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Claudio Abbado: uma trajetória de competência e coerência

Regente jamais abdicou de sua militância política

João Marcos Coelho - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2014 | 20h53

Quando sonhou com Bayreuth, Wagner imaginou um teatro que só existiria enquanto durassem as representações gratuitas da tetralogia ‘O Anel do Nibelungo’. Terminadas as performances, ele seria demolido. Assim, Wagner e suas óperas se transformariam efetivamente em mitos atemporais. A institucionalização de Bayreuth, que se tornou um Olimpo wagneriano, de certo modo, destruiu seu utópico sonho primal.

O maestro Claudio Abbado também teve um sonho: o de imantar os melhores músicos e também os jovens talentosos para juntos simplesmente transformarem a prática musical no centro do universo. Mesmo que por poucos e raros momentos.

Logo após deixar a Filarmônica de Berlim por vontade própria, e já doente, decidiu pôr em prática o utópico desejo. Realizou-o não uma, mas várias vezes. Com a Orquestra Jovem Gustav Mahler, a Orquestra de Câmara Mahler e a Orquestra de Câmara Mozart. Com certeza, no entanto, o seu sonho mais caro foi a Orquestra do Festival de Lucerna, que por mais de uma década só existia nos verões europeus. Reuniu os melhores entre os melhores músicos das mais badaladas sinfônicas do Velho Continente. Bastava um aceno seu para que eles viessem a Lucerna. Abriam mão das férias anuais para desfrutar da comunhão que sabiam quase utópica com a figura de um maestro que personalizava a própria música.

Nunca houve contratos no papel entre músicos e a orquestra. Talvez por isso tenha realizado as gravações em CD e os DVDs mais emocionantes da última década. Se você duvida, assista ou ouça a qualquer gravação de Mahler. De onde vem tamanha qualidade musical? Uma maneira de explicar o fenômeno é conhecer os depoimentos dos músicos de Lucerna nos últimos anos. Eles são sintomáticos. Reinhold Friedrich, trompete solo da orquestra desde 2003, por exemplo, diz que o clima na orquestra é “como o de uma orquestra jovem integrada por profissionais, com a mesma alegria de poderem tocar juntos”.

O jornalista inglês Tom Service, em ‘Music and Alchemy’, entrevistou não apenas o maestro mas praticamente todos os músicos de Lucerna. Em todos os naipes, constatou Service, há vários spallas. “É tão maravilhoso”, disse Abbado em rara entrevista. “Somos todos amigos. São os melhores músicos de cada orquestra, de cada país, de cada cidade. ” A comunicação com seus músicos queridos não envolvia muita conversas. Abbado não explica o que quer; dá por superado que os músicos têm de se entender e tocar juntos. Cabe-lhe apenas fazer fluir a música como deseja, escreve Service, que assistiu a uma semana de ensaios.

O violinista Wolfram Christ clareia um pouco mais a sua técnica de regência de: “Sua mão esquerda é um exemplo de liberdade, de como criar liberdade. Abbado quer liderar com gestos, não só das mãos, mas do corpo inteiro”. E conclui: a mágica mesmo só acontece nos concertos, não nos ensaios.

Os músicos sabem que só estão ali porque Abbado os escolheu e confia neles. Isso é parte do segredo do milagre musical produzido em Lucerna. O outro segredo, técnico, é que Abbado é fanático pelo legato, segundo Christ: “Ele é absolutamente fascinado pelo legato, particularmente difícil nas cordas e madeiras: não limitar a melodia ao tamanho do arco ou da respiração. Não limitar a melodia a partir do arco, tentar seguir a linha melódica da obra inteira”. Cada músico precisa entender a peça de modo tão minucioso e abrangente como Abbado, ou seja, todos precisam ter consciência do que tocam todos os demais companheiros de orquestra.

É inegável que a não institucionalização da orquestra que melhor retrata a arte de Claudio Abbado realiza o sonho wagneriano de Bayreuth. A música não existe e se extingue no momento seguinte? E ao mesmo tempo, não oferece aos músicos novas e inauditas possibilidades de recriação no tempo? O caráter efêmero da Orquestra de Lucerna é talvez o momento mais iluminado da vida deste maestro de gênio. Abbado teve todos os postos mais invejados do planeta. Jamais acomodou-se ou abdicou de uma agenda de resistência ideológica. Uma militância comunista o levou a tocar música contemporânea nos pátios das fábricas de Milão. Foi o primeiro a dar impulso ao Sistema venezuelano. Jamais o preocupou a busca da institucionalização da música. Apaixonava-se pela chama do maestro Abreu e suas 350 orquestras espalhadas pela Venezuela. Reencontrava novas forças no brilho dos olhos e mentes dos jovens que integraram suas orquestras jovens.

Ainda bem que, apesar de não institucionalizadas, as fabulosas aventuras musicais de Claudio Abbado nos últimos onze anos com as orquestras jovens Mahler e Mozart e a do Festival de Lucerna estão bem documentadas em áudio e vídeo. E constituem seu maior legado, pois unem extrema competência artística a uma militância política da qual ele jamais abdicou.

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