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Clementina de Jesus ganha sua primeira grande biografia

'Quelé - A Voz da Cor' foi feita por quatro estudantes de jornalismo que lutaram contra resistências à ideia dentro da própria universidade antes de concretizarem a ideia; livro será lançado nesta sexta (dia 10), às 19h, na Livraria da Vila

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2017 | 04h00

Clementina de Jesus está sendo descoberta para algumas gerações, reconduzida a um trono em que esteve com mais evidência desde que foi identificada com toda a sua realeza em meados dos anos 60, por Hermínio Bello de Carvalho, até sua morte, em 1987. Ainda sem nenhuma publicação que vasculhasse as raízes de seu canto e aprofundasse o mergulho em sua história, Clementina acaba de ganhar sua primeira biografia.

Quelé – A Voz da Cor é assinada por quatro jovens biógrafos que propuseram o tema como tese de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo. Uma improbabilidade a mais quebrando os lugares comuns na trajetória de uma mulher que se acostumou a viver fora de onde diziam que era o seu lugar: quatro estudantes classe média paulistana se jogando na história da figura mais emblemática na fundação da música popular do século 20 no Rio de Janeiro em seus laços com as reminiscências africanas. A maior prova viva, fora dos livros, da academia e de qualquer espécie de militância, da balizadora presença negra na formação cultural de um povo latino-americano. E uma voz de uma verdade assombrosa.

Os autores são Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz. Antes da própria história de Quelê (corruptela afro da inicial de Clementina), vale passar pela resistência dos quatro em manter o foco naquilo em que acreditavam. Ao sugerirem o tema como TCC na universidade, foram desencorajados por mais de uma vez em seguir adiante. Não por preconceito, diz Janaina, mas pela dificuldade de se encontrar material documental que cobrisse a vida de Clementina. Trabalho ia, trabalho voltava, os alunos refaziam algum detalhe e o apresentavam de novo. O trabalho tirou nota 10 na banca e o resultado virou o livro que será lançado em São Paulo hoje, às 19h, na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho, 915, na Vila Madalena.

Outro sinal de resistência clementiniana: Hermínio Belo de Carvalho não queria dar entrevistas aos jovens estudantes. Foi uma luta. Hermínio, que vive no Rio de Janeiro, disse não durante quatro meses. “Ligávamos para ele de duas a três vezes por semana. Acho que já estava irritado com as mesmas perguntas sobre Clementina”. Agora, ela diz, são melhores amigos. Hermínio é retratado como uma espécie de herói da história da descendente de escravos que foi mais do que uma cantora de sambas. 

Sem muito material que pudesse serv ir de base, como matérias de jornais ou documentários, os quatro estudantes foram a campo em busca dos livros vivos. Chegaram aos personagens importantes que passaram por Clementina, também com muito custo, depois de convencerem que queriam mais do que um simples trabalho de faculdade. Muita insistência fez Milton Nascimento baixar a guarda depois de dois anos de pedidos e concordar em receber os alunos por um tempo não maior do que 20 minutos. Eles embarcaram para o Rio e ficaram em frente ao cantor por duas horas. “Depois disso, não aguentei. Chorei, pedi autógrafo, tirei foto.”, diz Janaina. Ao todo, foram mais de 40 viagens ao Rio de Janeiro, pagas devidamente com dinheiro do próprio bolso. “Minha vida social foram as rodas de samba desde 2011.”

A despeito do ano de nascimento de Clementina, com o qual a própria fazia confusão, o livro crava 1901, comprovada pela reprodução de uma valiosa certidão de batismo. Armados para enfrentar um mundo sem vestígios, os quatro biógrafos foram na história do todo para chegarem à singularidade de Clementina. O Rio de Janeiro daqueles primeiros anos do século 20 é pesquisado e reconstituído minuciosamente, uma característica que vai aparecer por toda a história. Entender o mundo para entender Clementina. Quando chega 1965 e Quelé é escalada para o espetáculo Rosa de Ouro, é bom lembrar e dizer de novo que o ano é 1965. Ou seja, Clementina resistiu aos dois tratores que poderiam triturá-la em seu nascedouro: a Jovem Guarda, de Robero, Erasmo e Wanderléa; e o início da Era dos Festivais.

A salvação da reconstituição de um tempo não documentado é feita, muitas vezes, pela própria dona da história. Clementina falava muito em suas entrevistas, com riqueza de detalhes e o encantamento de uma mulher que nunca entendeu muito bem qual era o seu tamanho.

QUELÉ, A VOZ DA COR

Autores: Felipe Castro, Janaina Marquesini, Luana Costa, Raquel Munhoz

Ed.: Civilização Brasileira (384 págs.,R$ 49,90).

Lançamento: 6ª (10), 19h. Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915)

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