Nova Estação
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Claudette Soares, Doris Monteiro e Eliana Pittman celebram o sambalanço em show

Trio se reúne pela primeira vez e também grava álbum do projeto 'Divas do Sambalanço'

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2020 | 08h00

O termo sambalanço apareceu pela primeira vez quando o compositor Carlos Lyra rompeu com os amigos da turma da Bossa Nova e fez uma Noite do Sambalanço no Rio de Janeiro. Depois, o então Jorge Ben cantou em Balança Pema, incluída no seminal álbum Samba Esquema Novo (1963), que o coração dele também “sambalançava”. O termo passaria a denominar uma bossa turbinada, com mais base no suingue do que nas sutilezas harmônicas. 

No show Divas do Sambalanço, Eliana Pittman, Claudette Soares e Doris Monteiro se reúnem pela primeira vez para mostrar a importância do estilo na MPB. Um dia antes da apresentação, que ocorre domingo às 18h, no Sesc Bom Retiro - os ingressos já estão esgotados - , elas gravam um disco para o selo Discobertas no Studio 8. 

O estúdio privado, que receberá amigos das cantoras e a imprensa durante a gravação, foi escolhido por fazer registros em uma mesa de som analógica, mantendo o clima do período em que o sambalanço era apresentado como uma novidade nos bailes e nas boates.

Das três cantoras, Doris Monteiro se considera a pioneira no flerte com o sambalanço, por ter gravado Mocinho Bonito, de Billy Blanco, em 1957. “Apesar de o nome sambalanço não existir, a música já era isso. Eu não sabia se queria gravar, porque o público estava acostumado comigo cantando música romântica. Foi o Billy que me convenceu a tentar algo diferente. Deu certo e, a partir daí, criei coragem”, lembra a cantora.

Radicada em São Paulo desde o início dos anos 1960, a carioca Claudette não acompanhou a movimentação do sambalanço em sua cidade natal. Quando foi gravar o primeiro disco, Claudette É Dona da Bossa (1964), convidou o pianista Cesar Camargo Mariano para acompanhá-la. Integrante de um grupo chamado Sambalanço Trio, Cesar criou uma base instrumental para a cantora, que incluiu no álbum de estreia uma música que cita o sambalanço, Samba Só, revelar o suingue que até hoje mantém. 

Até mesmo Eliana, que iniciou a carreira cantando música americana com o padrasto, o saxofonista americano Booker Pittman, aderiu ao sambalanço em uma gravação de 1965 que ela mesma havia esquecido, Samba de Molho, de Helton Menezes, um dos compositores mais identificados com o estilo.

Além dele, outros autores que dedicaram a carreira ao gênero são lembrados na apresentação. Dois deles, Orlandivo (1937-2017) e Sylvio César, foram cantores da banda do organista Ed Lincoln (1932-2012), que era considerado o rei do sambalanço. 

Claudette ressalta que Orlandivo foi quem consolidou o gênero, munindo-se de um molho de chaves para cantar. “Ele era um cara extremamente inteligente, inventou uma coisa nova”, conta a cantora, que interpreta duas músicas dele, Samba Toff e Bolinha de Sabão

Outro filiado honorário do sambalanço, Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor) é homenageado no show. Claudette interpreta Se Você Quiser, Mas Sem Bronquear, que ela e Doris gravaram praticamente ao mesmo tempo, em 1970. 


A infalível Mas Que Nada, o primeiro sucesso de Jorge, aparece no fim do show, quando as três se reúnem. Juntas, elas ainda interpretam Só Danço Samba, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e Sambou Sambou, composta por João Donato e João Mello.

Eliana também quis celebrar o sambalanço até no figurino. “Descobri que, quando o sambalanço foi lançado, as mulheres vestiam roupas com bolinhas.” Antes dos ensaios para o show, a cantora passou em frente a uma loja e viu uma blusa preta com bolinhas brancas. Ela não teve dúvida: comprou para usar nas apresentações de Divas do Sambalanço. “Moda tem tudo a ver com música”, acrescenta.

Destaques do repertório.

Influência do Jazz

Composição de Carlos Lyra que fala sobre a influência do jazz no samba. Claudette interpreta a música na apresentação

Tamanco no Samba

Composta por Orlandivo e Helton Menezes, dois dos principais compositores de sambalanço, a música é um dos clássicos do gênero. No show, Eliana relê a canção

O Que Eu Gosto de Você

Doris Monteiro interpreta a música no show. A cantora já a gravou em discos duas vezes, uma delas com o cantor Miltinho, outro expoente do sambalanço

Devagar com a Louça

Eliana relê a canção feita por Haroldo Barbosa e Luis Reis, dupla que compôs exemplares do sambalanço

Sambou Sambou

No fim do show, as três cantoras se unem para cantar a música de João Donato e João Mello

 

Estúdio recebeu grandes nomes

Pelo estúdio em que será gravado amanhã à noite o show Divas do Sambalanço, já passaram George Benson e Johnny Rivers. O espaço funciona em um cômodo da residência do arquiteto Rubens Azevedo, de 68 anos, que conseguiu levar os artistas internacionais até lá, além de grandes nomes da MPB, caso de Gal Costa.

Definindo-se como um “louco por música”, Azevedo criou o Studio 8 há 20 anos. Ele faz reuniões em que músicos se sentem à vontade para tocar o que quiser, em meio a uma atmosfera de intimidade. “Tudo é amador e por amor, feito por gente que gosta de música”, explica Azevedo.

No estúdio, aberto apenas para amigos do arquiteto ou pessoas indicadas por eles, é possível fazer a gravação digitalmente, mas o charme do espaço é uma mesa analógica que registra os sons em uma fita de rolo. “Não existe retoque nessas gravações. Tem que saber tocar ou não tem jeito”, conta Azevedo, que comprou diversos instrumentos que estão à disposição dos músicos.

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