Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Com voz plena e violão preciso, Gilberto Gil volta a brilhar em São Paulo

Show para lançar 'Ok Ok Ok' privilegia músicas novas e revela um artista intacto

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2018 | 22h41

Muita gente poderia não acreditar na cena. Gilberto Gil, 76 anos, não estava ali só por mais um projeto de revisitação da própria carreira. Gil, o mesmo que há dois anos enfrentava um sério tratamento renal que colocou sua vida em risco, estava bem ali. Vestia rosa em calça e camisa de linho mais a sandália de couro que sempre o acompanha nos palcos. E estava ali com um disco novo, abrindo  a noite com músicas novas, uma após a outra, para demarcar o território da produtividade. Gil está criativamente vivo e seu novo álbum, Ok Ok Ok, feito como nenhum outro mais para si e sua família do que para aplausos do mundo, deixou a sala da família para funcionar muito bem no palco.

Ok Ok Ok, a canção, é um desabafo com os jornalistas, por que não, como alvo. Todos querem saber tudo de Gil, sobre qualquer coisa, embuindo-o de uma certa missão profética. "Boa noite, vou mostrar algumas canções confessionais e outras que fiz no período em que estava em tratamento", anunciou. E depois falou que iria fazer a parceria antiga com João Donato, Uma Coisa Bonitinha. Isso depois de Quatro Pedacinhos e Sereno.

Estava Gil ali, de um jeiro que parece não querer mais mudar, em meio a três filhos (Bem dirige) e amigos bem mais jovens. Lugar Comum fez ele falar mais uma vez de João Donato, o autor da música. E então vieram Lia e Deia, terna, Pai e Mãe, de 1975, comovente, é Yamandu, generosa ao violonista jovem lembrado por ele.

A banda sai e fica Gil solitário para ratificar o que parecia cada vez mais evidente. Sua voz trabalha em regiões estrategicamente  seguras. Foi o melhor que fez quando deixou de lado as subidas suicidas que cometeu em toda carreira. Assim, a voz de Gil está uma seda, sem resquícios de qualquer fraqueza. É o violão de Gil é esperto, ágil, atento. Seus movimentos são ainda jovens, por mais intrincadas que sejam suas arquiteturas harmônicas, sempre cheias de cromatismos. 

Gil canta Se eu quiser falar com Deus, de 1980, com uma tranquilidade que parece estar em um momento à frente de Não Tenho Medo da Morte, de sua última turnê. Lá, a canção soava uma despedida. Agora, sua fala com Deus é em vida.

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