Clipe ultraviolento da dupla Justice é proibido na TV

Dirigido por Romain Gavras, vídeo mostra gangue de garotos que zanza pelas ruas de Paris barbarizando pessoas

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

15 de maio de 2008 | 16h53

Mais de 1 milhão de pessoas já viram esse videoclipe no MySpace, YouTube e DailyMotion. Na França, está no centro de um quente debate no momento: dirigido por Romain Gavras (filho do cineasta Costa-Gavras), o clipe da música Stress, da dupla francesa de electro Justice, já foi apelidado até de "Laranja Mecânica do Terceiro Milênio". Veja também:Assista ao clipe de Romain-Gavras no YouTube   A ação é providenciada por uma gangue de garotos (alguns negros, outros com feições que sugerem filhos de imigrantes) que zanza pelos subúrbios e pelas ruas de Paris barbarizando, batendo, espancando, chutando, molestando pessoas. É ultrarealista e, embora protagonizado por atores, há relatos de pessoas que viram e passaram mal. Sua atmosfera de hiperviolência e brutalidade está causando reações fortes. O sindicalista Frédéric Lagache, da polícia francesa, disse que o tipo de abordagem que o filme mostra é "inaceitável, intolerável" e que o filme faz a "apologia da violência, um crime reprimido pela lei". O filósofo espanhol Eduardo Subirats, professor da New York University, ouvido pelo Estado, demonstrou enérgica aversão ao clipe. "É mais um filme dessa mescla de cinismo, irresponsabilidade e genocídio que hoje define as políticas globais sufragadas pela União Européia e os Estados Unidos da América. Anunciam algo muito pior que as visões apocalípticas de Orwell ou Huxley." O jornalista americano David Knight defendeu o filme, dizendo que, se ele pode ser acusado de fazer apologia da violência, também o deverão ser filmes como Laranja Mecânica, La Haine e Man Bites Dog.  Justice em Cannes Na noite desta quinta-feira, 15, os garotos controversos responsáveis pelo clipe Stress, do Justice, serão confrontados com toda a imprensa mundial no Festival de Cannes, para onde foram convidados. À frente do cortejo, Romain-Gavras, o diretor do clipe, que tem 26 anos e também milita num coletivo artístico chamado Kourtrajmé, ligado à cultura hip-hop, e que produziu trabalhos como o clipe de I Believe, do Simian Mobile Disco. Vive imerso na cultura pop: em sua página no MySpace, declara-se fã do Daft Punk e do Ministere Amer, do filme O Charme Discreto da Burguesia. Dirigiu também o clipe The Age of Understatement, do Last Shadows Puppets. Gaspard Auge e Xavier de Rosny, a dupla Justice, nunca foram tão populares mundo afora. Eles já ganharam o prêmio mais importante da música local, o Victoires, mas agora estão bombando. O clipe de 7 minutos que divulga sua música está sendo debatido dos Estados Unidos à Romênia, e as conclusões raramente são equilibradas. Declaração à imprensa Os músicos do Justice não se esquivaram de falar sobre o seu polêmico material. Gaspard Augé, de 28 anos, e Xavier de Rosnay, de 25 anos, soltaram uma declaração conjunta à imprensa francesa: "Estamos conscientes que o clipe está sujeito à controvérsia. Nós não imaginamos um só instante que o debate iria tão longe, que nós teríamos que nos justificarmos por acusações tão graves", disseram. "O filme não pode ser visto como uma estigmatização do subúrbio, como uma incitação à violência ou, mais ainda, como um meio torpe de veicular uma mensagem racista". Eles foram convidados para tocar na abertura do Festival de Cannes, no Vip Room, o megaclube da Croisette, às 2h30 da manhã, acompanhados do DJ Medhi, para animar a noitada dos 2 mil convidados famosos do festival. Apesar da farra, suas explicações ainda ecoavam por toda a França: "Nós sempre quisemos deixar ao espectador a escolha de ver ou de ignorar, sem jamais tentar orientar seu pensamento, porque essa é a idéia que nós cultivamos da arte e da diversão". Mas suas intenções em relação à violência urbana não convencem muita gente. Segundo o filósofo Eduardo Subirats, há um fundo de preconceito e uma estratégia de segregação no videoclipe Stress, de Romain Gavras (cujo pai ficou famoso ao fazer filmes de esquerda, como Z). "Os governos da França e Itália decidiram expulsar 8 milhões de ‘sem documentos’ da União Européia. A palavra em espanhol para isso, ‘indocumentado’, é uma metáfora da expressão midiática que designa seres humanos desprovidos de uma função econômica nas economias de mercado, e que são, em conseqüência, indesejáveis. É um conceito implicitamente racista, herdeiro da tradição nazista - material humano sem função econômica destinado aos campos de extermínio", disse Subirats, fazendo um paralelo com o nazismo. Para ele, o vídeo de Romain-Gavras é "uma representação propagandística desses ‘sem documentos’ como criminosos", por causa das feições dos atores do clipe, que parecem filhos de imigrantes. É a mesma estratégia propagandística usada nas campanhas nazistas antes e durante a 2.ª Guerra, considerou. E foi além: "Serve para distrair a atenção das campanhas de extermínio humano que se levam a cabo na Colômbia, no Iraque ou no Afeganistão". Nem todo mundo é tão ácido em relação ao trabalho. Tahar Chender, responsável pela companhia discográfica Because, disse que "a idéia de base do clipe" sugere apenas que o cineasta procurou fazer "uma paródia do tratamento da informação pelas grandes redes de televisão". Os garotos que barbarizam pelas ruas no filme estão sendo "filmados", e em alguns momentos se voltam contra os cinegrafistas que os seguem, atacando as câmeras. Para Mohamed Bamigi, fundador do Blondy Blog, disse que o clipe não faz mais do que "superpor imagens violentas com uma música agressiva", e que não denuncia nada. Faixa de 'Cross' Stress é a 10.ª faixa do disco Cross, lançado no Brasil pelo selo Ed Banger. A capa do disco sugere um esquife, um caixão de defunto em forma de cruz, o mesmo símbolo que os garotos do clipe usam nas costas dos seus casacos. Eles têm demonstrado convicção de que é possível fazer uma música eletrônica com grande apelo não só ao corpo, mas também à mente. Muitos já os compararam ao Daft Punk, mas eles parecem se assemelhar mais ao Basement Jaxx. Cross é o disco com o qual foram apresentados ao mundo. O grupo Justice está em turnê. Nesta segunda-feira, estará tocando no Olympia de Paris. Depois, passam por Dijon, Nantes, Arras e Angoulême, e também participará de diversos festivais de música na temporada, como o Les Voix du Gaou de Six Fours, no fim de julho, e o Rock en Seine em Saint-Cloud, no final de agosto.

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