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Clarinetista israelense Anat Cohen grava obras de Moacir Santos

Ela e o violonista brasileiro Marcello Gonçalves interpretam peças populares como 'Nanã' no CD 'Outra Coisa', lançado pela Anzic Records

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

12 Novembro 2016 | 05h00

A clarinetista israelense Anat Cohen, 41, é um fenômeno do jazz que, por nove anos consecutivos, foi eleita pela Associação dos Jornalistas de Jazz, nos EUA, a melhor de seu instrumento, opinião dividida pelos críticos da revista especializada DownBeat. De uma família de reconhecidos instrumentistas – seus irmãos são o trompetista Avishai Cohen e o saxofonista Yuval Cohen – Anat é apaixonada por música brasileira. Tão apaixonada que acaba de lançar um CD, Outra Coisa, todo dedicado às composições do maestro e multi-instrumentista pernambucano Moacir Santos (1926-2006), que se fixou, aos 41 anos, em Pasadena, Califórnia, e lá morreu aos 80, compondo trilhas para o cinema e se dedicando ao jazz.

Há meio século, Moacir lançou um disco antológico, Coisas (1965), considerado um dos 100 mais importantes da história no Brasil, do qual Anat Cohen extraiu quatro peças para o CD Outra Coisa, ao lado do violonista Marcello Gonçalves, igualmente um virtuose que tocou ao lado de Baden Powell, Egberto Gismonti e correu o mundo divulgando o melhor da música brasileira. Ambos participam juntos em São Paulo do show do músico português António Zambujo neste fim de semana e depois partem em turnê para divulgar o CD.

“A ideia do disco foi do Marcello, que conheço há 16 anos”, diz Anat. “Ele me escreveu uma mensagem eletrônica na qual dizia que tinha um sonho, o de gravar a obra do Moacir Santos”, conta a clarinetista. Ela conhecia pouco de suas composições, que ouvira num CD de Mário Adnet, Ouro Negro, gravado em 2001, no Sesc Pinheiros. Ainda assim, ficou de pensar na sugestão. A maior parte dessas composições foi escrita para orquestra e o músico teve de transcrever as peças para o duo clarinete e violão.

“Não diria que se trata de uma adaptação, pois a música de Moacir é livre, de caráter jazzístico, embora conserve sua ligação com as raízes brasileiras”, analisa Anat. Ela já gravou outros grandes compositores brasileiros, entre eles Milton Nascimento (Cais), no CD Luminosa, lançado no ano passado, que tem, entre outras peças, a clássica Beatriz, parceria de Edu Lobo com Chico Buarque.

“Tinha uma banda de choro nos EUA e gostava de apresentar o repertório brasileiro aos colegas americanos, compositores geniais como Cachimbinho, que ninguém conhece por lá.” Enfim, diz, esses colegas imaginavam estar ouvindo algum pioneiro do jazz.

Anat Cohen aprendeu português para assumir esse papel de embaixadora de nossa música lá fora. Seu interesse por ela nasceu quando era estudante do Berklee College of Music e conheceu um músico brasileiro, Leonardo, que a convidou para integrar sua banda. “Eu também imaginava que eles estavam tocando jazz, soava como algo muito familiar, até descobrir que aquilo era música brasileira.”

Ela, claro, já ouvia MPB em Tel-Aviv, onde nasceu, “mas não conseguia identificar a origem, pois as canções eram interpretadas em hebraico”. Ao visitar o Brasil pela primeira vez, em 2003, ela diz que passou duas semanas seguidas tocando chorinho. “Sentia que estava em casa, pois o chorinho permite improvisar, como o jazz.” 

Quem perder o shows de Anat Cohen e Marcello Gonçalves com António Zambujo neste fim de semana tem ainda o dia 23 para ir até o Jazz B, na Vila Buarque, quando a dupla lança e toca o repertório de Outra Coisa, lançamento da gravadora Anzic Records, selo criado pela clarinetista. O CD traz 12 composições de Moacir Santos, que, aliás, teve como primeiro instrumento o clarinete.

Parte do repertório do CD Outra Coisa, de Anat Cohen e Marcello Gonçalves, foi gravada há 15 anos no CD duplo de Mário Adnet, Ouro Negro, como Nanã, talvez a mais conhecida canção de Moacir Santos, e Mãe Iracema, inspirada no romance do cearense José de Alencar. A diferença fundamental é que o projeto de Adnet pretendia ser uma antologia da carreira de Santos, o que inclui canções em parceria com Mário Telles, como Nanã (Coisa n.º 5), composta no apartamento de Vinicius de Moraes, em Laranjeiras, no Rio.

Nanã, a mãe d’água no universo mítico africano, ganha nova roupagem na nova gravação. Nara Leão foi uma de suas primeiras intérpretes (ela gravou a canção em seu disco de estreia, de 1964). A versão instrumental de Anat e Marcello é tão boa como a de Gil Evans (no disco Where Flamingos Fly, de 1971, que trazia Flora Purin como vocalista e Airto Moreira na percussão).

Os arranjos de Marcello Gonçalves são econômicos, dispensando a pirotecnia de Evans. Em contrapartida, a opção pelo credo minimalista “menos é mais” só valoriza a música de Moacir Santos.

CRÍTICA - Versão para duo é enxuta

Parte do repertório do CD Outra Coisa, de Anat Cohen e Marcello Gonçalves, foi gravada há 15 anos no CD duplo de Mário Adnet, Ouro Negro, como Nanã, talvez a mais conhecida canção de Moacir Santos, e Mãe Iracema, inspirada no romance do cearense José de Alencar. A diferença fundamental é que o projeto de Adnet pretendia ser uma síntese da carreira de Santos, o que inclui canções em parceria com Mário Telles, como Nanã (Coisa n.º 5), composta no apartamento de Vinicius de Moraes, em Laranjeiras, no Rio.

Nanã, a mãe d’água no universo mítico africano, ganha nova roupagem na nova gravação. Nara Leão foi uma de suas primeiras intérpretes (ela gravou a canção em seu disco de estreia, de 1964). A versão instrumental de Anat e Marcello é tão boa como a de Gil Evans (no disco Where Flamingos Fly, de 1971, que trazia Flora Purin como vocalista e Airto Moreira na percussão).

Os arranjos de Marcello Gonçalves são econômicos, dispensando a pirotecnia de Evans. Em contrapartida, a opção pelo credo minimalista “menos é mais” só valoriza a música de Moacir Santos.

ANAT COHEN E MARCELLO GONÇALVES

Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195, 3095-9400. Sáb. (12), 21h, e dom. (13), 18h. R$ 18 a R$ 60

Jazz B. R. Gen. Jardim, 43. 4ª (23), 21h e 22h30. R$ 20 a R$ 25  

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