Coldplay agrada a todos os fãs com show sem surpresas

Para os fãs do Coldplay foi uma noite e tanto. A primeira das três apresentações do grupo na Via Funchal, na segunda-feira, teve até um segundo bis, não previsto, com Shiver, em versão acústica. Foi no ápice da empolgação do vocalista Chris Martin, que tomou até umas aulinhas de paulistanês para dizer coisas como ?orra, meu; puta chuva?, zoando com o toró que caiu pouco antes. Martin também ganhou a comportada platéia comentando em português que achou ?marrravilhoso? o coro em Trouble. E entre um ?boa noite, gente bonita?, ?e aí, beleza?? e alguns ?muito obrigado?, pulou, deitou, fez gracinha, estourou balões coloridos que desceram dos camarotes em Yellow. Canções como esta reverberaram num roteiro infalível, recheado de hits dos três álbuns - Parachutes (2000), A Rush of Blood to the Head (2002) e X&Y (2005). Foi tudo tão tranqüilo, desde a entrada do público, sem revistas de seguranças, que parecia se tratar de um show de bossa nova. No telão, bem antes de começar o show (com atraso de 40 minutos), dois avisos se alternavam: o serviço de bar fecharia 15 minutos antes da apresentação e o próprio telão seria desligado. Os bares fecharam, mas o que não faltou foi garçom vendendo bebida no meio do público, já que ninguém levou a sério a idéia de permanecer sentado em momento algum; nem durante a mais lenta das várias baladas, Sparks. As cadeiras só serviram para descansar antes do show e demarcar o espaço, o que, afinal, resultou bem confortável, sem apertos ou atropelos. Algo raro nessas casas. O show em si não teve grandes surpresas. Era o que os fãs - que acompanharam em coro todas as músicas - esperavam e nesse aspecto a banda inglesa não decepcionou. Em determinado momento a banda até saiu do palco para tocar ´Til Kingdom Come numa das laterais. Fora isso, o show não abre muita brecha para improvisos ou grandes variações nos arranjos. Clocks é praticamente igual ao que se ouve no CD. White Shadows, uma das grandiosas da banda, merecia uma pegada mais pesada, aí sim ia arregaçar. Mas o Coldplay é mais de baladas - e não são muitas bandas que têm a capacidade de manter a chama em alta com três delas em seqüência no bis. A função centralizadora do vocalista não é propriedade exclusiva do Coldplay, obviamente, mas este é um caso evidente em que poucas pessoas prestam atenção por mais tempo no guitarrista (Jon Buckland), no baterista (William Champion) ou no baixista (Guy Berryman). O Coldplay é Chris Martin, o que mais cintila é seu teclado, o vocal e a performance eficaz. Isso não quer dizer que a banda se prive da tal química que mantém a sonoridade coesa e torne até injustas as comparações excessivas com o U2. Os ecos de Radiohead são pano de fundo e o Coldplay já se adiantou tanto em suas conquistas que não é de espantar que logo se configure uma reversão de valores. Martin tem, sim, muito a ver com Bono, com uma bela voz, ar de moço bom, limpinho, simpático, com vocação para fazer média, talento para compor canções arrebatadoras e um magnetismo quase messiânico; mas ainda é cedo para reconhecer em Buckland, bom guitarrista e detonador de riffs poderosos, o poder de influência de The Edge. Em suma, ainda falta uma pimentinha na receita do Coldplay.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.