Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Cleo Pires se aventura pela música com novo disco e sem sobrenome famoso

Atriz e agora cantora conta como suas experiências de vida, desde a infância, ganharam forma no EP ‘Jungle Kid’, lançado nesta semana 

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

22 Março 2018 | 06h01

Ela tinha 17, 18 anos, quando cantou em público, numa apresentação de show de talentos, pela primeira vez. Ficou petrificada. Ao deixar o palco, pensava se ganharia coragem de repetir o feito novamente. “E não levei isso para frente”, conta.

A vida apresentou outro caminho, um ano depois, quando foi convidada para atuar, por Monique Gardenberg, no filme Benjamin, uma adaptação de um livro de Chico Buarque, num daqueles encontros que são obras do acaso, na fila do banheiro de uma festa. Adotou o sobrenome da mãe, em forma de homenagem, ao ingressar no novo ofício. Virou atriz. Virou Cleo Pires

A atuação tomou Cleo como um furacão. Logo de cara, venceu a eleição do júri do Festival do Rio, de cinema, pelo seu papel no filme de estreia. Engordou o currículo ao longo dos últimos quinze anos, com papéis no cinema e na TV, ganhou manchetes de sites sensacionalistas pelo espírito libertário que existe dentro dela, sem tabu.

“Me apaixonei por ser atriz”, explica ela, em entrevista ao Estado, na manhã de segunda. “Era muito bom unir o útil ao agradável. E fui reagindo a tudo o que estava acontecendo ao meu redor. E foi maravilhoso”, analisa.

O palco e a música se mantiveram ali, escondidinhos naquele baú das lembranças amargas, trancado pelo medo – neste caso, de voltar a sentir o corpo petrificado diante do microfone. “Mas”, ela diz, “desde os 19 anos, essa ideia de me envolver com música voltava à minha cabeça. Como eu iria mostrar as minhas letras? Eu não toco instrumento, então como faria isso? Eu tinha medo de tudo.” 

Ainda aos 17, Cleo havia escrito a música Areia Firme, gravada pelo músico Orlando de Morais, a quem ela chama de “meu pai Orlando”, casado com a mãe dela, a atriz Glória Pires, desde 1987. Curioso é que, justamente nessa letra, gravada por Morais no disco dele de 2001 chamado Na Paz, vinha a resposta que Cleo buscava quando o assunto era música: “Cada vez que desço ao fundo (do mar) é diferente”, diz um verso. 

Faltava tentar de novo. No segundo semestre do ano passado, diante de um intervalo no ofício de atriz, depois de gravar três filmes que devem estrear em 2018 – Todo Amor, de Marcos Bernstein, Terapia do Medo, de Roberto Moreira, e Legalidade, Zeca Brito – e antes de iniciar a gravação da novela O Tempo Não Para, o novo folhetim das sete da TV Globo, com estreia prevista para julho, havia tempo para se dedicar à empreitada.

Em setembro, conheceu Guto Guerra, produtor e apresentador do programa Música na Mochila, do canal Bis, um parceiro “sem amarrar”, como ela, para a empreitada. 

Na última segunda-feira, 19, saiu Jungle Kid, um EP com cinco músicas, o primeiro passo da nova carreira de Cleo, agora, sem o sobrenome da mãe, aos 35 anos. “Num certo momento, a frustração (por não estar na música) foi maior do que o medo”, ela conta. “Enfim, me senti preparada para isso.” 

Cleo conta como suas experiências de vida, desde a infância, ganharam forma no EP ‘Jungle Kid’, lançado nesta semana 

Cleo usou o Pires, sobrenome da mãe, pelos últimos 15 anos, desde a sua estreia no cinema, no filme Benjamim, de Monique Gardenberg, em 2003. “Foi uma homenagem a ela”, explicou a atriz e também cantora, a partir desta segunda-feira, quando saiu o EP de cinco músicas Jungle Kid. Agora, ela dá chance ao desejo, também antigo, de ser tratada artisticamente pelo primeiro nome. “Agradeço também à minha mãe pelo nome que ela me deu. É muito único. Achava incrível que a Cher poderia não ter sobrenome. Cleo é exótico.”

Na capa de Jungle Kid, seu primeiro nome está assim solitário, escrito por extenso. Ainda que não seja proposital, a opção entrega a ideia de ser um convite à intimidade da Cleo por trás das câmeras, que não está nas redes sociais. “Não (era intencional)”, explica, “mas eu entendo essa ideia. Você está mais exposta, mesmo. Não tem um personagem, por mais que você crie uma identidade visual, algo para amarrá-las, tudo é responsabilidade sua. Ninguém escreveu para você, não é possível dizer ‘ah, é culpa do diretor ou do roteirista’. As letras são mais expostas ainda.” 

A partir da primeira canção, que dá nome ao disco, ela entrega a intimidade dos anos de infância. Com versos em inglês, ela canta, em tradução livre: “Crescer era cruel / Meu modelo de conduta era minha própria verdade / E a verdade seguia alternando entre vermelho e azul”. Na estrofe seguinte, ela canta: “Hoje, é claro para mim / Todo o caos que eu deixava sair, era a dor que existia em mim / Eu era só uma criança selvagem”.

A expressão, “criança selvagem”, era como Orlando de Morais, padrasto de Cleo, costumava chamar a garota ainda na infância. E é como ela gosta de descrever esse período aos amigos mais próximos. “Ele diz, até hoje: ‘Você era um moleque selvagem’”, ela diz e ri. “E é uma exata tradução de quem eu sou.” 

Com cinco músicas, duas em português e três em inglês, Jungle Kid, o EP, é uma parcela da persona musical de Cleo, explica ela. Cada uma das faixas foi escolhida para mostrar a pluralidade da sua estética sonora, sempre costuradas por algo de noturno, ou “obscuras”, como ela diz. “No estúdio, o Guto (Guerra, produtor do EP) pedia para tentarmos fazer algo mais leve. A gente até tentava, mas, quando chegava o momento de colocar os sintetizadores, eu preferia algo superdenso”, explica. Ela se surpreendeu com a densidade que vinha dessas canções? “Na verdade, não. Eu queria não ser óbvia para mim, mesma”, ela diz. 

Porque no gosto dela estão artistas do pop, como Rita Ora, Britney Spears e até Tati Quebra-Barraco, mas ela enche-se de vontade para falar de PJ Harvey, Slipknot, Leonard Cohen.

No seu celular, atualmente, estão em alta o recém-descoberto por ela Thundercat, de hip-hop e do novo jazz da Costa Oeste norte-americana, o rapper Tyler, the Creator, Alice Caymmi (“o segundo disco dela é incrível”, ela diz) e MC Loma e as Gêmeas Lacração, donas do hit Envolvimento. 

Há três anos, ela tatuou uma âncora na pele após ouvir, de uma astróloga, que ela era “uma pipa avoada e precisava de uma âncora para conseguir fazer tudo o que quisesse”. Desde então, Cleo garante, tem mais foco. Coincidência ou não, agora, ela realiza o desejo de ser artista da música mantido desde a adolescência. “Tive que me despir de tudo. Me expor. Deixar meu ego tomar porrada. Aprender”, ela diz. “E, depois, ir ao estúdio se tornou a melhor parte do meu dia.” 

Mais conteúdo sobre:
Cleo Pires

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.