Ludvig Andersson via The New York Times
Ludvig Andersson via The New York Times

Cinco amantes do Abba explicam por que suas músicas ainda são ouro puro

'Era um fascínio para mim, porque elas [as músicas] tinham uma consciência feminina muito forte - eram canções que as mulheres cantavam, mas Benny as tinha composto', explica Judy Craymer, criadora de 'Mamma Mia!'; veja outros depoimentos

Jeremy Gordon, The New York Times

29 de outubro de 2021 | 20h00


A notícia do retorno do Abba com um novo álbum (e um show estrelado por avatares digitais) gerou burburinho entre seus seguidores, então conversamos com cinco fãs famosos do grupo. Aqui vão alguns trechos editados das entrevistas.


 

Jake Shears, músico e cantor do Scissor Sisters

Tinha um box de luxo com quatro discos chamado Thank You for the Music que convenci minha mãe a comprar para mim. Fizemos uma viagem pelo interior para ver minha avó, e estes eram os únicos quatro discos que tínhamos no carro. Na época, eu sabia que o Abba não era necessariamente cool, mas foi um momento doce porque eu estava com minha mãe e era uma coisa que estávamos curtindo juntos.


 


Quando comecei a compor minhas próprias músicas, comecei a voltar àqueles discos clássicos. Sempre tive esse amor por music hall e cabaré, que era o que eu ouvia no Abba. Meu disco favorito deles é The Visitors, mas alguma coisa do tipo do Head Over Heels tem aquela pegada de show alto astral. É muito cinematográfico, me faz pensar em holofotes e cortinas vermelhas. Aí comecei a trazer essas influências para o mundo do electroclash, começamos a fazer um rock mais teatral e levá-lo para as pistas de dança.




 

Lea DeLaria, atriz e comediante que fez o papel de Rosie em 'Mamma Mia!' (2017)

O Abba foi uma grande parte da cultura pop na minha juventude. Eu achava que estava vivendo num filme sobre a vida deles, porque estava sempre ouvindo a trilha sonora. A cidade em que cresci ficava a uns 30 quilômetros a leste de St. Louis e a gente sempre ia a uma boate gay em East St. Louis, chamada Faces. Quando tocava Dancing Queen, era uma loucura.

 


O que o Abba me ajuda a fazer é acessar a alegria da minha juventude. O Abba é uma daquelas coisas que, quando boto para tocar, sinto que tenho 16 anos e estou na pista de dança de novo. Me deixa muito feliz. Acho interessante que eles não percebam quanto deram à cultura pop. São residentes permanentes da cultura pop tanto quanto Ella Fitzgerald, Frank Sinatra ou David Bowie. Quando vi Mamma Mia! na Broadway, com todo mundo tão cheio de alegria, e eu mal podia esperar para fazer parte dessa história.


 

Corey Taylor, cantor do Slipknot

Cresci nos anos 70, quando a música vinha passando por um amálgama meio estranho. Tinha Elvis, tinha a Motown, tinha música disco. Eu me lembro de ouvir a música do Abba no meio de tudo isso. Parecia que estava sempre tocando e era claramente diferente de todo o resto. A banda tinha uma produção exuberante que parecia e soava muito grandiosa. Eram só quatro pessoas, mas as canções pareciam ter mil pessoas.

Take a Chance on Me sempre foi a minha música. Eu amo a justaposição: o começo dá todo o tom da música, com aquele estranho canto de monge gregoriano e, de repente, a loucura europeia entra em ação. A modulação das músicas é linda, a gente fica preso na maneira como oscila entre os tons maiores e menores. Eu simplesmente amo o sentimento de nostalgia. Quando ponho para tocar, fico instantaneamente de bom humor.

 


Se você é um verdadeiro amante da música - não só alguém que curte um gênero específico - então você tem que apreciar muito as músicas. E o Abba compôs ótimas canções que executaram de um jeito completamente acima do normal. É música que pega de verdade, é uma coisa que entra furtivamente e fica presa na sua cabeça. É isso que atrai as pessoas, mesmo que elas não gostem muito da banda ou do gênero. Até mesmo o material de lado B é muito, muito cativante, mesmo que tenha ficado escondido de nós por muito tempo, não tivemos a chance de curtir tudo isso. É como se as pessoas desejassem que os Beatles voltassem.


 

Anne Sofie von Otter, meio-soprano que gravou 'I Let the Music Speak', álbum de covers do Abba, com Benny Andersson

Quando eles tocaram Waterloo no Eurovision, eu me lembro de ter gostado e achado que eram eles divertidos, mas não comprei os discos. Eu meio que concordava com os esnobes que diziam que eles não eram bons, por algum motivo idiota. Só os redescobri quando fui trabalhar em Basileia, na Suíça, no meu primeiro contrato. Tinha uma loja de discos maravilhosa onde comprei uma fita cassete de The Visitors, ficava deitada na cama com muita pena de mim mesma, ouvindo no meu Walkman.

 


O grande negócio é a musicalidade de Benny Andersson - sua habilidade de compor uma melodia, seu ouvido para as harmonias. Ele sabe que tem um elemento de música folclórica, de música nórdica, de música barroca. É um grande compositor, sabe como usar diferentes vozes se entrelaçando e se construindo. Há uma grande melancolia em tudo o que ele compõe - que te machuca de um jeito maravilhoso. Quando eu estava gravando com Elvis Costello, ele ligou para o Benny, que veio ao estúdio, e eu fiquei completamente passada - quase chorando de empolgação, o que raramente acontece. Fiquei extremamente impressionada, porque o idolatrava. Ainda o adoro, mas talvez de um jeito menos dramático do que antes.


 

Judy Craymer, criadora de 'Mamma Mia!'

Eu estava trabalhando para o letrista Tim Rice como assistente de produção, e o primeiro projeto dele em que trabalhei foi com Bjorn Ulvaeus e Benny Andersson, para escrever Chess. Conhecer Benny e Bjorn foi muito inspirador. Eu queria saber mais sobre as músicas deles, o que estava por trás das letras, quais eram os ingredientes dessas músicas. Era um fascínio para mim, porque elas tinham uma consciência feminina muito forte - eram canções que as mulheres cantavam, mas Benny as tinha composto. Ao vê-los trabalhar no estúdio, pude perceber que não eram só canções pop: tinha uma mistura maravilhosa de refrões e aberturas e produção - e também eram músicas suecas, então tinham uma espécie de melancolia. São gente muito séria, não é o tipo de gente que se veste de branco com botas de plataforma. Era uma coisa muito interessante para mim.

 


Eu ficava fascinada com a explosão de oxigênio que você recebe - você sai da melancolia e sempre termina em êxtase. As letras de Bjorn tinham conexões cotidianas e temas comuns sobre pessoas, amizade, romances destruídos, uma criança saindo de casa para ir à escola. É por isso que acho que as músicas duraram muito mais tempo do que eles jamais poderiam imaginar. Quando eu os importunava nos anos 80, eles diziam: “Ah, o Abba acabou. Estamos seguindo em frente”. Mas você não precisa amar Abba para amar Mamma Mia!. Tem um público muito mais jovem que não conhecia o Abba como estrelas pop ou performers. Eles só conhecem a música. Você toca a música para a criançada e sente uma coisa quase reconfortante.

Eu os conheço há muito tempo e acho que eles ainda estão surpresos que todo mundo adore tanto Dancing Queen e queira dançar. É uma grande celebração que eles estejam lançando outro álbum, porque eu os conheci quando eles se separaram, e eles voltarem agora marca um maravilhoso círculo de vida para mim. Tem uma música do Abba chamada The Way Old Friends Do que fala um pouco sobre esse tipo de encerramento.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Tudo o que sabemos sobre:
ABBA [grupo musical]música

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.