Miguel Schincariol / AFP
Miguel Schincariol / AFP

Com luvas especiais, João Carlos Martins realiza sonho de voltar a tocar piano

Prestes a completar 80 anos, Martins comemorará em outubro os 60 anos da sua primeira apresentação no Carnegie Hall, um concerto em Nova York

Redação, AFP

31 de janeiro de 2020 | 12h57

Desde 1998, uma doença e vários acidentes foram comprometendo as mãos do maestro João Carlos Martins, a ponto de fazerem com que ele parasse de tocar piano. A despedida, porém, não foi definitiva - graças a luvas especiais, os dedos do aclamado músico puderam reencontrar as teclas.

"Minha luta se tornou ainda maior quando percebi o reconhecimento do meu passado na imprensa internacional", disse Martins à AFP durante entrevista no seu apartamento em São Paulo, antes de tocar algumas notas em seu piano Petrof.

A motivação foi recompensada. Prestes a completar 80 anos, Martins comemorará em outubro os 60 anos da sua primeira apresentação no Carnegie Hall, um concerto em Nova York.

Ao redor de Martins, tudo é música. Em sua cobertura, a sala foi projetada de forma a lembrar um piano de cauda. Prêmios e fotos da sua trajetória artística estão por toda parte.

"Sou perfeccionista. João Gilberto e eu, a gente dava se muito bem, um pior que o outro", brinca o maestro, em referência a conhecida meticulosidade do pai da Bossa Nova.

Em seu caminho há dores e glórias. Martins enfrentou as consequências de uma distonia focal, uma enfermidade neurológica que altera as funções musculares, diagnosticada quando tinha apenas 18 anos. Além disso, machucou o cotovelo em um acidente durante uma partida de futebol e foi golpeado na cabeça durante um assalto na Bulgária.

À medida que seus dedos foram enrijecendo, ele foi renunciando ao piano. Há duas décadas passou a tocar apenas com a mão esquerda, mas aos poucos o movimento se tornou limitado aos polegares. Como não havia muito a se fazer, começou a se dedicar à regência.

Certo dia o designer de produtos Ubiratã Costa apareceu em seu camarim com um par de luvas e a esperança de poder devolver algo de alegria ao lendário músico.

"As luvas não serviram, mas o convidei para almoçar", disse o pianista, e a partir dali Costa começou a desenvolver novos protótipos.

As luvas, que combinam neoprene e peças feitas em impressora 3D, passam por constantes adaptações.

"Já perdi a conta de quantas fiz", relata o designer.

De forma carinhosa, Martins conta que "antes de aparecer esse maluco com essas luvas", sua rotina consistia em acordar à 5h30, ler os jornais, comer dois ovos fritos e memorizar partituras, já que a sua condição não o permite passar as páginas durante a música.

De cabeça, o maestro sabe cerca de 15 mil partituras.

Agora, por causa dessa tecnologia e de um robô desenvolvido na Europa para conseguir passar as páginas das partituras, poderá voltar a fazer o que mais ama: tocar piano.

"Antes a casa perdia luz", relata sua esposa Carmen Martins. "Agora acordo com a música. À noite vou me deitar enquanto o escuto tocar", acrescenta a advogada, que descreve o marido como uma "criança que sempre tem esperança de que tudo se torne possível".

Projetos sociais

O pianista gostaria de trazer para o Brasil uma versão do programa venezuelano El Sistema, do maestro José Antonio Abreu, que trouxe esperanças a milhares de crianças pobres e de classe média.

Com isso em mente, Martins viajará para a fronteira venezuelana em fevereiro para receber músicos desse país.

"Tudo foi gratificante na minha carreira como pianista e maestro, mas tem um buraco aqui: tentar deixar um legado, e tentar deixar um legado é o projeto Orquestrando São Paulo, Orquestrando Brasil, como intitulei El Sistema' no Brasil", diz Martins, que resume sua trajetória como "uma vida baseada em ideais".

 

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