FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Com novo disco ‘Ottomatopeia’, Otto se diz enfim seguro com a própria escrita, no amor e na fossa

Sexto álbum de estúdio do músico pernambucano chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 28

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2017 | 04h00

Todo dia ele faz (quase) tudo sempre igual. É o que garante Otto, o músico pernambucano de 49 anos, pelo menos. Acorda pela manhã, tenha tido sonhos intranquilos ou não, publica uma selfie no Instagram e, na legenda, coloca alguns de seus versos, pensamentos ou pequenos textos. “São poemas, uns ‘shots”, brinca. “Sempre fui mau aluno na escola, agora as pessoas me chamam de poeta.” 

Os Bee Gees cantam ao fundo. Uma TV exibe o registro de uma apresentação do trio ao vivo, lançada em DVD. Alguma música melosa ecoa pela loja do Museu da Imagem e o Som, o MIS, enquanto Otto derruba dois sachês de açúcar no café expresso e o bebe rápido, em poucas goladas. São pouco depois das 11h de uma quarta-feira inexplicavelmente congelante e Otto está desperto, visivelmente animado para falar de Ottomatopeia, o sexto álbum de estúdio, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 28. 

Há 5 anos, ele não passava por esse processo de divulgação de um disco. Seu quinto trabalho, The Moon 1111, saiu num já longínquo ano de 2012. “É, agora começou oficialmente”, ele diz, ao empresário e à assessora de imprensa, antes de posar para as fotos para o Estado. Nesse tempo, Otto se transformou. Há dois anos, estreou uma turnê chamada Otto Recupera, na qual ele e sua banda, chamada Jambro Band, revisitavam canções de seus discos pouco tocadas nos shows anteriores. Dirigiu o espetáculo sozinho, sem o parceiro constante, o baterista e produtor Pupillo. Definiu repertório e até o figurino – era algo mais roqueiro, com roupas pretas e inspiração no post punk de The Cure e Smiths. 

“Olha como minha ideia já mudou? Era algo mais roqueiro ali”, avalia Otto. “Mas é interessante como isso muda. Essa ideia tem tanto tempo já. Agora, eu penso em fazer outra coisa. Era um som mais concentrado e agora eu quero expandir. Eu acho que esse disco merece isso. Tem uma sonoridade diferente, uma musicalidade que nunca tive. Quero que as pessoas me escutem mais. Eu nunca me senti assim tão contente”, ele avalia. 

Com Otto Recupera, o músico se manteve trabalhando enquanto preparava o novo disco e reunia novas canções. “Para um artista independente, sobreviver cinco anos sem lançar um disco, é um feito e tanto”, diz Duda Vieira, empresário de Otto, sentado do outro lado da mesa. Otto se diverte com a afirmação. “Aqui, fazemos tudo na raça”, diz, ao terminar o café. 

Essa euforia pode ter uma relação direta com a escrita. Desde o lançamento de Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, 2009, sua forma de escrever vem desenvolvendo uma característica cada vez mais própria. Naquele disco, Otto cantava o luto de uma separação devastadora que havia passado – e, ao interpretá-la, tornava a dor universal, fácil de compreender. 

Do álbum, músicas como Crua e Seis Minutos são constantemente pedidas em seus shows. Na execução da segunda, dona de versos tal qual “E você me falou de uma casa pequena / Com uma varanda, chamando as crianças pra jantar / Isso é para morrer”, há quem vá às lágrimas. Vieira lembra também da quantidade de imagens que eles recebem com os versos de Otto estampando cartazes e lambe-lambes pelas cidades. “E até para morrer, você tem que existir”, também da já citada Seis Minutos, é um dos favoritos dos fãs. 

“Eu já comecei a minha carreira em boas mãos”, lembra Otto, sobre a tutela de Apollo 9 no início de carreira. Desde a época, Otto passou a ser acompanhado por Pupillo, baterista da Nação Zumbi e considerado um dos melhores produtores do País. “Tanto eu quanto quem trabalha comigo evoluímos muito desde o começo, com Samba Pra Burro (álbum de 1998). “É uma geração inteira que vem se aperfeiçoando”, ele conclui. 

Ottomatopeia é o sexto álbum de uma carreira solo prestes a completar 20 anos. Foi gravado em três estúdios diferentes, dois em São Paulo (no Red Bull Station, no centro da cidade, e o de Pupillo) e no Rio (no espaço comandado por Kassin). “Eu precisei desse tempo (5 anos entre o lançamento de The Moon 1111 e o novo trabalho) para entender o que estava se passando no País”, ele explica. “Nesses cinco anos, muita coisa aconteceu, estive interpretando isso. Esse é um disco que fala sobre o Brasil contemporâneo, que fala de tortura, de dor, mesmo que de uma forma romantizada.”

Otto sempre citou referências para seus discos nascidas além da música. Certa Manhã... vinha de questões existencialistas de Franz Kafka, The Moon 1111 nasceu inspirado nas lentes do cineasta francês François Truffaut em filmes como Fahrenheit 451 e O Homem Que Amava as Mulheres. Desta vez, em Ottomatopeia, nome nascido a partir da brincadeira criada por um amigo sérvio de Otto durante uma passagem por Nova York, nasce da instabilidade política do País nos últimos anos e das imagens do fotógrafo japonês Araki Nobuyoshi, cuja obra incluía cenas eróticas de amor e bontage. 

Ao lado de Otto, no disco, está o que ele considera ser uma “seleção”: Pupillo (na bateria), Alberto Continentino (no baixo), Guilherme Monteiro (nas guitarras), Bactéria (nos teclados), Bruno Giorgi (nas guitarras, backing vocals e outros instrumentos). Quase todas as canções são assinadas por Otto e Pupillo. Entre as exceções está a bela Carinhosa, uma balada melancólica criada em parceria com Zé Renato. De Roberta Miranda (essa mesma!), Otto regravou Vem Cá, Meu Dengo – a própria Roberta também gravou a faixa. 

Ottomatopeia se assemelha, em muitos aspectos, mais a Certa Manhã do que ao disco mais recente, de 2012. Seu centro gravitacional, mais uma vez, está no amor – e no desamor e suas desilusões. Não existem mais os fantasmas que perseguiam a alma do cantor naquele 2009, quando ele passava por um processo de separação. Otto apenas percebeu que sabe escrever sobre corações partidos. 

Com o exercício diário de publicar textos no Instagram, sua escrita corre mais solta do que nunca. “É como eu falo: casar todo mundo casa, difícil é separar. Quando algum amigo me conta que se separou, eu dou os parabéns”, Otto fala, percebe o silêncio gerado pelas suas palavras. “Mas é por que quero dizer que o pior já passou”, explica. E todos ao seu redor riem. “Canto sobre cair, mas também sobre levantar e seguir adiante.”

VERSOS PARA SAIR OU CURTIR A FOSSA COM OTTO

“Dias de janeiro calor demais Dias de janeiro 

Olha como faz

Esquentam, 

É tão bom estar no mar 

Amo você, amo você 

Talvez não seja o certo

Amo você demais” 

‘Dias de Janeiro’ (2001)

“É melhor se queimar

Que viver na solidão

Esse giro, esse amor

Essa cachaça

Esse cheiro de morte

Eu respiro forte 

Eu desmaio, eu amo demais”

‘Histórias de Fogo’ (2003)

“Quando eu saí 

Da tua vida 

Bati a porta  

Saí morrendo 

De medo 

Do desejo 

Do desejo 

De ficar” 

‘O Leite’ (2009)  

“Não precisa falar 

Nem saber de mim 

E até pra morrer 

Você tem que existir 

Nasceram flores num canto de um quarto escuro 

Mas eu te juro, são flores de um longo inverno” 

’6 Minutos’ (2009)

“E pensar que sonhar era só viver

E pensar que amar era só se perder

E hoje, a cidade chove

E chora

Hoje eu só queria um dia claro como o que passou” 

‘Dia Claro’ (2012)

“Eu soprei os versos 

Eu soprei da vida as tuas aventuras 

E agradeço ao senhor 

A distância entre nós 

Quando não havia nada 

Quando me senti no fundo mais profundo”   

‘Soprei’ (2017)

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