NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Cida Moreira comenta faixa a faixa seu novo disco 'Soledade'

No álbum, a cantora mergulha em suas memórias para cantar o Brasil

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S. Paulo

24 Agosto 2015 | 05h00

1. Viola Quebrada (Mário de Andrade, 1928) – “Canto essa modinha desde menina. Sempre achei que a música fosse de Villa-Lobos, mas soube agora que ele só escreveu a primeira harmonia. A música e a letra são do Mário, mas é um plágio, como ele mesmo admite e está escrito no encarte do meu disco. Era uma música chamada ‘Maroca’, que ele ouviu no Nordeste e pegou.” Antes de começar a cantá-la, Cida diz: “Havia manhãs, havia quintais naquele tempo” ao abrir o disco acompanhada apenas da viola de Paulo Freire, com quem Cida já tinha cantado.

Cida Moreira mergulha em suas memórias para cantar o Brasil no disco ‘Soledade’

2. Bom Dia (Nana Caymmi e Gilberto Gil, 1967) – Destaque para o acordeon de Mestrinho em arranjo bem diferente das gravações de Gal Costa e Nana Caymmi, que defendeu a canção ao lado de Gil no III Festival de Música Brasileira, da TV Record, em 1967. “É outra música que faz parte da minha história. Tenho loucura por ela e achei lindo o arranjo que Omar Campos fez. Eu estava na plateia do festival quando foi apresentada pela Nana. Naquele momento aquilo calou muito fundo pra mim. Até hoje cada vez que ouço e vejo Nana cantando isso me arrepio da cabeça aos pés.”

3. Um Gosto de Sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972, com citação de “Trastevere”, da mesma dupla) – “Tenho paixão por essa música, desde que saiu o disco do Milton. Essa imagem de ‘Lembrou os os sonhos que eu tinha / E esqueci sobre a mesa / Como uma pera se esquece / Dormindo numa fruteira’ é metáfora de coisas que a gente tinha e vão acabando. ‘Trastevere’ eu também queria gravar. Mas Milton já tinha feito com piano, então ou eu gravava completamente diferente, talvez com uma orquestra, ou não faria sentido, então não fiz, ficou só uma citação. Tem também uma citação do livro ‘Terra Sonâmbula’, de Mia Couto, que Ronaldo Fraga usou num desfile em que eu cantei.”

4. Moreninha (tema de domínio público) – “Foi a primeira que gravamos nesse disco. É outra que canto desde criança, uma moda de viola do interior de São Paulo. Uma referência que tenho dessa música é o espetáculo Na Carrêra do Divino, que Celso Nunes montou com o Pessoal do Vitor (em 1979). Eliane Giardini cantava essa música na peça. Era lindo. Tenho o disco com a trilha sonora (lançado em 1980).”

5. Forasteiro (Thiago Pethit e Hélio Flanders, 2010) – “A tendência de artistas da minha geração é ficar todo mundo fechado em si próprio, achando que tudo de melhor já foi feito. Não compactuo com esse tipo de ideia. O novo vem acontecendo naturalmente pra mim. A essa altura acho que me conheço razoavelmente bem, pra discernir o que fica e o que não fica bom. O que eu posso fazer que tenha credibilidade como artista, senão tenho a impressão que poderia cair num certo limbo, falando de música e de atitude artística. Sempre fui autora dos meus trabalhos. Isso me levou a ter essas influências boas e a criar laços de amizade que me levaram também a, digamos, um progresso estético. Sempre gostei de ‘Forasteiro’, antes de Pethit gravar no primeiro disco, já cantei com ele, com Hélio, com os dois, com Arthur Nogueira. Gravei com pessoal dele, chamei Faiska pra fazer aquele solo lindo de guitarra, toquei piano, o baixo é do Zé Mazzei, grande amigo de Pethit.”

6. Poema (Alice Ruiz, 1983, vinheta) – “Em 1984 eu estava em Curitiba fazendo show e fui a uma vernissage, onde conheci Alice e Paulo Leminski. Alice me deu o livro dela que tem essa quadrinha. No ano seguinte Arrigo fez a trilha do filme Estrela Nua, de José Antonio Martins, em que eu atuava e cantava. Um dia no estúdio peguei esses versos da Alice e fiz uma musiquinha incidental em cima deles. Essa vinheta era pra introduzir ‘Milágrimas’ (Itamar Assumpção/Alice Ruiz), que gravei, mas não entrou no disco. Outra que ficou de fora foi ‘Sinhá (Chico Buarque/João Bosco), que também esta gravada. Vou cantar as duas no show.”

Cida Moreira é cultuada por novatos, mas não tem obsessão pelo novo

7. Poema da Rosa (Jards Macalé e Augusto Boal a partir de poema de Bertolt Brecht, 1969) –“Na interpretação eu me baseio muito em determinadas frases, como ‘Há uma rosa linda / No meio do meu jardim / Dessa rosa cuido eu / Quem cuidará de mim?’. Vou me relacionando com essas coisas. Isso é de um poema do Brecht que Boal adaptou e já ouvi Macalé cantar muitas vezes. Essa é uma das canções que achava fundamental ter nesse disco.

8. Oitava Cor (Luís Filipe Gama e Tiago Torres da Silva, 2015) – “Tiago (poeta e letristra português com várias parcerias no Brasil) queria que eu cantasse alguma letra dele e fez essa, que também fala do Brasil. Luis Felipe é um compositor de São Paulo, que eu adoro há muito tempo. Pedi  pro Lincoln Antonio fazer o arranjo e ficou uma música exótica.”

9. Preciso Cantar (Arthur Nogueira e Dand M, 2013) – Arthur fez essa canção para Cida e a registrou no compacto Entremargens em 2013. Estava prevista a participação da cantora no show de lançamento do álbum Sem Medo Nem Esperança, do compositor, ontem no Sesc Belenzinho, em duo nessa música. “Mas ela não cabia no disco, então ele resolveu fazer uma vinheta e gravamos juntos. Vou gravá-la inteira depois. É linda a música, mas tem versos que falam de coisas que não queria cantar agora.”

10. Feito Um Picolé no Sol (Nico Nicolaiewski, 1985) – “Troquei ‘Milágrimas’ por essa música do Nico. No momento foi mais importante pra mim. Foi a última a entrar no disco. Canto essa música desde 1987 em shows. Conheci Nico em 1982 e ele já era um compositor muito promissor, grande músico e grande pessoa. Com a morte dele no ano passado, que foi um choque, voltei a cantar essa música no show que fazia com Filipe Catto (Eviscerados). Quando minha filha Julia nasceu, Nico veio pra São Paulo e me mostrou essa música. Tenho até hoje a letra escrita à mão por ele num caderno.”

11. Outra Cena (Taiguara, 1976) – “Quando ouvi essa canção no disco ‘Ymira, Tayra, Ypi’ me deu uma dor no peito. Tinha de gravar, até porque pouca gente conhece e merece ser lembrada. Taiguara é um compositor que amo e do jeito que essa música foi gravada por ele tem muito a ver comigo, com meu jeito. João Leopoldo fez o piano igual o dele, aquela coisa desorganizada, martelada. Entrou no lugar de ‘Onze Fitas’, da Fátima Guedes, que eu também tinha planejado gravar.”

12. Construção (Chico Buarque, 1971) – “É uma das três faixas do disco em que o arranjo foi feito a meu pedido. As outras foram ‘O Pulso’ e ‘A Última Voz do Brasil’. O resto foi feito em conjunto, no calor do estúdio. Acho primoroso o arranjo de Arthur de Faria pro quinteto de cordas. Jamais pensei em regravar essa música do jeito que todo mundo faz. Ela é como uma crônica, que vai encerrando o disco. Deixei Arthur completamente livre, só pedi pra não ouvir o arranjo que Rogério Duprat fez pro Chico, porque não queria que lembrasse aquela gravação, senão não faria sentido.”

13. A Última Voz do Brasil (Tico Terpins, Zé Rodrix, Armando Ferrante Jr. e Próspero Albanese, 1985) – “Cantei no coro da gravação dessa música no disco Saqueando a Cidade, do Joelho de Porco. Era uma das três músicas que eu tinha certeza que queria gravar nesse disco desde o começo.” E também fica como homenagem a Terpins e Rodrix, amigos de longa data da cantora que morreram em 1998 e 2009, respectivamente.

14. O Pulso (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Bellotto, 1989, com citação de “Queda” (André Frateschi, 2014) – “Queria uma coisa totalmente eletroacústica com essa música e pra isso chamei Ricardo Severo. Como no show do disco devo cantar acompanhada de um quarteto, não quero mexer na sonoridade, senão não faz sentido. Então, nessa música vai entrar programação. A do André era outra que não dava pra entrar inteira no disco, então resolvi só fazer uma citação, que acho que tem a ver nesse caso: ‘A casa cai, a noite cai, a chuva cai / A casa cai, a ignorância cai, a arrogância cai’. Está no disco solo dele, Maximalista, que é ótimo.”

15. As Pastorinhas (Noel Rosa e João de Barro, 1934) – Dois versos da marchinha de carnaval  que encerram o álbum com uma certa leveza. Cida canta acompanhada apenas da percussão de Sergio Chica. “Foram os direitos autorais mais caros do disco: R$ 500 por 22 segundos.”

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