Com novo CD, Oasis desce a ladeira

Quando o disco começa, com o somsujo e provocativo do onipresente single The Hindu Times, agente principia a acreditar que os irmãos Gallagher acertaram amão. As duas canções seguintes não conseguem desfazer essavontade de acreditar, mas quando chega enfim a indigna baladapop Stop Crying Your Heart Out (o tal hino da Inglaterracapitulada), somos forçados a concordar: o Oasis está descendo aladeira. Ironicamente, a queda coincide com a ascensão no grupodo segundo irmão, Liam Gallagher, que agora passou a compor. Sãodele três músicas do disco Heathen Chemistry (Sony Music), oquinto álbum do grupo. Outras seis são de Noel Gallagher,guitarrista e principal compositor do grupo. Uma outra é de GemArcher, guitarrista recém-chegado à tropa, e Andy Bell escreveuA Quick Deep. O Oasis é uma das mais importantes bandas de pop rock doReino Unido. Tornou-se a própria essência do que viria a serchamado de britpop, revitalizando uma tradição de épicas popsongs, renovando o interesse pelo legado beatlemaníaco,celebrando a força das guitar bands. Com seus dois primeiros discos, Definitely Maybe e(What´s the Story) Morning Glory?, eles firmaram esse talentoacentuado para o pop. Mantiveram-se fiéis ao espaço sônicoconquistado nos discos seguintes, que nunca deixou de ter pelomenos uma grande antena rítmica para as rádios do mundo todo. Esse Heathen Chemistry mostra o grupo com seu problemade ego vazando para a música. As composições de Liam são as maisfracas do lote. "Falando para mim mesmo", ele canta.Psicodélico e meio vazio, Liam soa pretensioso em Born on aDifferent Cloud, uma canção tirada das costelas do blues deJohn Lennon I Don´t Want to Be a Soldier. Sem a mínimaoriginalidade. Não que o disco seja todo ruim, isso é quase impossívelcom o Oasis. Mas há deslizes imperdoáveis, como a balada SheIs Love, que não ficaria estranha num disco do Bryan Adams. Abalada soft Stop Crying Your Heart Out, de Liam, é solene,com cordas tocadas pela London Session Orchestra e arranjos deWill Malone. Mas não segura mais do que trilha sonora denovela. Noel Gallagher, nos agradecimentos do encarte do disco,saúda seu ídolo Johnny Marr, ex-Smiths. Não é uma presença sóreligiosa. Marr faz o maravilhoso solo de guitarra de (Probably)All in the Mind. Essa é uma relação antiga: em dezembro de1992, depois de ouvir uma fita demo do Oasis, Marr ligou paraNoel e o levou para conhecer sua loja de guitarras favorita emDoncaster. Há também uns ecos de Stooges, Beatles, uma ou outrabrincadeira sonora que é marca registrada do som do Oasis, masnada é consistente. Sobram as guitarras, sempre evocaçõessonoras dos melhores tempos do rock inglês, e a voz de Liam estárascante, melhor que nunca. Formada em Manchester em 1991 (naquela altura ainda como nome Rain), o grupo tinha, além dos irmãos Liam Gallagher(vocais) e Noel Gallagher (vocais e guitarras), os músicos Paul"Bonehead" Arthurs (guitarra), Paul "Guigs" McGuigan (baixo)e Tony McCaroll (bateria). Mudou quase tudo, ficou só o eixocentral, com Liam e Noel, um ex-roadie do Inspiral Carpets quese mostrou melhor do que os sujeitos para quem preparavaguitarras. Liam Gallagher se especializou em provocações baratas,mas perdeu o timing até para isso. Dispôs-se recentemente aestrelar algum reality show parecido com The Osbournes. O quepretenderia mostrar? Espancamentos familiares? Nós sentimos saudades de tempos melhores, mas isso dápara resolver: é só pegar o disco da banda de 1994, DefinitelyMaybe, lá na prateleira dos discos, ligar o som no toco em LiveForever e Supersonic e esquecer esse tropeção atual do Oasis.O disco novo do grupo não vai ajudar a revitalizar o combalidobritpop, que amarga uma ausência do top list das paradasamericanas, coisa que não acontecia há 40 anos. Talvez só mesmoos Stones, que pensam em gravar algumas canções novas paraincluir numa compilação de 40 anos de carreira, possam salvar alavoura.Serviço - Heathen Chemistry. Novo CD do Oasis. Preço médio: R$ 29. Lançamento Sony Music.

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