que depois do estranhamento de sua colaboração com Mendes, as coisas ficaram ainda mais amargas quando ela começou a comparecer a sessões de escrita com os produtores Diplo, Cashmere e Benny Blanco. Eventualmente, ela disse, ela recebeu um ultimato.

“Ficou claro que não era possível fazer trabalho solo e estar no grupo ao mesmo tempo”, disse. Então ela tomou uma decisão, baseando-se no que afirma ser sua convidção de que “se alguém quer explorar sua individualidade, não é certo as pessoas dizerem não para isso”.

Desde o rompimento, Cabello vem tentando superar o ressentimentos, se jogando em Camila. (Ela mudou o nome de The Hurting, The Healing, the Loving em parte para se livrar do drama.)

Mas nem sempre tem sido fácil. Em agosto do ano passado, as integrantes do grupo deram um jab pouco sutil na ex-colega com uma performance que abriu o aguardado show no MTV Music Awards. Conforme a câmera se aproximava de uma plataforma elevada e escura mostrando a silhueta de cinco mulheres, uma delas foi dramaticamente arrancada dali como se tivesse sido atropelada por um caminhão.

Os olhos de Cabello ficaram molhados quando ela se lembrou de ter assistido isso ao vivo. Ela estava em casa com a mãe. “Definitvamente me machucou”, ela disse. “Eu não esperava, não estava preparada — especialmente porque àquela altura já tinha superado. Eu fiquei como, ‘o quê? por quê?’.”

Ela se recompõe. “Eu tenho que dar espaço para as coisas boas que acontecem na minha vida”, diz. “Eu não gosto de ficar presa ao passado, especialmente quando são situações, na minha opinião, mesquinhas.”

Produção de 'Camila'. Uma descoberta importante veio há algum tempo enquanto ela estava trabalhando com o produtor Frank Dukes, nascido Adam Feeney, que criou uma reputação como co-conspirador prolífico, porém discreto, de estrelas como Drake e Lorde.

Muitos potenciais colaboradores chegaram ao estúdio armados com uma munição lustrosa e sem vergonha de hits Top 40, no estilo do Fifth Harmony. Mas a abordagem de Feeney foi mais desprendida.

Enquanto eles comiam sushi numa gravação no último inverno, ele tocou para Cabello um instrumental enganosamente simples, com um saliente riff de salsa no piano. A cantora se lembrou de sua cidade natal, e escreveu o refrão do que se tornou Havana ali mesmo.

“Não há outra artista no mundo que poderia ter feito essa canção — ela simplesmente acertou ali”, disse Feeney.

Num restaurante pouco iluminado e sobrevalorizado do centro de Manhattan, depois que suas férias em Miami terminaram, Cabello, que ultimamente tem se imaginado vegan, comeu salada de couve enquanto se balançava ao som de The Way You Make Me Feel, de Michael Jackson. A canção foi o ponto alto de uma recente noite de karaoke com sua família (ela era a única que sabia o pré-refrão final que começa com “Give it to me”).

Em 48 horas, ela iria tocar antes de Mariah Carey no Dick Clark’s New Year’s Rockin’ Eve With Ryan Seacrest, com um macacão metálico e um casaco na altura do tornozelo e cheio de joias, que lhe fez parecer uma conquistadora glamurosa. Depois, ela tinha uma turnê para planejar, conceitos de videoclipes para finalizar e uma campanha de mídia social para trabalhar.

Ela começou a explicar por que as coisas eram mais complicadas agora, como ela não tinha mais ninguém para juntar o pó.

“Mesmo quando há uma folga, nunca há uma folga de fato, porque há tantas decisões a serem tomadas e você está sempre correndo para fazer as coisas”, ela disse, enquanto Jackson improvisava no segundo plano. A canção ficou fazendo ela perder a linha de pensamento. Finalmente, depois de algumas tentativas em vão de recuperá-la, ela desistiu, parou de se explicar, e cantou junto com a música. / Tradução Guilherme Sobota

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.