Amy Harris/Invision/AP
Amy Harris/Invision/AP

Com 'DAMN.', Kendrick Lamar mostra que se importa - e você deveria escutá-lo

Aguardado álbum que sucede 'To Pimp a Butterfly', de 2015, chegou ás lojas justificando por que o rapper está no centro das atenções

Chris Richards, The Washington Post

18 Abril 2017 | 11h59

Nesse admirável mundo novo de fatos alternativos corrosivos e fofoquinhas neo-nucleares, vamos agradecer Kendrick Lamar, um rapper corajoso o bastante para exterminar o funk mais pungente da América e arremessá-lo de volta numa luz de laser verbal, de uma costa para a outra.

No seu novo álbum extrassensorial DAMN., nosso herói esboça as doenças da nação - "It's murder on my street, your street, back streets, Wall Street, corporate offices, banks, employees and bosses with homicidal thoughts" ("É matança na minha rua, na sua, nas ruas de trás, em Wall Street, nos escritórios, bancos, empregados e patrões com ideias homicidas") - e então aponta o dedo para um cara muito mau: "Donald Trump is in office." Ele está usando o spray de pimenta das injúrias, mas sua voz é um refrigerante de menta gelado. Enquanto o mundo se expande na desordem, sua visão fica mais clara.

E em quem confiar senão num sonhador da Califórnia que pode ver além da loucura do momento enquanto os seus Reeboks ainda estão plantados por lá? Com toda a instrospecção e auto questionamento que faz a obra de Lamar ser tão excepcional, DAMN. radia certezas desde a ordem das músicas. Os títulos das canções do álbum são cada um uma palavra, em letras maiúsculas e com um ponto final. Então sim, ele ainda está expressando a complexidade da sua humanidade - “Veja a minha alma falar”, instrui, durante os sopros em staccato de HUMBLE. - mas, desta vez, com a impetuosidade de uma máquina.

Também é novidade: a música que cerca sua voz parece organizada, dando a Lamar a oportunidade de esclarecer algumas coisas, incluindo o fato de que sua política - que lhe rendeu a reputação de um dos principais cowboys do zeitgeist da música popular - nunca foi uma pose. “No último disco, eu tentei elevar os artistas negros”, ele canta durante o climax de ELEMENT., citando To Pimp a Butterfly, seu opus de 2015 que se tornou a trilha sonora não oficial do movimento Black Lives Matter, “mas tem uma diferença entre artistas negros e artistas ruins”. Eita.

Nas letras, o álbum estabelece uma continuidade old-school, resistente ao shuffle, que conecta uma música na outra. Logo no início dos procedimentos, um sample de Geraldo Rivera interrompe a propulsão de DNA., durante a qual o falastrão repreende Lamar por protestar contra a brutalidade policial. “É por causa disso que eu digo que o hip-hop causou mais danos a jovens afro-americanos do que o racismo nos últimos anos.” Na faixa seguinte, YAH., Lamar devolve a mordida calmamente, acusando a rede de Rivera de atacá-lo para levantar a audiência: “Fox News quer usar o meu nome por porcentagens”. Na música logo depois, ELEMENT., Lamar se lamenta do fato de que “todas as minhas avós morreram, então não tem ninguém rezando por mim”, e então repetidamente nos lembra de que não há “ninguém rezando” por ele na faixa seguinte, FEEL.. E assim vai, até que DAMN. começa a parecer um fluxo de pensamento contínuo via ritmos e rimas, conectado ao mundo, mas em última instância conectado a si mesmo.

Como letrista, o talento de Lamar permanece extraordinário. Você sabe disso, eu sei disso, e ele também sabe. “Eu não amo as pessoas o suficiente para botar minha fé nos homens”, ele confessa em PRIDE., uma música sobre moralidade, mortalidade, Deus e ofício. “Eu coloco minha fé nessas letras.” Acreditar nas suas palavras é ficar deslumbrado por elas.

E se você realmente quiser fazer seu crânio girar, coloque FEEL. e se segure firme durantes os cincos segundos que Lamar levar para embaralhar as seguintes 18 palavras:  "Look, I feel heartless, often off this, feeling of falling, of falling apart with darkest hours, lost it." ("Olha, eu me sinto sem coração, geralmente desligado, um sentimento de queda, de desmanchar nas horas mais escuras, perdido") Parece desajeitado no papel, mas isso vai deixar seus tímpanos atordoados. E isso é o divertido: ele está rimando sobre como seria voar fora dos trilhos com uma virtuosidade que sugere que ele é incapaz de perder o controle.

Então, claro, Kendrick é O Melhor de Todos os Tempos, bla bla bla, quem se importa. A conversa perene sobre se esse homem é o maior rapper que já sambou nesta Terra Verde de Deus apenas serve para monopolizar nossa atenção e limitar nossa audição. E sempre há mais para ouvir na música de Lamar - especialmente na sua voz, que frequentemente expressa sua humanidade tão vividamente quanto seus versos.

Ele desenrola diferentes tons ao longo de DAMN., estabelecendo vários graus de intimidade no caminho, mas o timbre padrão de Lamar permanece aquele meio-grito rouco, em que sua garganta parece seca e sua boca parece molhada. Você pode ouvir sabedoria e desejo naquela voz, independentemente das palavras que ele está formando. Ele está rouco de repreender o universo, mas ainda salivando, ansioso para te contar mais.

Lamar conhece seu instrumento, porque ele conhece seu corpo, porque ele conhece a si mesmo. Quanto mais de perto escutarmos aquela alma falar, melhor poderemos entender a nossa própria. / (Tradução Guilherme Sobota - O Estado de S. Paulo)

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