Coisas mais lindas e cheias de graça

As garotas da Ipanema de hoje fazem protesto pró-Tibete, andam de skate, usam filtro solar e têm uma auto-confiança de deixar Tom Jobim encabulado

Gilberto Amendola,

26 de abril de 2008 | 19h59

O garçom Arlindo Costa de Faria, 68 anos, trabalha há 44 no bar que fica na esquina da Rua Prudente de Morais com a Vinícius de Moraes, que já se chamou Montenegro. Ele foi uma testemunha importante no nascimento de uma das músicas mais emblemáticas da Bossa Nova: Garota de Ipanema. "Era eu quem levava o chope para Vinicius de Moraes e Tom Jobim. No início dos anos 60, esse bar se chamava Veloso. Tinha uma mesinhas na calçada e tal. Os dois ficavam bebendo e assobiando para as menininhas que passavam. Um dia, uma delas resolveu brincar com eles também", diz. A ousadia partiu da então adolescente Helô Pinheiro. Segundo o garçom, ela teria entrado no bar e dito aos dois boêmios: "Olha só que coisa mais linda, mais cheia de graça." E era assim, segundo a versão de Faria, que surgia o verso inicial de Garota de Ipanema.  A reportagem do JT aproveitou o clima do bar, que foi rebatizado com o nome da música, e resolveu procurar as novas garotas de Ipanema. Nesses 50 anos de Bossa Nova, quais seriam as musas do calçadão? Loiras, morenas, saradas, funkeiras, ativistas? Fiéis ao espírito da música, esperamos a primeira musa passar em frente ao bar. Antes mesmo de pedirmos um chopinho, ela apareceu. Exatamente como na canção, a menina vinha num doce balanço, a caminho do mar. Quem seria essa candidata a nova garota de Ipanema? "Psiu, moça..." (sim, Tom e Vinicius sentiriam vergonha dessa abordagem). A loira em questão era Patrícia Greghi, 30 anos, empresária e... paulistana. "Claro que a nova garota de Ipanema poderia ser de São Paulo. Basta ter ginga e charme. Eu amo a Bossa Nova", anima-se. Patrícia faz ioga e tem a tatuagem de uma serpente no tornozelo esquerdo. "Acho que sou o perfil. O problema é que me apaixonaria por aqueles dois boêmios (Tom e Vinícius)", confessa. Deixamos Patrícia seguir o seu caminho até o mar. Aliás, o local ideal para encontrar as novas garotas de Ipanema era mesmo no calçadão. Era domingo e o sol batia forte - com certeza, a garota de Ipanema estaria usando filtro solar. De repente, um balançado que é mais que um poema passou deslizando pelo calçadão. A coisa mais linda que essa reportagem viu passar estava em cima de um skate. Seu nome é Charlotte Bucher, 16 anos, fã de indie rock, esportes radicais e estudante de Direito. Para ela, Tom e Vinícius não passam de simpáticos tiozinhos. "Acho que pareço mesmo a garota de Ipanema. Sou moderna, bonita e da zona sul", provoca.  Charlotte foi embora fazendo manobras no seu skate - e o mundo sorrindo se encheu de graça. Mas outras garotas de Ipanema ainda desfilariam naquele calçadão. Qual seria nossa próxima eleita? Surpreendentemente, ela veio carregando placas contra o governo chinês e a favor do Tibete. Dessa vez, nossa escolhida era politizada e ativista de direitos humanos. Bel Augusto, 40 anos, seria uma garota de Ipanema interessante. "A gente tem esse estigma. Mas nós somos várias. Somos todas. Podemos ser aquela que sorri, passeia no calçadão e gosta de Bossa Nova. Mas também podemos ser aquela que se interessa por política e se engaja, por exemplo, na causa tibetana."  Mas Bel não tinha muito tempo. A moça precisava defender uma causa e seguiu seu caminho pelo calçadão. Fomos, então, encontrar outra representante de Ipanema. Alguém ligada à música, que entendesse a importância de representar uma nova versão da garota de Ipanema, seria sensacional. Só mesmo no Rio de Janeiro para uma pianista passear de biquíni pela rua. Monique Aragão, 47 anos. "Todas as mulheres são um pouco como a garota de Ipanema. Toco e amo esse repertório da Bossa Nova inteirinho. Ser musa inspiradora e servir como criação para uma canção dessas deve ser maravilhoso." Logo depois, encontramos uma cantora, Glauce Soares, 32 anos, nascida em São Luís do Maranhão. Ela, que todos os finais de semana canta samba, MPB e salsa no bairro carioca da Lapa, confessa se interessar pelos tipos mais boêmios, na linha de Tom e Vinicius. "Hoje, eles se apaixonariam por loiras, morenas e negras. Eles seriam apaixonados pela variedade." A garota de Ipanema também poderia nascer em outro país? Pelo que se viu no calçadão, a resposta só pode ser sim. Os mais radicais podem não gostar, mas a argentina Gladys Rubio tem charme de sobra - e, pasmem, a idade da Bossa Nova, 50 anos. "Em Buenos Aires, eu já escutava Bossa Nova. Sempre achei uma delícia. Tenho a idade da Bossa e continuo nova", brinca Gladys, cheia de razão.  Um pouco afastada da praia, estava outra forte candidata à garota de Ipanema "importada", a italiana Silvia Piras, 29 anos. Para começo de conversa, ela tem todo o jeitão (e os olhos verdes) de sua conterrânea Sophia Loren. "Eu estou no Brasil justamente para aprender e estudar Bossa Nova. Sou cantora no meu país. Já pensou eu, garota de Ipanema?" Silvia ainda cantou um trechinho de Garota de Ipanema antes de ir embora (olha que coisa mais linda, mais cheia de graça).  Antes de voltar para São Paulo, a reportagem decidiu ouvir a opinião de pelo menos um homem. Perguntamos ao vendedor de mate mais famoso do Posto 9 (ponto da praia freqüentado por Tom e Vinicius), o Josafá da Silva, 33 anos, como seria, na cabeça dele, a nova garota de Ipanema. "Ah, tem que ter peitão, bundão, coxas grossas e gostar de dançar funk. Tipo a Mulher Melancia", disse. Bem... é só uma opinião.

Tudo o que sabemos sobre:
Bossa Nova

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.