Cinqüentão, Ritchie encerra jejum e lança novo álbum

Os ladrões roubaram o abajur cor de carne. O lençol azul e as cortinas de seda da sala rasgaram e tiveram de ser trocadas. Mas nada foi pior do que o fim da provocante "menina veneno". Vinte anos depois de seduzir Ritchie, seu criador, que graças a ela conseguiu vender 1,2 milhão discos em 1983, a tal garota virou um caco de mulher, tornou-se um estorvo e teve de ser enterrada.Richard "Ritchie" David Court, o inglês que veio para ser roqueiro no Brasil há 30 anos, praticamente fugido dos pais, não canta mais Menina Veneno - música que o transformou em astro na época platinada do rock nacional. E volta a ser notícia depois de um sumiço de uma década. Um novo disco, Auto-Fidelidade, inédito em suas 11 faixas, faz com que ele se sinta o mesmo jovem que colocava jaqueta preta e óculos escuros para cantar no Cassino do Chacrinha.Ritchie bateu em retirada depois de perder o controle de seu próprio personagem. As gravadoras exploraram tanto a sua imagem de galã kitsch - misto de James Dean, Elvis Presley e Roy Orbison - que ninguém mais o levava a sério.Em 1990, viu o último disco, Sexto Sentido, chegar às lojas na mesma semana em que o Plano Collor era lançado. Foi o golpe de misericórdia na carreira de Ritchie, que já amargava severa retaliação de Leleco Barbosa, filho e produtor de Chacrinha. "Não quis fazer um dos shows que os artistas que apareciam no programa do Chacrinha faziam pelo subúrbio do Rio. O Leleco me baniu do programa por seis anos. O pai dele gostava de mim, mas ele foi um crápula. Senti que era carta marcada para sair de cena. Incomodou muito o fato de um estrangeiro ser eleito cantor do ano. Estavam começando a falar que o Ritchie vendia mais discos do que o Roberto Carlos. Com o Plano Collor decidi sair mesmo."Sem ter a cabeça ocupada por música, Ritchie viu seu futuro nos computadores. Depois de se tornar expert em sonorização de sites e consultor de tecnologias no Rio, foi convidado para trabalhar na matriz americana da Yahoo!, e passou três meses por lá.Música, a esta altura, já fazia parte de um passado remoto, exceto quando tirava um extrato e se deparava com o depósito dos direitos autorais que recebia pela gravação que Zezé di Camargo & Luciano fizeram de Menina Veneno. "Me decepcionei com a versão deles. Mas minha conta agradeceu."Fim do jejum - Com a quebradeira dos sites o especialista em Internet voltou a abrir o guarda-roupas e olhar para sua jaqueta de couro. "Comecei a ficar preocupado e a namorar a idéia de voltar ao disco."A Warner o procurou para fazer um CD e um DVD com regravações de seus sucessos. Mas era tudo o que Ritchie menos queria. "Gravar Menina Veneno seria o óbvio. Não tenho mais de ficar vivendo um momento só minha vida inteira, por mais lindo que ele tenha sido."Lançar um álbum em 2002 é mais do que a quebra de um jejum praticado no ostracismo por tanto tempo. Ritchie quer celebrar uma seqüência de datas redondas. É neste ano que completa 50 anos de idade, 30 de casado com a brasileira Leda Zucarelli, 30 de sua chegada ao Brasil e 20 da criação de Menina Veneno - estes arredondados, mais precisamente, anteontem. O astro agora cult não seria ninguém sem a música que fala de "um abajur cor de carne, um lençol azul, cortinas de seda e o seu corpo nu". Menina Veneno veio com um jeito sereno de ser na tarde em que Bernardo Vilhena chegou na casa do amigo dizendo que havia tido um sonho com a tal garota.Ritchie ficou surpreso, e disse que havia sonhado com uma melodia. Sentaram-se os dois e a canção saiu em 20 minutos. "Nunca mais fiz nenhuma música tão rápido." Ritchie é um homem culto. Estudou literatura em Oxford e deu aulas de inglês antes de se tornar estrela. Mas ninguém seria tão genial para criar sozinho um "abajur cor de carne". Ele, de fato, existiu. Foi comprado pelo cantor em um brechó de São Paulo.No dia em que fazia mudanças, levava-o dentro do carro com outros objetos quando parou no caminho para comer uma pizza. Os ladrões arrombaram o carro e levaram o tal abajur cor de carne.

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