Clã traz o pop ibérico e António Zambujo, o fado

Atrações se apresentam nesta sexta e no sábado no Sesc Pompeia

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

27 de novembro de 2009 | 05h00

Quem acompanha a evolução da música de Portugal sabe que o país do fado não é só tristeza e gente vestida de preto. Porém, essa é ainda a imagem que prevalece não só por aqui, mas no mundo. Nesta sexta e neste sábado, quem quiser se atualizar um pouco tem a oportunidade de ver no Sesc Pompeia uma das bandas mais "inventivas e originais" (segundo Arnaldo Antunes) da cena pop-rock portuguesa: o Clã. Parceiro de canções com o principal compositor e músico do grupo, Hélder Gonçalves, Arnaldo também já dividiu o palco com eles e escreveu um dos textos do encarte da expressiva compilação Catalogue Raissoneé (Allegro/EMI), que o grupo lança com exclusividade no Brasil. O CD inclui duas parcerias de Arnaldo e Gonçalves, além da gravação ao vivo de Consumado (dele com Marisa Monte e Carlinhos Brown), com participação do brasileiro.

 

Veja também:

som Ouça 'Carrossel dos Esquisitos', do grupo português Clã 

 

O Clã também tem afinidades musicais (e pessoais) com o Pato Fu, cujas figuras de frente, Fernanda Takai e John Ulhoa, vão participar dos shows em São Paulo, bem como Zeca Baleiro.

 

"De fato há uma grande fronteira entre Brasil e Portugal e um desconhecimento aqui do que se faz agora de mais moderno, de mais alternativo e diferente na música de lá", reconhece a cantora Manuela Azevedo. "Há muita coisa variada a se produzir hoje em Portugal. Não sei exatamente porque isso não chega aqui. Imagino que também por vocês terem muita música nacional muito boa não os torna sedentos de descobrir música do resto do mundo. Vocês têm um universo inacreditável de artistas em todas as áreas também", diz, bem-humorada.

 

"Mas o que existe ainda, e acho que isso está a mudar aos poucos, é de a música portuguesa ser mais relacionada com o fado, ou que tenha alguma conotação com a world music, como, por exemplo, os Madredeus, que tiveram alguma projeção internacional. E mesmo a imagem que se tem do próprio país, é de algo parado no tempo, de gente vestida de escuro, meio tristonha, meio soturna. Mas simplesmente Portugal não é só isso."

 

Em termos de pop-rock há muita coisa interessante. O Clã, claro, é uma delas. "Há músicos novos fazendo misturas inteligentes, irreverentes, com as coisas mais tradicionais, há rock mais pesado, há mesmo muito a descobrir na música portuguesa. E a experiência que nós temos, das poucas vezes que tocamos no Brasil, é que as pessoas ficam agradavelmente surpreendidas com aquilo que fazemos, porque percebem que têm uma ligação com aquilo que fazemos muito mais natural do que imaginavam ter com a música produzida em Portugal."

 

Contribui para essa identificação as afinidades sonoras que o Clã tem com a banda mineira Pato Fu, por exemplo, e as parcerias com Arnaldo e John Ulhoa, que estão presentes não só na compilação que os portugueses lançam agora no Brasil - que cobre o período de 1998 a 2005 -, mas também no trabalho posterior, Cintura, de 2007. O grupo também fez uma curiosa gravação de Tortura de Amor (Waldick Soriano), abrindo a coletânea brasileira Eu Não Sou Cachorro Mesmo, de 2007.

 

"Aos poucos, com esse tipo de trocas, com encontros com artistas brasileiros mais concretos, com canções feitas em parcerias, com participações reais nos discos uns dos outros, como tem acontecido conosco e Arnaldo, vai se criando uma ponte artística real, para acabar com esse desencontro entre as nossas músicas", diz Manuela.

 

Uma dessas mais vibrantes parcerias é a faixa que abre a compilação Catalogue Raissoneé, a impactante Carrossel dos Esquisitos, que tem letra de John Ulhoa sobre melodia de Hélder Gonçalves. Musicalmente o Clã poderia pertencer a esse carrossel? O que Manuela sabe é que John se baseou em personagens do cineasta Tim Burton, meio românticos e meio monstruosos.

 

Aceitando a brincadeira do repórter, Manuela diz que agrada a eles serem encaixados nesse "universo de esquisitice". "Uma das grandes dificuldades que temos enquanto grupo é sermos decodificados de alguma maneira, porque os discos são sempre diferentes um dos outros. Temos de alguma forma uma natureza meio esquisóide, ou esquisita, na maneira como olhamos para a música. E como sentimos total liberdade naquilo que usamos para construir as canções, isso acaba por trazer uma dimensão mais difícil de catalogar."

 

A importância de Carrossel vai além da questão metafórica da letra. Manuela acha a canção um significativo exemplar da particularidade autoral de Hélder Gonçalves. "É uma canção emblemática. Tem muito do tipo de engenho na construção das canções dele, com harmonias inesperadas aqui e ali. Há também a formação da banda: temos dois tecladistas e a dimensão sônica do universo dos teclados é também muito importante na construção das nossas canções, dos nossos arranjos. É uma nota muito distintiva do nosso vocabulário, do nosso universo sonoro." Essas características também torna a banda difícil de ser rotulada como uma banda de pop-rock típica. Algo como acontece com o Pato Fu.

 

Outra canção de grande impacto na compilação é Novas Babilónias, de Hélder, com versos originais do poeta Carlos Té, que se associou ao grupo e deixou sua marca na maioria das faixas do CD. Eis um trecho: "Neste tempo de sucessos/ De quedas e ascensões/ Para o topo dos topos/ Para o gelo dos copos/ Para a vala das gerações/ Novos Bogarts em velhas gabardines/ Novas Madonnas em velhas Marilyns/ Crestam lendas nos magazines/ Ao ritmo das ilusões." O refrão diz: "Novas Babilónias erguem-se do pó."

 

Se "tudo é novo e velho num vaivém de espuma", nesse "império das coisas parecidas", como o poeta acentua mais adiante, na voz de Manuela esses versos soam como um manifesto inconformista da estética da banda. Outra letra forte de Carlos Té é Fahrenheit, que fala de "guitarras em fúria, lanternas no ar" e "vozes a cantar em tom de gasolina". Mas o grupo não é só isso e tem incomuns canções de amor, como Lado Esquerdo e Problema de Expressão. Arnaldo assina os versos de H2omem e Eu Ninguém, além de Consumado, e outro famoso compositor português, Sergio Godinho, é parceiro de Hélder em outras boas canções.

 

Além de Hélder (baixo e guitarra) e Manuela (voz), o Clã, que começou suas atividades em 1992, na região do Porto, é formado por Miguel Ferreira e Pedro Biscaia (teclados), Pedro Rito (baixo) e Fernando Gonçalves (bateria). Nos shows de hoje e amanhã, a banda vai tocar não só as consistentes canções de Catalogue Raissoneé, mas outras mais recentes, para atualizar o painel de sua produção.

 

Clã. Onde: Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. Quando: sexta, 27, e sábado, 28, 21h. Quanto: R$ 28.

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