Clássicos do Queen ganham polêmica versão latina

Sacrilégio. Essa é a primeira impressão que um fã terá ao ouvir o disco de tributo ao Queen gravado em espanhol e lançado recentemente no Brasil pela Sum Records. Em uma segunda audição, no entanto, é possível perceber que qualquer homenagem à banda que chegou a ser considerada a segunda melhor de todos os tempos, atrás dos Beatles, claro, não é apenas válida como muito divertida. Os maiores sucessos da "Rainha", cantados no idioma de nossos irmãos latinos, não foram traduzidos ao pé da letra, abrindo espaço para interpretações tão autorais quanto estrambólicas. Em alguns casos, porém, as versões acertam en la mosca e o resultado é bastante agradável. Em outros, no mucho.O subtítulo do disco é Los Grandes del Rock en Español. Mas famosos, mesmo, temos poucos - entre eles o talentoso argentino Fito Paez e os espanhóis do Aterciopelados. Talvez seja por isso que suas adaptações estão entre as jóias do tributo. Aos artistas que mantiveram os refrões em inglês, o nosso muchas gracias: nessas canções, o risco de sofrer um ataque do coração diminui consideravelmente. O repertório, de maneira geral, não foi bem escolhido. O álbum começa com Another One Bites the Dust, de 1980. A canção voltou à moda em 1991, quando pilotos norte-americanos a elegeram a trilha sonora da Guerra do Golfo, e a ouviam em walkmans enquanto destruíam o Iraque na Operação Tempestade no deserto. Traduzida como Otro Muerde el Polvo, a versão atualizada por Illya Kuryaki & Os Valderramas mistura funk e rap, mas nem com isso consegue alcançar a vibração original. Na sequência, Play the Game - Juegale, Apuestale -, dos Aterciopelados, é excelente, suavizando os sintetizadores recém descobertos pelo Queen na época do disco The Game, também de 1980. Somos Campeones - alguém adivinha que tradução é essa? - recebeu uma roupagem trip hop e ficou um pouco distante do clássico imortal.Dar um rosto novo a um clássico do Queen pode gerar duas percepções: 1) emoção, quando se constata que a versão é uma homenagem legítima à banda. E 2) raiva, quando se percebe que a banda tentou dar uma "melhoradinha" no que já era perfeito. Saiu-se melhor quem foi esperto e fugiu do suposto "fácil rearranjo" dos hits da Rainha. Fito Paez canta a melhor canção do disco, Se Fue, Se Fue, versão de All Dead, all Dead, do álbum News of the World, de 1977. O sucesso mundial do Queen deve muito às baladas da banda. Mas a banda nunca lançaria uma versão tão piegas quanto Salvame - Save me -, cantada aqui por Soraya. Outra versão que deve dividir opiniões é a do grupo Molotov. Bohemian Rhapsody aqui vira Rap-Soda y Bohemia. O nome diz tudo: é uma salada que mistura rap, funk, rock e vocais que não deixam claro se estão cantando seriamente ou fazendo uma grande gozação. Uma versão simpática - não, não é bairrismo - é a apresentada pelo brasileiro Paulo Ricardo. Sua voz soa bem em espanhol e, apesar de cantar o maior sucesso do Queen em todos os tempos, Love of my Life, o brasileiro fez bem em não tentar reinventar a canção. Com um arranjo simples de cordas, ele canta afinado e faz sua homenagem. A última música do disco é Cierta Magia - A Kind of Magic -, cantado por Angélica. Será a nossa estrela? Nem a gravadora soube informar. A solução, obviamente, seria ouvir o disco. Mas o volume da bateria eletrônica e os efeitos dance não permitiram identificar a identidade da cantora. Atenção aos fãs: por mais que vocês tenham gostado do disco inteiro, não cheguem à canção 15. Lembram-se de Crazy Little Thing Called Love (Uma Pequena Coisa Louca Chamada Amor)? A Cierta Magia cantada aqui pode provocar uma pequena coisa louca chamada raiva.

Agencia Estado,

22 de outubro de 2001 | 17h21

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