Com Mahler, Isaac Karabtchevsky celebra 80 anos

Maestro, que rege Sinfônica de Heliópolis no domingo, define o grupo como ‘ponto culminante’ de sua carreira

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2014 | 19h44

Aposentadoria? É morte. A definição é dura, mas o maestro Isaac Karabtchevsky a oferece com um sorriso no rosto. Ele completa 80 anos no final de dezembro. Mas começa a comemorar já neste domingo, quando rege concerto de abertura da temporada da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, da qual é diretor, com a Sinfonia n.º 3 de Mahler, tendo a meio-soprano Carolina Faria como solista. "Nunca imaginei que, a esta altura da minha vida, teria a oportunidade de contribuir com um projeto como esse. Estou feliz."

Karabtchevsky "deixou" o Brasil no início dos anos 2000, ao sair do posto de diretor do Teatro Municipal de São Paulo. E, no meio musical de então, não se imaginou possível um retorno tão rápido – em 2004, assumiu a Sinfônica da Petrobrás; pouco depois, a Sinfônica de Porto Alegre, de onde sairia em 2012. Chega? Não – nos últimos três s anos, acrescentou ao currículo a Sinfônica de Heliópolis e o Teatro Municipal do Rio, além de ser um dos principais regentes convidados da Sinfônica do Estado de São Paulo, com quem está editando e gravando todas as sinfonias de Villa-Lobos.

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"Aposentadoria nunca foi um objetivo. Nunca foi algo almejado. Aposentadoria é reclusão, afastamento. É inimaginável, para o músico, se distanciar da matéria sonora. No meu caso, no caso dos maestros, matéria é uma massa de músicos, nem sempre pacífica. Cada orquestra tem as suas particularidades, é preciso se habituar a elas e desenvolver seus objetivos da melhor forma", diz, relembrando a relação nem sempre harmoniosa com os sindicatos de músicos italianos.

Foi em Veneza, onde ele dirigiu o Teatro La Fenice, que a conversa na verdade começou, com uma rápida passada por Viena, onde ele dirigiu a Tonkunstler, e pela França, onde foi diretor da Orquestra Nacional do Vale do Loire. Casa é onde se está em um momento específico? "Não, casa é o Brasil, sempre foi", diz o maestro, sem hesitar. "Um dos períodos mais longos que passei à frente de um grupo foi com a Sinfônica Brasileira, na qual fiquei 26 anos. Ali eu tive a chance de abrir a orquestra para projetos importantes de comunicação social, experiência que me acompanhou na ida para Viena. Essa transição foi natural e o que aprendi aqui, desenvolvi por lá, da mesma forma que sempre tentei recriar no Brasil elementos da minha experiência europeia. E uma das coisas que mais me marcaram ao chegar à Europa foi a compreensão de que a música é um fenômeno de base. E, naquele instante, jamais imaginei que chegaria aos 80 anos, aqui no Brasil, trabalhando com os jovens de Heliópolis."

É nesse sentido, ele explica, que enxerga uma lógica, um caminho coerente ao longo da sua trajetória, que o leva a afirmar, hoje, que "o trabalho em Heliópolis é o ponto culminante da sua carreira".

Para explicar os motivos que o levam a essa conclusão, ele relembra os primeiros contatos que teve com o maestro venezuelano José Abreu, criador do Sistema, projeto educacional que espalha pelo país conjuntos orquestrais e atende hoje centenas de milhares de crianças. "O que entendi, na primeira vez que regi a Orquestra Simon Bolívar, é que Abreu foi um visionário. Ele fez do Sistema um movimento, antes de tudo, social. E isso legitimou o projeto, fez dele indestrutível, menos sujeito à possibilidade de uma troca política significar o fim do trabalho. Ao mesmo tempo, Abreu intuiu que nos barrios venezuelanos, equivalentes a nossas favelas, há um potencial humano riquíssimo, que não pode ser ignorado. A sensibilidade não enxerga camadas sociais. E Abreu soube não apenas entender isso como recrutou os melhores professores disponíveis, no mundo todo."

A ideia de "comunidade" lhe parece fundamental. "O entrosamento que nasce dessa realidade é incrível. E é esse maravilhamento que sinto a cada instante em Heliópolis. Apesar de sermos um movimento jovem em comparação ao Sistema, temos conseguido resultados artísticos incríveis e isso leva a um envolvimento da sociedade, com doações e patrocínios fundamentais. Da mesma forma, temos alguns dos melhores professores disponíveis no mercado, profissionais que, além da qualidade, compreendem a importância do projeto. Há uma energia fascinante, que nunca encontrei em outra orquestra."

Sinfonias. Quando assumiu a direção artística do grupo, em 2012, o maestro anunciou um novo plano de repertório. Diminuiu o número de solistas – "o foco tem que estar na orquestra" – e não se limitou a programar peças do repertório clássico ou romântico. O choque foi imediato – para abrir sua primeira temporada, interpretou a Sinfonia n.º 2 – Ressurreição, de Mahler. No ano passado, fez a primeira sinfonia; agora, será a terceira. "E, no ano que vem, vamos abrir o ano com a Nona. A ousadia no repertório tem a ver com o resgate da identidade dos músicos", explica o maestro. "E o crescimento, ano a ano, é indiscutível. Os instrumentistas passam longos períodos estudando a partitura com os professores e, quando começamos os ensaios, essa dedicação aparece."

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