Kyle Gustafson/The Washington Post
Kyle Gustafson/The Washington Post

Como a polêmica música 'Wap', de Cardi B, se tornou um para-raios político

Um fenômeno instantâneo nas mídias sociais, a música gerou remixes e memes aos montes, incluindo um subgênero de vídeos de reação de pais indignados e animados

Ben Sisario, The New York Times

04 de novembro de 2020 | 05h00

Doc Wynter ainda se lembra da primeira vez que ouviu Wap. Um dos principais programadores de rádio por décadas, Wynter se deparou com incontáveis faixas de rap com conteúdo explícito e canções de R&B “melancólicas” que exigiam beliscões antes de serem tocadas no ar. Mas mesmo Wynter, o chefe da programação de hip-hop e R&B da gigante da radiodifusão iHeartMedia, ficou surpreso com Wap, o hino descaradamente ilustrativo de lubrificação cantado por Cardi B e Megan Thee Stallion, quando recebeu uma prévia antes do lançamento da música em agosto.

“Isso te atinge desde o início – tipo, uau! – e então continua indo e indo e indo”, disse Wynter, ainda maravilhado com a enxurrada de imagens sugestivas da música. Wap chegou às ondas de rádio e aos serviços de streaming em grande estilo. Um dos sucessos mais inevitáveis do ano, a música ocupou o primeiro lugar na Billboard Hot 100 por quatro semanas e atraiu 1,1 bilhão de cliques em plataformas de streaming. Um fenômeno instantâneo nas mídias sociais, a música gerou remixes e memes aos montes, incluindo um subgênero de vídeos de reação de pais indignados e animados.

Com um alcance não visto há anos, Wap também se tornou uma espécie de para-raios político, condenada por comentaristas conservadores como Ben Shapiro, que viram a música como uma personificação “muito, muito, muito, muito, muito vulgar” da hipocrisia liberal. (Cardi B tem apoiado publicamente Joe Biden e Bernie Sanders.)

No entanto, apesar da provocação desinibida da música, sua popularidade foi parcialmente conquistada por um dos mais antigos pesadelos da indústria musical: a autocensura. Antes que Wap pudesse ser tocada no rádio, sua verborragia mais explícita foi podada pelos técnicos de Cardi B. Wynter lembrou que a cópia aparentemente menos ofensiva oferecida primeiramente pelo selo de Cardi B, Atlantic – a versão “limpa” da música, no jargão da indústria –, ainda era muito picante para transmissão, levando Wynter a pedir nove edições adicionais de última hora.

 

E o videoclipe de Wap que pegou fogo no YouTube foi cuidadosamente censurado. Se os fãs ouvissem apenas essa versão, eles não teriam aprendido o que o acrônimo do título significa – em vez disso, apenas que algo estava “molhado e escorregadio”.

O sucesso de Wap destacou um dos pequenos segredos sujos da indústria da música: que, mesmo em uma era de vulgaridade desenfreada – e 35 longos anos desde as medidas severas às letras de música pela elite de Washington –, a censura das canções pop permanece profundamente enraizada no trabalho de artistas e seus marqueteiros.

Hoje, a maioria dos principais lançamentos que têm algumas palavras atrevidas – incluindo as últimas de Taylor Swift – também sai em versões censuradas. Décadas atrás, isso pode ter sido feito em parte para evitar polêmica política. Agora, os negócios são a força motriz, pois as gravadoras estão de olho em cada clique e colocação em playlists para maximizar a receita do streaming de músicas.

“Definitivamente, há um mercado para o conteúdo editado”, disse Jim Roppo, gerente-geral da Republic Records, o selo de Drake, Ariana Grande e Swift. “Se você está se eliminando desse mercado, está em desvantagem e perdendo dinheiro.”

A autocensura esteve presente no início do rock ‘n’ roll: Little Richard cortou “good booty” (bom bumbum, em tradução livre) da letra original de Tutti Frutti. Mas seu papel atual na indústria musical data de 1985. Foi quando Tipper Gore, mulher de Al Gore, que na época era senador dos EUA pelo Tennessee, ajudou a iniciar o comitê Parents Music Resource Center depois de se sentir ofendida por uma música de Prince. Seu grupo solicitou o uso de adesivos de advertência nos álbuns, uma sugestão repercutida durante uma audiência do comitê do Senado no mesmo ano, o que despertou temores de invasão dos direitos da Primeira Emenda dos músicos. “Se parece censura e cheira a censura”, disse Frank Zappa na época, “é censura”.

Naquele momento, como agora, a raça desempenhou um papel complexo. A arte negra sempre foi policiada agressivamente, de modo particular em gêneros musicais populares – uma série contínua que se estende do jazz ao rock e ao hip-hop. Mas, na década de 1980, o rock e o metal também sofreram ataques, e aparentemente qualquer coisa no rádio era um alvo potencial. Em um dos momentos mais surreais das audiências no Senado de 1985, John Denver defendeu sua canção Rocky Mountain High contra acusações de que glorificava o uso de drogas.

As gravadoras logo concordaram em afixar um adesivo de “orientação aos pais” nos álbuns que elas – não um regulador externo – consideravam incluir “linguagem forte ou representações de violência, sexo ou abuso de substâncias”.

Essa medida pode ter evitado uma análise mais aprofundada em Washington. Mas isso gerou complicações no mercado, já que grandes varejistas como Walmart, Best Buy e Target passaram a dominar as vendas na década de 1990. Alguns deles se recusaram a exibir conteúdo explícito, o que significava que qualquer coisa que tivesse o adesivo de advertência preto e branco das gravadoras corria o risco de não ser estocado – e poderia perder até 40% das vendas potenciais, disseram os executivos da música.

A solução das gravadoras: produzir cópias de álbuns sem seu vocabulário mais provocativo. Seguiu-se uma era de ouro de autocensura, com palavrões e letras violentas muitas vezes simplesmente apagados – deixando canções de sucesso pontilhadas por breves silêncios, como buracos. “Costumávamos chamar isso de queijo suíço”, disse Paul Rosenberg, empresário de longa data de Eminem.

Por não gostar do efeito, Eminem às vezes escrevia novas letras para versões limpas. Rosenberg lembrou-se de uma dessas letras reescritas com grande pesar: o Pizza Mix da música de Eminem, My Fault, de 1999. Na versão original com conteúdo explícito, uma jovem mulher tem uma reação drástica após consumir muitos cogumelos alucinógenos. Na versão limpa, os cogumelos do jardim estão em uma pizza e a mulher é meramente “alérgica a fungos”.

Com o tempo, conforme o poder dos grandes varejistas sobre a indústria enfraqueceu e o consumo de música passou para a internet, a pressão por versões limpas diminuiu. 

Embora as versões editadas ainda sejam lançadas para muitos novos álbuns, há exceções intrigantes. Lançamentos recentes de artistas importantes como Travis Scott, Lil Uzi Vert, Roddy Ricch e Tyler, the Creator, para citar alguns, saíram apenas em edições com conteúdo explícito. Everybody’s Everything, uma coleção póstuma do rapper Lil Peep, não tinha uma versão limpa, mas Bad Vibes Forever do XXXTentacion, que saiu após a morte do rapper, sim. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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