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Com Santoro e Rzewski, Ursula Oppens dá voz à resistência

Seria bom lembrar que há mais músico no País que criaram obras de luta

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2014 | 02h09

Breves e luminosos cometas passaram pela cidade. Alguns dias apenas, nos quais pipocaram eventos significativos para a consciência política do País. Mesmo em silêncio, Geraldo Vandré assistiu do palco Joan Baez cantando Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores. O excelente musical Elis traz à tona o fundamental componente político na carreira da maior cantora que o Brasil já teve. E a exigência, do representante do Instituto Vladimir Herzog, anteontem à noite na Sala São Paulo, de que "a absurda anistia que só contempla os torturadores" seja revista com urgência pelo Supremo Tribunal Federal. A sua fala precedeu, anteontem, um recital emocionante como há muito não se via.

Os anos 1970 - de resistentes como Vandré e Elis, e vítimas como Herzog - pulsavam no ar. No palco, a pianista norte-americana Ursula Oppens, de 70 anos. E um repertório especialíssimo. Do lado brasileiro, peças para piano do amazonense Claudio Santoro, punido por ser comunista e veladamente perseguido até o fim de sua vida em Brasília; do lado norte-americano, as emblemáticas 36 Variações Sobre 'Um Povo Unido Jamais Será Vencido' de Frederic Rzewski, de 75 anos.

Foi de Fábio Magalhães a ótima ideia de trazer Ursula para "anticomemorar" com justeza os 50 anos do golpe de 1964. Afinal, é dela uma das maiores proezas do século 20. Em 1975, o governo norte-americano selecionou artistas para criar e/ou encomendar obras comemorativas dos 200 anos da revolução americana de 1776. Ao pedir algo para Rzewski, Ursula detonou um processo virtuosamente agudo: ele acabara de assistir a um show do grupo folclórico chileno Quilapayún. Lá ouviu a canção de Sérgio Ortega.

Assim nasceram estas geniais 36 variações, qualificadas como "aberração" pela pesquisadora Carol Hess, autora do recente livro Representing the Good Neighbor: "Musicalmente, elas descartam os irritantes ritmos dançantes de El Salón México de Copland ou a suavidade hollywoodiana da Abertura Cubana, de Gershwin. Programaticamente, retratam um dos mais negros capítulos da história latino-americana, a derrubada do governo legitimamente eleito de Allende pelo governo dos EUA e, por extensão, também as vítimas dos golpes engendrados pela CIA em outros países".

Ursula tocou com partitura na estante e virou as páginas, o que às vezes atrapalhou o fluxo musical. Mas isso não quer dizer nada. O fato é que, mesmo tendo afirmado ao Estado sua surpresa pela alta qualidade da música de Santoro, faltou amadurecimento, convivência com as peças, lidas com alguma superficialidade. As Variações se impõem, além de sua mensagem política, como obra pianisticamente soberba, que exige muito tecnicamente. Ursula nem sempre conseguiu a clareza e a articulação essenciais. Ficou, no entanto, uma pergunta no ar no fim do aplaudidíssimo recital.

"O povo unido" foi e continua sendo hino de luta e mote de manifestações no mundo inteiro. Mas não teria sido mais adequado reviver hoje as obras de luta e hinos de resistência escritos por Gilberto Mendes e Willy Corrêa de Oliveira, entre outros compositores engajados? Afinal - e pouquíssimos sabem disso -, não foi só a música popular que deu voz à resistência, mas também a música contemporânea dos anos 1970.

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