Perry Knotts/Handout Photo via USA TODAY Sports
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Com ‘Dawn FM’, The Weeknd reafirma a sua fixação pelo pop perfeito

Quinto álbum do cantor e compositor canadense Abel Tesfaye em uma gravadora de peso é elegante e vigoroso

Jon Caramanica, The New York Times

12 de janeiro de 2022 | 10h00

Não há uma única pausa para respirar no novo álbum de The Weeknd, Dawn FM - nenhum espaço para calma e reflexão, nenhum sinal de que exista um mundo para além de seus limites. Trata-se de um conjunto ininterrupto de hinos megapops iridescentes, misturados como uma mixagem de DJ. É, assim como tantas outras coisas que ele fez na última década, uma proposta de tudo ou nada.

Desde que The Weeknd, nascido Abel Tesfaye, apareceu pela primeira vez, em 2011, com um trio de mixtapes finas e delicadas que reconstruíram radicalmente o R&B, ele se dedicou firmemente - talvez até teimosamente - a pensar seus álbuns como diferentes eras bem delimitadas, com ideologias em evolução. E como ele virou uma das maiores estrelas pop do planeta, isso exigiu uma tremenda habilidade e uma quantidade não insignificante de fé - numa era de nichos e microtargeting que explodem a onipresença, ele vem escolhendo um caminho muito menos seguro: de cima para baixo.

Mesmo no auge da saturação, ele conseguiu permanecer enigmático. Tesfaye, 31 anos, está interessado na construção de mundos e continua obscuro - neste momento, evoluindo do anonimato estratégico para o trabalho de personagem em grande escala - se escondendo atrás de seus hits.

Dawn FM, seu quinto álbum numa gravadora de peso, é elegante, vigoroso e também, mais uma vez, uma leve reimaginação de como a música das tendas grandes pode soar agora, numa época em que a maioria das estrelas globais abandonou o conceito. Dawn FM estende e reimagina a fixação de Tesfaye pelo pop perfeito que ele busca desde que se juntou ao hitmaker Max Martin em meados dos anos 2010 - e sete anos depois, ainda persegue um orbe profundamente polido no final de uma galáxia infinita.

Escolha

O que impressiona é o caminho que ele escolheu para chegar lá - sim, Martin está aqui, assim como Oscar Holter e Swedish House Mafia. Mas o verdadeiro consigliere de Tesfaye é Daniel Lopatin (também conhecido como Oneohtrix Point Never), que vem evoluindo para uma trilha mais space disco. Juntos fazem um trabalho hipnotizante, tanto pela qualidade quanto pela uniformidade. Tesfaye puxa Lopatin para mais perto de um ritmo contundente ao mesmo tempo em que se deixa absorver pelos intermináveis brilhos do produtor.

Em Dawn FM, eles pousam direto na janela entre 1982 e 1984, quando a emergente cena hip-hop de Nova York estava se fundindo com o electro e abrindo caminho para o pop. É uma música de breakdance que abarca tudo: o seminal Planet Rock do Afrika Bambaataa, Man Parrish, Mantronix, o primeiro álbum do Force MDs, o melodioso proto-rap de Los Angeles de Egyptian Lover e World Class Wreckin’ Cru até Maurice Starr e os primeiros trabalhos de Arthur Baker com o New Edition.

O que Tesfaye e Lopatin constroem sobre essa base é ambicioso. Don’t Break My Heart é extremamente triste, enquadrando o desespero romântico como um labirinto sônico inescapável. Gasoline mergulha na arrogância ao estilo Depeche Mode para contar a clássica história de Weeknd sobre sedução e degeneração: “São cinco da manhã. Estou chapado de novo / E você pode ver que estou sofrendo / Caí no vazio”.

How Do I Make You Love Me? é uma versão doce do pop de Michael Jackson que Tesfaye vem buscando, assim como a majestosa Take My Breath. Essas canções são os melhores argumentos em favor da visão de Tesfaye e, crucialmente, ambas são músicas em que Martin aparece com força amplificadora.

Em Dawn FM, Tesfaye às vezes se aproxima do simu-funk, como em Sacrifice, que faz um sample da batida dançante de Alicia Myers em I Want to Thank You. E Here We Go… Again, que traz uma levíssima atmosfera da How Deep Is Your Love dos Bee Gees, é o momento mais fraco e menos original do álbum, um salto lírico no presente profundamente específico de um artista que está tentando fazer música atemporal.

Existe uma razão pela qual ninguém está tentando imitar o que Tesfaye vem fazendo: é algo que requer a meticulosidade de um engenheiro, o ego de um superstar e as cicatrizes das pessoas profundamente feridas. Se você errar, vai ficar parecendo frio e algorítmico.

Ecos

O álbum está repleto de incidências de uma estação de rádio fictícia, com locução de Jim Carrey - divertido, mas não particularmente significativo. A que bate mais forte é A Tale by Quincy, na qual o influente produtor Quincy Jones conta uma história sobre se fortalecer. Jones é um antepassado óbvio de Tesfaye, que aspira ser arranjador tanto quanto cantor e compositor. (Aqui há ecos do álbum de Jones de 1981, The Dude.)

Se alguma coisa mudou para Tesfaye é sua relação com a disfunção. Embora haja momentos - como Gasoline e Sacrifice (“O gelo dentro das minhas veias nunca sangra”) - que lembram o desespero de seus primeiros álbuns, agora ele é quase sempre a vítima.

I Heard You're Married - que traz letras hábeis e cortantes do convidado Lil Wayne - fala sobre o que acontece quando suas armas são viradas contra você: “Seu número no telefone eu vou deletar / Garota, já estou velho para esse jogo”. Is There Someone Else? é notavelmente fria sobre ser um mulherengo em reconstrução. E ele se gaba de namorar uma estrela de cinema em Here We Go… Again.

Talvez a mudança seja uma forma de lidar com os arrependimentos que vêm com a idade e a experiência. Talvez seja porque o cara malvado não consegue ser herói por muito tempo. Ou talvez seja só uma fase. A última música completa do álbum é Less Than Zero, um aceno para a devassidão de Bret Easton Ellis, mas também uma música meio despojada sobre tristeza interior. É o único momento desse álbum que parece verdadeiramente vulnerável e se atreve a espiar o lado de dentro das coisas: “Eu tento esconder, mas sei que você me conhece”.  /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

 

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