CAROL SIQUEIRA
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Com o título de ‘Nenhuma Dor’, o novo álbum de Gal Costa ganha versões em CD e vinil

'Estamos em um período difícil e a música cura. Me curou todas as vezes. As pessoas estão ouvindo músicas do passado em busca de um tempo melhor do que o que estamos vivendo', diz a cantora em entrevista ao 'Estadão'

Danilo Casaletti, ESPECIAL PARA O ESTADO

12 de fevereiro de 2021 | 05h00

Quando Gal Costa, em dezembro, foi anunciada como atração do Coala Festival - previsto para acontecer em setembro - cerca de 9 mil ingressos foram vendidos em 24 horas. O Coala é um festival voltado para a nova música brasileira, ou para aquela que não ocupa os espaços convencionais de divulgação. Gal, em tese, não se encaixaria nesse perfil. 

Porém, desde 2011, quando lançou Recanto, álbum dirigido por Caetano e Moreno Veloso, a cantora abriu diálogo com o público mais jovem. Na transposição desse disco para o palco, canções como Baby, Divino Maravilhoso e Vapor Barato bateram forte em uma nova geração. 

Esses novos seguidores - anônimos ou famosos - a acompanharam em álbuns posteriores, como Estratosférica e A Pele do Futuro. É esse público que anseia vê-la em um festival, em um ambiente mais descontraído e com preços mais acessíveis do que os das grandes casas de shows.



No final 2019, quando os cantores Rubel e Silva participaram de apresentações de Gal, o produtor Marcus Preto sugeriu que Gal fizesse um EP com quatro músicas que trariam duetos com, além dos dois, Criolo e Tim Bernardes. As bases foram feitas, mas a cantora não colocou a voz à época.

Durante o isolamento, no ano passado, em uma conversa por telefone com Preto, Gal decidiu retomar a ideia, justamente impulsionada por essa percepção de que os jovens estão cada vez mais à procura da obra produzida por nomes de sua geração - Caetano, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Maria Bethânia, entre outros. Quis retribuir.

O projeto do EP ganhou força e foi ampliado. Juntaram-se aos participantes iniciais, Zeca Veloso, Zé Ibarra, Rodrigo Amarante, Seu Jorge, Jorge Drexler e António Zambujo. O álbum ganhou o nome de Nenhuma Dor e, depois do ser lançado em formato digital, ganha versões em CD e vinil nesta sexta, 12. 

Gal, em conversa por telefone com o Estadão, comentou a valorização da música que ela e seus parceiros produziram. “A bossa-nova foi um movimento muito moderno, e somos filhos dela. Temos uma visão aberta e consistente do mundo - além do talento, claro. Esse é um dos motivos da longevidade da minha geração. Estamos em um período difícil e a música cura. Me curou todas as vezes. As pessoas estão ouvindo músicas do passado em busca de um tempo melhor do que o que estamos vivendo.” Por conta da pandemia, o disco foi gravado a distância. Os convidados mandavam as bases e as vozes. Alguns deles produziram suas próprias faixas. Outras receberam a atenção de Felipe Ventura Pacheco, também responsável pelas cordas do álbum. Por fim, Gal gravou sua parte.



Nenhuma Dor olha para o repertório de Gal gravado entre os anos 1960 e 1970, o mais cultuado de sua carreira, com exceção da faixa Meu Bem, Meu Mal, de Caetano Veloso, que ela lançou no LP Fantasia, de 1981. A canção é dividida com Zé Ibarra, da Banda Dônica. O nome do álbum, inicialmente divulgado como Gal 75, em referência à idade da cantora, é o título da música escolhida por Zeca Veloso, filho de Caetano, que está no disco Domingo, de 1967, que tinha Caetano e Gal nos vocais. 

Nenhuma Dor é uma canção de amor que Caetano assina com Torquato Neto (1944-1972), poeta piauiense de quem Gal guarda uma estranha lembrança. “Ele tinha as mãos muito frias. Frias e molhadas. Ele tocava em mim e isso me dava certa aflição. Mas era uma pessoa muito amorosa. Lembro da gente andando pelo Rio de madrugada”, diz Gal.

O português António Zambujo, um dos nomes sugeridos por Gal, escolheu Pois É, de Tom Jobim e Chico Buarque, presente no álbum Água Viva, de 1978. “Gal me confidenciou que havia cantado essa canção apenas no dia da gravação do disco. Depois, nunca mais”, diz Marcus Preto. O arranjo é centrado nas cordas pilotadas por Felipe Pacheco Ventura, que também assina a produção dessa faixa e de Paula e Bebeto, na qual Gal juntou sua voz à de Criolo.

Tim Bernardes escolheu Baby por achar uma das melhores canções pop da música mundial; Rodrigo Amarante foi cogitado para Folhetim, mas sugeriu, por fim, Avarandado. Seu Jorge poderia ter ficado com Folhetim, mas faltava algo de Luiz Melodia e a escolhida foi Juventude Transviada, uma das canções preferida de Gal.



Negro Amor coube ao uruguaio Jorge Drexler, que a cantou em português praticamente sem sotaque. Assim foi montado o difícil quebra-cabeça de quem cantaria o quê.

Bem-humorada, Gal só perde a paciência quando pensa nas questões políticas brasileiras. E, se ela está falando cada vez mais com o público jovem, é essencial que ele queira saber de que lado ela está. Nas redes sociais, quem fica em cima do muro pode cair para algum dos lados, mesmo injusta ou involuntariamente. Gal prefere estar atenta e forte em sua posição.

“Sou contra esse governo. Ele tem propostas erradas Já fui muito criticada (nas redes) por expor a minha posição. Cruelmente criticada. Mas, se não gostar, vaza”, diz.

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