Cantora Cida Moreira que lança seu novo disco Soledade. Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Cantora Cida Moreira que lança seu novo disco Soledade. Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Cida Moreira mergulha em suas memórias para cantar o Brasil no disco ‘Soledade’

Título vem de uma pequena cidade paraibana; álbum será lançado pela Joia Moderna, do DJ e produtor Zé Pedro

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 05h00

Soledade é um lugar que quase não existe mais, escondido na aridez de um vasto sertão referencial de valores e memórias em extinção. Vem de uma pequena cidade paraibana o título do novo álbum da cantora, pianista e atriz Cida Moreira, que será lançado no dia 1.º de setembro pela Joia Moderna, do DJ e produtor Zé Pedro. Cida divide a produção com a gravadora dele, a direção musical com Omar Campos e a concepção e o repertório com o jornalista e pesquisador Eduardo Magossi, trabalho que contou com o esquema de financiamento coletivo via internet.

A ideia inicial era realizar um disco sobre o Brasil, como uma espécie de manifesto contra a destruição de um país que perdeu o tempo da delicadeza, mas tudo mudou quando Cida passou uma temporada no sertão nordestino para as filmagens de Deserto, produzido e dirigido pelo ator Guilherme Weber, que tem estreia prevista para outubro. Baseada num livro do mexicano David Toscana, trata-se da história de um grupo de artistas mambembes que se apresentam para ninguém e as tensões da convivência em condições precárias leva-os aos extremos da morte. 

À maneira do personagem interpretado por Lima Duarte no filme, Cida se questiona o que é ser artista no País hoje e não é muito esperançosa quanto ao futuro nesse aspecto. “Soledade é uma cidade que não tem nada, mas na sua geografia, ela reúne tudo que está em extinção no Brasil: a arquitetura, as pessoas, o tipo físico, o comportamento.” A relação com Deserto também se evidencia no encarte, com a inclusão da foto (feita por ela) de uma carroça com um piano, que a cantora toca no filme.

Com um tanto de melancolia e outro de cores vibrantes, com ligações poéticas e teatrais de Alice Ruiz, Tiago Torres da Silva, Mário de Andrade, Augusto Boal e Bertolt Brecht, Cida mergulha em memórias pessoais, desde as modinhas e outras canções que cantava quando menina. Ao mesmo tempo, procura o conforto de um país menor (simbolizado no piano em miniatura e as caixinhas de música fotografadas por Diego Ciarlariello para a capa do disco) num coração maior, como seu piano e sua voz incandescente, ao cantar dramas cotidianos do Brasil, com o pulso do rock do Joelho de Porco e dos Titãs. “Há um encadeamento nesse disco, em que tem a extinção da extinção que é Construção, seguida da Última Voz do Brasil, porém, todavia, contudo, ‘o pulso ainda pulsa’, de outra maneira, num registro elétrico, mais duro, contemporâneo. Por isso não quis gravá-la (O Pulso) como um rock, igual aos Titãs. Deixei o computador fazer isso. E tem aquela linha fina no fim, que é uma UTI, mas aí entra a vinheta das Pastorinhas (Noel Rosa/João de Barro).” Uma ponta de alegria carnavalesca.

Cida Moreira é cultuada por novatos, mas não tem obsessão pelo novo

Cida relembra autores que lhe são caros como Chico Buarque (Construção), Milton Nascimento e Ronaldo Bastos (Um Gosto de Sol, com citação de Trastevere), Gilberto Gil (Bom Dia, parceria com Nana Caymmi), Nico Nicolaiewski (Feito Um Picolé no Sol), seus amigos mortos Tico Terpins e Zé Rodrix (dois dos autores de A Última Voz do Brasil), Taiguara (Outra Cena), Jards Macalé (Poema da Rosa, parceria com Boal sobre poema de Brecht), e traz novidade de quatro jovens compositores e cantores que reconhecem influências dela e com os quais a cantora já dividiu o palco: Hélio Flanders, Thiago Pethit, André Frateschi e Arthur Nogueira. “As canções sempre me pegam pela letra”, diz Cida. “Faço minhas escolhas a partir delas.”

Com exceção das novas, as canções e todos os músicos fazem parte da história de Cida. Só não conhecia Mestrinho (que toca acordeom na clássica moda de viola paulista Moreninha). Faíska Borges é um guitarrista que tocou com ela nos anos 1980 e participou da gravação de A Última Voz do Brasil no álbum Saqueando a Cidade, do Joelho de Porco, do qual Cida participou. Zé Mazzei (dos Forgotten Boys) toca baixo em Forasteiro (Flanders/Pethit), um dos pontos altos do álbum. Ricardo Severo, tecladista que Cida conheceu no Sul há 25 anos, trouxe o peso eletrônico para O Pulso (Titãs). Arthur de Faria criou o arranjo e regeu o quinteto de cordas em Construção, outro dos mais belos momentos do disco. Lincoln Antonio (pianista) foi aluno de Cida, fez Porgy and Bess com ela e gravou no disco da cantora dedicado a Chico Buarque. 

Numa das vinhetas do disco, Cida interpreta um poema de Alice Ruiz em que diz no fim: “Não importa o sentido / Se tudo vibra”. Aí ela se pergunta que sentido tem em gravar um disco com essas canções nesse momento. “Não é ‘filosofice’, não sei responder, mas no meu parecer, no meu entendimento, o que eu quero é que pareça organicamente meu aquilo.”

Menos trágico do que o drama que ela descreve em Deserto, mas com igual intensidade, Soledade tem o roteiro de um filme de curta-metragem, com sensações, imagens e quadros simbólicos, como as coisas boas que se desmancham como um picolé ao sol, a pera dormindo numa fruteira, o anônimo que morre na contramão, o cultivador da rosa que também carece de cuidado, num mundo vivendo à beira do fim, mas que outro personagem apaixonado imagina vê-lo da janela dos olhos de uma moreninha. No entanto, é preciso cantar livre, porque a alma arada vibra para derrubar a ignorância e a arrogância, desponta uma estrela no céu, e o bom dia seguinte é de reconstrução, com amor e trabalho.

Cida Moreira comenta faixa a faixa seu novo disco 'Soledade'

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