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Claudio Abbado e Martha Argerich, o último momento de uma parceria

Deutsche Grammophon lança disco em que pianista e maestro, morto em janeiro, tocam concertos de Mozart

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

07 de fevereiro de 2014 | 21h42

Se há sinônimo de perfeição absoluta no domínio da música, ele atende por Wolfgang Amadeus Mozart, segundo o musicólogo norte-americano Scott Burnham, que acaba de lançar o livro Mozart’s Grace, inteiramente dedicado a tentar explicar o fenômeno. Afinal, por que um crítico tão ferino como Bernard Shaw, por exemplo, foi capaz de dizer que “a música de Mozart é a única que não soaria deslocada na boca de Deus”? Burnham começa admitindo que “é dogma, entre ouvintes e críticos que Mozart compôs a mais bela música que conhecemos”.

Talvez por isso grandes intérpretes e maestros tenham feito da música de Mozart o seu derradeiro refúgio, no final de suas carreiras e vidas. Foi assim com Horowitz, por exemplo. E também foi assim com Claudio Abbado, morto há duas semanas. Anteontem, sexta-feira, a Deutsche Grammophon distribuiu simultaneamente no mundo inteiro a última parceria de Abbado com Martha Argerich, uma das pianistas com quem manteve maior afinidade durante praticamente meio século. Depois de dez anos sem frequentarem juntos o mesmo palco, eles se reuniram em março do ano passado no Festival de Lucerna, na Suíça, para tocar “a mais bela música que conhecemos”, acompanhados pela Orchestra Mozart de Bolonha, um punhado de jovens talentosos que Abbado transformou numa orquestra de primeira (uma entre as seis orquestras que criou entre 2003 e 2013, depois que deixou a Filarmônica de Berlim).

Escolheram dois concertos para piano – o nº 20, K. 466, e o nº 25, K. 503 – no maravilhoso buquê de dezessete compostos por Mozart em seus dez anos vienenses. Um buquê em que não conseguimos nos decidir pelo melhor, o mais belo ou o mais emocionante. Sem dúvida, eles atestam, como afirma Burnham, “por que a música de Mozart é descrita com frequência como se existisse num único e isolado estado de graça”. Basta ouvir o “Allegro maestoso” inicial do concerto 25 para concordar com outro estudioso, Maynard Solomon: “O que é mais inusitado em algumas passagens superlativamente belas em Mozart é seu sentido de totalidade/integridade, seu sentido acabado de perfeição, sua inerente resistência em mover-se para algum lado porque elas já estão em estado de perfeição...”

Curiosamente, os detalhes mais simbólicos do concerto gravado ao vivo em Lucerna estão justamente nos únicos momentos em que se improvisava livremente no tempo de Mozart – as cadências, onde o solista mostrava seu engenho e arte ao instrumento. Martha homenageia, na cadência do Allegro majestoso do concerto 25, o seu maior professor, guru e, dizem, primeiro e maior amor: o pianista austríaco Friedrich Gulda, com quem ela aprendeu que ousar e assumir riscos é sempre o maior diferencial de um artista. Ela jamais ligou o piloto automático. Emociona este tributo merecidíssimo a Gulda. No concerto 20, Martha opta por Beethoven nas duas cadências, a do Allegro inicial e a do rondó Allegro assai final.

Não deixa de ser interessante observar como Abbado tinha dois pesos e duas medidas. Em 2011, levou a Bolonha a francesinha Hélène Grimaud para gravar dois outros concertos de Mozart, o 19 e o 23, com a sua Orchestra Mozart. Ela usou uma cadência diferente no concerto 23, a de Ferruccio Busoni, o grande pianista-compositor ítalo-germânico das primeiras décadas do século 20. Abbado não gostou, mas não disse nada. Ao final da gravação, pediu a Grimaud para tocar a cadência mais usada, a de Mozart. Ela o fez – e quando recebeu o master final para aprovar, a pianista sacou que ele retirara a cadência de Busoni e a substituíra pela de Mozart. Não aceitou a manobra e o disco abortou (está em algum arquivo, e qualquer dia desses pode ser lançado).

Empilhando adjetivos. Já se sabia desde sua realização que o concerto de Martha e Abbado em Lucerna seria lançado comercialmente. Mas o frisson aumentou muito depois da morte de Abbado. Um crítico europeu ironizou dizendo que seus colegas no mundo inteiro já estavam dando a largada no concurso pra ver quem empilhará o maior número de superlativos para qualificar o registro. Estou tentando me conter, mas está difícil.

Há momentos em que é impossível fugir dos adjetivos, dada a emoção de ouvir o maestro-símbolo do século 21 numa das derradeiras vezes em que subiu ao pódio. Ainda mais na companhia da diva das pianistas da atualidade, Martha Argerich. Na contracapa do folheto interno do CD, há uma foto dos dois ainda jovens, dos anos 60. Na capa, os imensos cabelos brancos emoldurando o rosto de Martha, que olha compenetrada para Claudio, que lhe sorri – já em março de 2013. Nas páginas internas, outras fotos se sucedem: os dois jovens, em 1967; a dupla ensaiando em Lucerna, em março de 2013. Uma das mais sublimes parcerias do nosso tempo: durou 46 anos e marcou profundamente a música na segunda metade do século 20. E estabeleceu um padrão de excelência dificílimo de se alcançar. Um desafio e tanto para as novas gerações de pianistas, maestros e músicos de orquestra.

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