Coleção resgata a música do cerrado

O publicitário e depois dono de gravadora Marcus Pereira realizou, há mais de 30 anos, um pioneiro levantamento da música regional brasileira, na série de discos Música Brasileira do... (Nordeste, Centro-Oeste, etc.).Foi um gigantesco esforço, que mapeou a cultura popular como nunca se fizera antes. Abria o caminho para o País se conhecer melhor - mas não houve outras iniciativas no mesmo sentido, ao menos dignas de nota, até meados da década passada, quando instituições públicas e privadas começaram a realizar mapeamentos regionais em pontos diversos do território brasileiro.Exemplar é o trabalho do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), que visitou todos os municípios do Estado e gravou, em áudio e vídeo, todas as festas populares baianas. O Irdeb está lançando o quinto e o sexto volumes de CDs do levantamento (leia mais) e já lançou 15 fitas de vídeo, que a TV Cultura de São Paulo exibe, periodicamente.O mais recente esforço de registro das tradições populares foi produzido pelo Instituto do Trópico Subúmido, de Goiás, em convênio com a Universidade Católica, a Fundação Aroeira e a Agência Ambiental de Goiás, fazendo registro fonográfico das manifestações do Estado e de seus vizinhos.O trabalho foi finalizado em 2000 e agora está à disposição do público. Consta de cinco discos, tratando de manisfestações diferentes. O título geral do conjunto de CDs é Sons do Cerrado.O primeiro volume, com o Grupo do Salto, tem o nome de Deus te Salve Lapinha Santa; o segundo, o Grupo do Tatu, registra Reisados, Chulas e Cantorias; o terceiro, com as Encomendadeiras de Correntina, traz A Arte no Canto de Encomendar Almas; o quarto, com a Camerata Santa Cecília, traz os Encantos do Cerrado; e o quinto, com Mestre Arnaldo, tem o belo título de Cantorias da Sombra e da Claridade.Presépios - O Grupo de Salto, também conhecido como Reis do Salto, do disco Deus te Salve Lapinha Santa, registra a arte do grupo de Salto, um povoado que fica a 15 quilômetros da cidade de Correntina, no oeste baiano. Os cantos, marchas e danças reunidos no CD são cantados e dançados entre 31 de dezembro e 6 de janeiro, para saudar os presépios, conhecidos na região como lapinhas.O colonizador português trouxe de além-mar a tradição dos reisados, festas dedicadas aos Reis Magos e que no Brasil têm presença mais forte, até hoje, em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e Tocantins. Os reisados são também chamados de folias de reis, reiseiros da lapinha, companhias de reis, ternos de reis, folias de santos reis, giros, etc.O Grupo de Salto tem de 12 a 14 pessoas e canta músicas guardadas da tradição, acompanhando-se com instrumentos rústicos que eles próprios constroem: zabumba, tambor, flautas, triângulos, pandeiros, reco-recos e chocalhos.O Grupo Folclórico do Tatu, fundado há 40 anos, repete uma tradição secular, integrado só por homens adultos - hoje, e no registro aqui tratado, são seis. Tocam rabeca, tambor, pandeiro, triângulo, viola, e cantam. O repertório tem números compostos recentemente, dentro de cânones tradicionais, e outros que a memória da cultura popular guarda, como a Cantoria de Nossa Senhora do Rosário, que acompanha a bandeira do Divino para o giro pelo municípo goiano de Tatu, no domingo de Páscoa. As chulas, em geral, fazem referência a circunstâncias cotidianas - condições do tempo, falta de dinheiro, qualidade da colheita.Semana Santa - Vozes e matracas são tudo o que usam as Encomendadeiras de Correntina, do oeste da Bahia, que atuam no CD A Arte no Canto de Encomendar as Almas. A música de encomendar almas é adaptada de fragmentos de domínio público e os cantos são usados na prática de alimentar as almas dos mortos ou durante a Semana Santa. O canto Cruz Preciosa, de alimentação de almas, que abre o disco, traz um tema reincidente na música sincrética do negro do interior: "Deus vos salve, Cruz Preciosa/ Onde Deus fez a morada/ Onde mora o cálice bento/ E a hóstia consagrada."Havia carpideiras, ou encomendadeiras, em Portugal. No Brasil, não vingou a existência das carpideiras tradicionais. Câmara Cascudo lembra que os portugueses nos deram a carpideira espontânea, que lamenta o defunto, gratuitamente, por vocação. Aqui, a prática ficou restrita a certas datas.O grupo de Correntina sai à noite, depois das 22 horas. Reza até a meia-noite. Almas não são encomendadas ou alimentadas depois da meia-noite. O horário só é ultrapassado uma vez por ano, na Sexta-Feira da Paixão.O quarto volume da coleção Sons do Cerrado é da Camerata Santa Cecília, que transporta para a linguagem do canto coral tipicamente europeu o cancioneiro folclórico do cerrado. Rege o grupo, formado por alunos da Universidade Católica de Goiás, o maestro Carlos Vitorino, que também assina os arranjos. A Camerata foi fundada em 1998.Paisagem - Mestre Arnaldo, do disco Cantigas da Sombra e da Claridade, é nascido em Mambaí, município baiano do centro do cerrado, no divisor de água entre os tributários do Tocatins e do São Francisco. Compositor e violonista, lança mão de paisagens, fauna, hábitos da região onde nasceu e cresceu para construir a obra. As canções têm nomes como Favos de Mel, Roseira, Boi de Boiada, Araticum, Orangotango.Talvez a coleção fosse mais significativa se mantivesse a proposta dos três primeiros discos, de registrar a tradição sem retoques ou releituras. Seja como for, ela lança luz sobre manifestações pouco conhecidas ou totalmente desconhecidas fora das regiões em que se dão.O Instituto do Trópico Subúmido justifica a intervenção modificadora no texto que se repete no encarte dos cinco volumes: "A dinâmica acelerada da economia globalizada imposta no fácies do sistema Biogeográfico do Cerrado não levou em consideração a vocação da terra e a vocação cultural, gerando forte impacto sobre o meio ambiente e ocasionando a desestruturação da família rural, que, em poucas décadas, perdeu sua base de sustentação e permanência na terra. Daí, o relevante significado do Projeto Sons do Cerrado" - e, naturalmente, da revisita ao repertório tradicional.Para comprar a coleção, deve-se fazer contato com o Instituto do Trópico Subúmido da Universidade Católica de Goiás, pelo telefone (062) 227- 1077, ou ainda usando o e-mail ucg@ucg.br.

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