Cirandeira Lia de Itamaracá lança segundo álbum aos 64 anos

'Ciranda dos Ritmos' será apresentado na quinta, 13, em SP, e conta com faixas de Bezerra, Baracho e Capiba

Livia Deodato, de O Estado de S. Paulo,

12 de março de 2008 | 19h41

Você, certamente, já deve ter cantarolado esse refrão: "Essa ciranda quem me deu foi Lia/que mora na Ilha/de Itamaracá." A canção estourou nos anos 60 e permanece rediviva não só em rodas de ciranda, como nas de samba, de frevo e de coco, à beira-mar, no recôndito dos sertões, nas praças em frente das igrejinhas, nas capitais de todo o País. Depois de entoar e repetir algumas vezes os versos, uma pergunta deve ter assolado o seu pensamento: "Mas quem foi essa Lia?"  Veja também:Ouça trecho de 'Mamãe Oxum', de Lia de Itamaracá  Zabé da Loca lança álbum 'Bom Todo' no Sesc Pompéia, em SP Ouça trecho de 'Sala de Reboco', de Zabé da Loca   A cirandeira mais famosa do Brasil está acostumada com a associação de seu nome a alguma lenda, gerações passadas e até mesmo à morte. "As pessoas tomam um susto quando me conhecem. Acham que Lia já morreu ou que eu sou a filha dela", diverte-se a pernambucana. Seu nome se consagrou junto a ilha graças à compositora e cantora Teca Calazans, que colocou a letra, e ao célebre compositor potiguar Expedito Baracho, responsável pela música, que faria 100 anos em 2007 se estivesse vivo. Nascida Maria Madalena Correia do Nascimento, Lia - por diminutivo carinhoso, que de ‘ia’, passou para ‘ria’, logo transformando-se em ‘Lia’ - já rodou boa parte do País e fez shows em Berlim e Paris. Ela foi contemplada com o projeto Rumos do Itaú Cultural de 2003, considerada patrimônio vivo pela prefeitura do Recife em 2005 e seu centro cultural, Estrela de Lia, montado há quatro anos na praia de Jaguaribe, em Itamaracá, acabou de receber o primeiro recurso, no valor mensal de R$ 5 mil, por ter se transformado em um Ponto de Cultura, projeto do MinC. Nem por tudo isso, a cantora e compositora respeitada por toda a ilha deixou de trabalhar como merendeira da Escola Estadual Reunidas de Jaguaribe em troca de um salário mínimo, que é acrescido ao seu orçamento de R$ 750, valor da bolsa mensal que recebe por ter se tornado patrimônio vivo. "Não daria para sobreviver só com as apresentações, não", faz seu desabafo, em uníssono a todos os artistas populares brasileiros. Faltam apenas cinco anos para Lia poder se aposentar por tempo de serviço. Se fosse pela idade, ela já estaria apta, mas falta-lhe tempo. Completou 64 anos no último dia 12 de janeiro, coincidentemente a mesma data de nascimento de Zabé da Loca. Quando a rainha do ‘pife’ tinha 20 anos, Lia estava nascendo. "E é mesmo?", pergunta a cirandeira. As duas se encontraram rapidamente, há alguns anos, uma única vez, durante o maior encontro de cultura popular de Pernambuco, a Festa da Lavadeira, que ocorre invariavelmente no 1º dia de maio, em Cabo de Santo Agostinho. "São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, não deu para eu falar com ela pessoalmente, não", diz Lia. Pelo fato de ter encontrado uma pessoa do bem (o produtor Beto Hees) algumas décadas antes que Zabé, Lia já se aventura em seu segundo álbum, enquanto a ‘moleca’ de 84 anos acaba de se lançar no mercado da música com sua primeira compilação, Bom Todo. Ciranda de Ritmos, cujo lançamento se dá somente nesta quinta-feira, 13, no Sesc Pompéia, tem seis faixas inéditas de Bezerra do Sax, compositor recifense que já alcança, firme e forte, seus 93 anos. "Lia e Bezerra se conhecem há 35 anos. Fazia uns 8 anos que o Bezerra não acompanhava Lia e ele andava compondo cada coisa linda... Achamos que agora era o momento dele voltar a trabalhar com Lia e ainda ter um retorno financeiro por isso", diz Hees. O coco O Passarinho, de Bezerra, por exemplo, é de uma singeleza só: "O passarinho que tá preso na gaiola/Ninguém sabe com certeza/Se ele canta ou se ele chora/ Mas ele chora, o coitadinho, quando canta com saudades que ele sente do seu ninho." "É uma música de protesto e que ao mesmo tempo fala da vida", opina o produtor que trabalha com Lia há dez anos. Para completar o arranjo, Hees convidou a tribo indígena Fulni-ô, também conterrânea, para fazer sons da mata, dos rios, dos ventos. Uma das índias, Carmem, faz também uma participação especial na faixa 6, Mamãe Oxum. Ela faz o contracanto com Lia, entoando versos da canção de umbanda. Para completar o time de primeiro escalão a realizar o álbum sucessor do tocante Eu Sou Lia, de 2000, Hees chamou Carlos Zens para a direção musical, as irmãs Severina, de 55 anos, e Dulce Baracho, de 60 (que fazem participação especial no show de quinta), filhas do mestre cirandeiro Baracho, e ainda contemplou o frevo em Recife, de Bezerra, e o maracatu Verde Mar de Navegar, de Capiba. Além de toda essa gente especial, não poderia faltar, é claro, o companheiro de vida de Lia, Toinho Januário, caixeiro do grupo. É torcer agora para que a choperia do Sesc se transforme momentaneamente na praia de Jaguaribe, com a lua e as estrelas refletidas no verde mar relatado pelo pernambucano Capiba. Aí, sim, as cirandas não terão hora pra terminar.  Lia de Itamaracá. Sesc Pompéia - Choperia (800 lugs.). Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Hoje, às 21 h. R$ 4 a R$ 16

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