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Com 'O Último Navio', Sting zarpa rumo à Broadway

Com toques biográficos, é a primeira incursão em musical para teatro do cantor, responsável pela trilha sonora

Gary Graff , Hollywood Watch

07 de janeiro de 2014 | 02h07

Quando Sting diz que um projeto é "a coisa mais difícil que já fez na sua vida", está sendo muito claro. Cantor, compositor, instrumentista, líder de banda, ele foi também produtor, ator, autor, ativista e filantropo ao longo dos quase 40 anos de sua carreira extremamente variada, desde que despontou na Grã-Bretanha como o principal cantor e autor do grupo The Police. E nunca recuou diante de nenhum desafio.

"O que eu quero é surpreender", afirma, e é o que tem feito: tocou em clubes de rock, cantou canções eruditas, fez turnês com orquestras, trabalhou em filmes, e, ao mesmo tempo, explorou uma ampla gama de estilos musicais.

Entretanto, mesmo para Sting, que atuou em todas as áreas da música, The Last Ship - o primeiro musical para o teatro de sua autoria, inspirado no ambiente onde cresceu, ao lado dos estaleiros de sua cidade natal, Newcastle Upon Tyne -, está sendo um desafio completamente diferente. Escrito por Brian Yorkey e John Logan, o musical, que retrata o declínio da indústria da construção naval, traz um enredo com toques biográficos, narrando a infância de um garoto em Newcastle.

"É um espetáculo que evolui continuamente", diz Sting, que em outubro completou 62 anos, falando ao telefone de sua casa na Inglaterra. "Há muitos elementos que despertam o lado emocional e eu aprendi que, mesmo que uma canção seja muito boa, isso não garante que ela seja incluída num espetáculo, porque, a não ser que sirva para conduzir a narrativa, poderá ficar fora da versão final. Não há tempo para relaxar quando você acerta a mão numa música. A peça precisa seguir em frente. É o que aprendi com esse trabalho", acrescenta. "Foi divertido, embora também sofrido, às vezes." Aprender os segredos de um espetáculo teatral faz parte da jornada de Sting até The Last Ship, com estreia prevista para junho, em Chicago, antes de ir para a Broadway. Ele já havia trabalhado no palco, principalmente em uma reedição do musical de Bertolt Brecht e Kurt Weill, A Ópera dos Três Vinténs, em 1989, mas nunca num espetáculo original.

"É algo completamente novo para mim, mas estou cercado por uma equipe excelente de produtores, diretores, roteiristas e confio muito neles. Estou muito entusiasmado, assim como todos os participantes que vivenciam comigo essa experiência. É muito raro estrear um musical original. Em geral, são coisas como Um Tira da Pesada: o Musical, em que o espectador já sabe o que vai encontrar. É uma produção totalmente diferente", ressalta.

Sting, que há pouco tempo lançou um álbum com canções compostas para o musical, mas que acabaram sendo cortadas, diz que começou a trabalhar no roteiro em 2000, quando decidiu reagir a um bloqueio de criação. "Fazia uns oito anos que eu não compunha. É claro que, no meio tempo, não fiquei ocioso. Fiz turnês, gravei, mas não escrevia. Tinha perdido a inspiração. Então surgiu a ideia de escrever uma peça teatral e, de repente, isso me libertou, porque me dei conta de que não precisava falar de mim mesmo. Podia explorar pontos de vista diferentes dos meus, nas vozes de outras pessoas. Foi um perfeito truque psicológico que me permitiu usar o que sei fazer e pôr aquilo no papel", disse ainda.

Ele lembra que as canções foram escritas rapidamente. "Era como se uma comporta se abrisse." Ironicamente, esse suposto distanciamento permitiu que realizasse um trabalho totalmente pessoal, mergulhando nas reminiscências da infância, boas e más, enquanto criava personagens inspirados nas experiências de sua juventude. Seu pai era leiteiro e sua mãe cabeleireira, mas Sting diz que o que mais o influenciou foi a presença dos estaleiros em sua vida, assim como as usinas siderúrgicas em Pittsburgh, as minas de carvão em West Virginia ou as fábricas de automóveis em Detroit influenciaram as pessoas que viveram nesses lugares.

"Eu queria fugir daquelas primeiras lembranças", conta. "Queria ir embora. Tinha a sensação de não pertencer àquele lugar. Mas não sabia o que fazer, além de trabalhar num estaleiro ou numa mina de carvão, e não me via fazendo nada disso. O estaleiro era um lugar realmente assustador, ruidoso, perigoso. As pessoas não gostavam de trabalhar nele, mas era a única opção que tinham. Então procurei uma maneira de escapar." E o jovem Gordon Sumner a encontrou graças a uma bolsa de estudos no Northern Counties College of Education, e depois se dedicando à música. Na realidade, ele começou no teatro, na banda que tocava no poço do palco, no musical Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat, de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, antes de mergulhar no rock'n'roll.

À medida que os anos foram passando, a visão de mundo de Sting em Newcastle foi evoluindo, abrandando, até que ele descobriu mais aspectos positivos do que percebera quando jovem. "Agora, olhando para o passado, me dou conta de que o ambiente de certo modo surreal para uma pessoa viver foi muito rico em simbolismo e experiência, e rico também em lembranças. Por isso, sinto certa ambiguidade a esse respeito. Tenho um profundo orgulho das minhas origens, sinto-me extremamente grato por ter nascido onde nasci, mas também me sinto culpado por ter conseguido sobreviver. Eu fugi. De certo modo, é aí que está a ambiguidade."

Sting já compôs anteriormente canções sobre sua cidade natal, a que dá nome ao álbum The Soul Cage (de 1991), assim como o single All This Time, que foi um sucesso na época, foram incluídos na trilha do musical. Contudo, a maior parte do material do espetáculo é inédita e tem um estilo consideravelmente diferente. "O objetivo foi mostrar a música da minha região", diz Sting. "É um lugar muito rico em termos de música folclórica. Aqui houve uma imigração escocesa muito grande, no século 19, e uma irlandesa maior ainda, por isso a música reflete o espírito celta desse ambiente. É uma fusão muito variada."

"Por outro lado, também quis prestar uma homenagem aos mestres das canções dos musicais, como Rodgers & Hammerstein, Lerner & Loewe. É por esse motivo que há uma ponta de romantismo e músicas típicas do gênero, uma estranha mescla de música modal e cromática", revela.

Nem todas as canções que escreveu para a peça foram incluídas na versão final. Sting gosta muito também das que foram cortadas, o que o inspirou a juntá-las num outro álbum. Também chamado The Last Ship, tem as participações de artistas convidados como Brian Johnson, da banda AC/DC, originário da mesma região, e de Jo Lawry, amigo de Sting de longa data. O cantor/ator britânico Jimmy Nail também está no álbum.

"Havia um material enorme, então pensei que o álbum seria uma maneira excelente de conservar as canções que não serão usadas", explica. "É a mesma matéria-prima do musical. Acho que conta a mesma história, mas é bem mais ampla", contou, lembrando: "Eu não teria concluído a peça se não tivesse feito todo esse esforço. Nos últimos três anos, me dediquei a isso. Tenho muito orgulho desse trabalho".

Há ainda muito a ser feito em The Last Ship, por isso, Sting nem pensa no que fará depois, mas espera que seja algo surpreendente, principalmente para si mesmo. "Sempre me deixo levar pela curiosidade", afirma. "A música que o autor escreve deve sempre surpreendê-lo, deve conter uma surpresa em cada frase musical. O importante para mim é a surpresa. Preciso me surpreender." TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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