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Cinquenta anos depois, festival de Monterey terá repeteco

Evento foi crucial para a popularidade de Jimi Hendrix, que incendiou sua guitarra

Ben Sisario, THE NEW YORK TIMES

26 Abril 2017 | 17h33

Há 50 anos, a ideia de um festival de rock foi concebida com um objetivo simples, mas ousado: conquistar o mesmo respeito que o jazz.

Lou Adler, produtor fonográfico de Los Angeles e eterno hipster, conta como foi o encontro, em meados de 1967, no qual ele, Paul McCartney e o The Mamas and The Papas - grupo que emplacou "California Dreamin'" na sua gravadora, a Dunhill - discutiram a realização do que se tornaria o Monterey International Pop Festival.

"A conversa se concentrou no fato de o rock 'n' roll não ser considerado uma forma de arte como o jazz. A possibilidade de fazer algo em Monterey, no mesmo lugar que acontecia o festival de jazz, seria como uma validação para nós", relata Adler que, aos 83 anos, ainda usa óculos escuros e uma barba farta.

O Monterey Pop, realizado entre os dias 16 e 18 de junho de 1967, no parque de diversões de Monterey, litoral da Califórnia, um pouco ao sul de San Francisco, foi crucial para a evolução do rock enquanto uma força do setor de entretenimento e da cultura de forma geral. Serviu de precursor da explosão de festivais que culminou em Woodstock e, com um público de hippies de cara pintada, definiu o visual, o espírito e o som do Verão do Amor.

É difícil entender o impacto das apresentações hoje, quando bandas novas surgem, estouram e se queimam nas redes sociais antes mesmo de saírem em turnê. Monterey foi o momento revelador para Jimi Hendrix, que incendiou sua guitarra, literalmente, e Janis Joplin, que em seguida assinou com outro rosto novo do setor: Clive Davis, da Columbia Records. The Who, Ravi Shankar e Otis Redding também fizeram um dos primeiros contatos com o grande público norte-americano.

Para a grande maioria dos artistas, porém, foi apenas uma ocasião muito bacana.

"Foi um encontro matador. Estava todo mundo lá, menos os Beatles", lembra Phil Lesh, do Grateful Dead, que descreve também a jam session nos bastidores, na qual Hendrix pediu para ficar no baixo.

Exatamente 50 anos depois, o festival será relembrado com um novo evento, novamente chamado Monterey International Pop Festival, exatamente no mesmo lugar, entre 16 e 18 de junho. Estarão lá Norah Jones, Jack Johnson, Gary Clark Jr., Jim James, Kurt Vile, the Head the Heart, Father John Misty e Lesh com sua Terrapin Family Band para provar que, em época de Coachella e Bonnaroo, o Monterey Pop continua uma forte influência - mas não há dúvida que os organizadores terão que rebolar para honrar o espírito do original.

"Como montar um show que tenha os aspectos bons de 2017, mas com a meiguice e a inocência de 1967? Teremos um sistema de som fantástico, mas não queremos telões gigantescos, nem efeitos especiais ou laser", explica Gregg Perloff, CEO da Another Planet Entertainment, promotora de eventos de San Francisco que está organizado o evento com a Goldenvoice, empresa responsável por Coachella e a festa do rock clássico Desert Trip.

O novo festival encabeçará uma série de comemorações pelo meio século do Monterey Pop: o Grammy Museum de Los Angeles abrirá, em onze de maio, uma exposição que inclui itens da coleção pessoal de Adler e "Monterey Pop", o documentário feito por D.A. Pennebaker, será relançado nos cinemas em junho.

Apesar da importância que teve, o Monterey Pop original não começou de maneira muito auspiciosa: Michelle Phillips, do Mamas & The Papas, fala de outro encontro, no qual sua banda foi convidada a tocar em um festival que se realizaria naquele verão, em Monterey.

"Achei a ideia ridícula. Como é que iam conseguir reunir todos aqueles músicos, pagar todo mundo, acomodá-los e ainda sair no lucro?", confessou ela recentemente.

Mas Adler e John Phillips - marido e companheiro de banda de Michelle - decidiram levar a ideia adiante e assumiram o evento dos produtores originais. Fizeram do festival um evento beneficente, com os artistas tocando de graça, e criou um "conselho de governadores" que inclui Mick Jagger, Brian Wilson, Paul Simon, Donovan, Smokey Robinson e McCartney.

Tal comissão, na verdade, nunca se reuniu, mas ter tantos nomes reunidos no anúncio funcionou como um ímã poderoso para o talento. O empresário de McCartney e dos Rolling Stones, Andrew Loog Oldham, sugeriu a Jimi Hendrix Experience, que tinha acabado de explodir no cenário londrino. Reuniões com Bill Graham, o rei dos concertos, e com o crítico musical Ralph J. Gleason, levaram à contratação de grupos de San Francisco como Big Brother and The Holding Company, que tinha uma vocalista pouco conhecida chamada Janis Joplin.

O evento todo foi organizado em seis ou sete semanas, encabeçado por Adler e John Phillips. De fato, todos os artistas tocaram de graça, com exceção de Shankar, cujo contrato era anterior ao envolvimento dos dois. O festival pagou pelo transporte e acomodação de todos e uma filosofia de boas vibrações tipicamente californiana governou todas as decisões.

"Decidimos fazer com que fosse o mais confortável e agradável possível. A relação do público com os artistas foi de música e amor. Talvez todos nós fôssemos muito ingênuos", admite Adler.

Pennebaker, que fez "Don't Look Back", documentário sobre a turnê britânica de 1965 de Bob Dylan, foi contratado para registrar o evento e revela ter ficado intrigado com o cenário.

"A Califórnia, na época, tinha essa coisa, para todo mundo, de ser o lugar onde você poderia se encontrar. E não era só pelas drogas, não, mas pela música e o estilo de vida que começava a representar."

Os cálculos de público variam drasticamente, mas Adler afirma que pelo menos cem mil pessoas estiveram lá, ao longo dos três dias. A comunidade de Monterey teve uma reação hostil ao que considerou uma invasão, mas o Monterey Pop também foi vítima do próprio sucesso, uma vez que começaram a surgir festivais em todo lugar e os empresários dos novos roqueiros perceberam que tinham um trunfo nas mãos.

"De repente a indústria da música mudou", constata Adler.

Como prometido, a organização distribuiu a verba para instituições de caridade - e até hoje a ONG responsável pela atitude, gerenciada por Adler, gera milhares de dólares por ano com sua propriedade intelectual. Uma parte da renda do show deste ano irá para a fundação.

A simples realização de um festival de rock em grande escala virou notícia em rede nacional e imagens do público mostraram uma mudança na moda e no clima da época; quando aconteceu Woodstock, em agosto de 1969, a cultura de festival já tinha se tornado um movimento de massa, antes de minguar nos anos 70, com a objeção dos governos locais e promotores e empresários voltados para formas mais rentáveis de exposição.

"O Monterey Pop pegou quase todo mundo de surpresa, principalmente a imprensa. Ninguém sabia as implicações mais profundas do festival até elas ocorrerem, depois de um tempo de sua realização", analisa Robert Santelli, diretor executivo do Grammy Museum.

Sob vários aspectos, o Monterey Pop original é remanescente de um período da indústria da música que não pode ser reproduzido, a começar pelos artistas. Em 1967, o rock ainda era jovem, não tinha chegado ao auge artístico ou comercial. (Os Beatles que, a essa altura tinham desistido das turnês, mandaram um desenho para o programa do festival que usou o nome de seu álbum recém-lançado, "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".)

"Mesmo hoje em dia, se você olhar a lista de convidados, é coisa de louco, impossível reproduzir", constata Paul Tollett do Goldenvoice, que falou no South by Southwest deste ano, com Adler, sobre a influência perene do Monterey Pop.

Perloff, que começou a carreira trabalhando para Graham, observa que, em 1967, os festivais de rock não eram exatamente eventos bem-recebidos nas comunidades, mas isso hoje mudou totalmente.

"A Monterey da época se mostrou muito cética, mas, desta vez, assim que começamos a falar com a prefeitura, o pessoal já disse que a ideia era ótima e se ofereceu para fazer as faixas", conta ele.E, desta vez, as bandas receberão cachê.

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