Caroline Bittencourt/Divulgação
Caroline Bittencourt/Divulgação

Cinco décadas de estrada e amizade

Renato Teixeira e Sérgio Reis celebram a longa parceria com DVD e CD ao vivo

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

06 de maio de 2011 | 06h00

Sérgio Reis é o intérprete mais assíduo de Renato Teixeira. Começou a carreira nos primórdios do rock, decolou na jovem guarda e mudou para o estilo que o consagrou justamente quando Teixeira gravou os primeiros discos. A parceria dos dois, porém, já vem desde o início da década de 1960. E para celebrar essas cinco décadas de amizade, o cantor e o compositor paulistas juntaram forças no CD e DVD Amizade Sincera (Som Livre), que tem o primeiro show oficial de lançamento hoje em São Paulo.

A música que Teixeira e Reis fazem não é exatamente sertaneja ou caipira. Ambos vizinhos no ainda arborizado bairro da Cantareira, Teixeira é caiçara de Santos, criado em Taubaté, no Vale do Paraíba, e Reis é paulistano, que nem por isso desconhece a vida do campo, como outros "que nunca pisaram em bosta de vaca", como brinca Reis.

É uma espécie de folk brasileiro urbano com um olhar poético, um pouco saudosista, sobre a cultura rural, que nem os próprios interioranos têm mais hoje, invertendo os valores. É como olhar uma pintura de Almeida Junior. O "jeca tatu" ainda existe em certos rincões, como observa Reis, mas hoje o telefone celular, a câmera digital e o computador já são parte da rotina da roça. Só que, com eles, a emoção das coisas simples sobrevive e eles, enfim, são diferentes de quase tudo o que se vende hoje como "música sertaneja".

Não que desprezem os ídolos atuais. Tanto é que Paula Fernandes e a dupla Victor e Léo participam do DVD deles sem destoar. Chico Teixeira toca violão e também canta com o pai a versão em português que fizeram para Father and Son, de Cat Stevens, que ele também gravou em seu álbum solo, prestes a ser lançado.

"Victor compõe bem, a música dele é mais moderna, mas é gostosa, não é pop, tem a imagem do sertão. São meninos do interior que vêm pra cá, mas têm aquela cultura, tocam viola", diz. "Antes de estourar Victor e Léo tocavam na noite comigo. Ficaram dois anos e meio cantando de quinta a domingo, no Rancho do Serjão, na Rua Pedroso de Morais. Ganhavam R$ 300 por noite, hoje eles cobram R$ 300 mil", lembra. "Não errei."

"A gente tem de partir do princípio que a cultura do interior, principalmente de São Paulo, é muito poderosa e foi o que construiu tudo isso", diz Teixeira. "Não reconheço essa música como caipira, mas música da cultura caipira, como tem no cinema com Mazzaropi, na literatura com Monteiro Lobato, na pintura com Tarsila do Amaral. É uma cultura linda. Mas a música sempre tocou no rádio no horário da madrugada, como se o Brasil quisesse virar as costas para nossa realidade rural. Agora a situação mudou, mas a tendência é esse tipo de música acabar. Meu trabalho e do Sérgio vai no sentido inverso, com a intenção de ser contemporâneo."

Foram justamente eles que furaram a barreira na década de 1970, levando a música rural para um público urbano maior. A formação musical deles, no entanto, não se limita ao sertanejo. Teixeira lembra que quando morou em Taubaté ia nas rodas de jongo, aprendeu muitos sambas, como Reis, que aprendeu serestas com o pai, gostava de Orlando Silva, Ataulfo Alves. "Outro dia encontrei o pessoal da Velha Guarda da Portela e eles não acreditaram que eu conhecia sambas de Ataulfo e de Onésimo Gomes. Ficaram surpresos", conta o cantor.

Teixeira observa que a MPB hoje "já soa meio antiga" e o que predomina é "uma música meio banal" imposta pelo mercado consumidor. "Mas não sou contra isso não." Ele que já trabalhou muito com publicidade e teve clássicos eternizados por Elis Regina (Romaria) e Maria Bethânia (a comovente Tocando em Frente, parceria com outro fenômeno do gênero, Almir Sater) acha que Bethânia e Ivete Sangalo devem ser consideradas na mesma proporção.

"Esse nosso trabalho tem a intenção de afirmar esse gênero musical (acho que estamos conseguindo porque o CD já ganhou dois discos de ouro) e consertar uma situação que é reconhecer no Sérgio a identificação de toda uma cultura, de toda uma região do Brasil", diz Teixeira.

O compositor propôs até se criar um memorial para Sérgio Reis, pelos 50 anos de carreira. Já é hora também de o cantor, com mais de 100 discos gravados, ter sua história contada em livro. Quem está escrevendo sua biografia é Murilo Carvalho, que trabalha com ele há anos num programa de rádio, Siga Bem Caminhoneiro, no ar há 19 anos. "São 216 emissoras de todo o Brasil e até a Rádio Tropical de Portugal", diz o cantor. É assim que vai tocando em frente.

SÉRGIO REIS E RENATO TEIXEIRA - HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281, tel. 4003-1212. Hoje, às 22 h. R$ 40/R$ 150.

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