MET/ Divulgação
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Chuva atrapalha programação do festival Música em Trancoso

Inversão de horários salvou primeiros dias do evento com concerto de Katia e Marielle Labèque

João Luiz Sampaio - O Estado de São Paulo,

19 de março de 2012 | 15h18

BAHIA, Trancoso - E quem poderia imaginar tamanho senso teatral por parte de São Pedro? Foi só os metais da Orquestra Juvenil da Bahia introduzirem o tenebroso tema do destino da Sinfonia n. 4 de Tchaikovski para que a garoa do começo da noite voltasse a cair, agora com cara de chuva pesada - e o concerto de abertura do festival Música em Trancoso precisasse ser adiado. Em sua primeira edição, o evento acontece em um anfiteatro projetado pelo arquiteto luxemburguës François Valentiny. Apaixonado por Trancoso, ele construiu um projeto ao ar livre, em comunhão com a paisagem local, no alto das falésias, com vista para o mar. Mas, no sábado, a natureza fez manha - e não colaborou.

 

O público bem que tentou, ignorando a chuva insistente. A água, porém, não combina com os instrumentos da orquestra e, logo após o Tchaikovski, a primeira peça do programa, o maestro Ricardo Castro acenou despedindo-se da plateia - e deixou o palco com seus músicos. Alguns deles ainda insistiram, improvisando um frevo no bar ao lado do anfiteatro, na esperança de que a chuva passasse. Mas não teve jeito. De volta ao hotel, Valentiny comenta com o clarinetista Walter Seyfarth, da Filarmônica de Berlim, um dos professores convidados para o festival. "Vamos tentar construir para amanhã uma cobertura, que não interfira com o projeto mas proteja todo mundo da chuva."

 

O domingo amanheceu com um céu hesitante mas, pelo fim da manhã, o sol discreto animou boa parte dos jovens músicos da orquestra baiana a aproveitar um breve momento de folga com uma sessão de ginástica na piscina. Ali perto, o maestro Ricardo Castro quer saber como a orquestra soou na noite anterior. "É tudo muito novo, ficamos curiosos. Mas hoje vamos saber melhor", diz, olhando de soslaio para as nuvens no céu. A esperança, no entanto, não durou mais que algumas horas. E o final da tarde trouxe de volta a chuva pesada da madrugada, que impossibilitou a construção de uma cobertura para o anfiteatro e levou novamente ao adiamento da estreia da Juvenil da Bahia no festival.

 

A solução foi inverter a programação e trazer para a noite de domingo, no pequeno teatro de um hotel da região, o recital das irmãs pianistas Katia e Marielle Labèque, previsto originalmente para terça-feira. Deu certo. Elas abriram a noite com uma leitura delicada, quase mágica, de Ma Mère l'Oye, peça para piano a quatro mãos cuja inspiração Ravel tirou de uma seleção de histórias infantis. Em seguida, tocaram a dois pianos a Rapsódia Espanhola de Albéniz.

 

O momento mágico, no entanto, veio com a segunda parte do programa, quando as irmãs dividiram o palco com alguns dos professores convidados e quatro instrumentistas da Orquestra Jovem da Bahia - que faz parte do Neojibá, projeto de inclusão social pela música implementado por Castro há três anos em Salvador - para interpretar O Carnaval dos Animais, de Saint-Saëns. A peça evoca musicalmente bichos e paisagens da floresta. Ganhou dos músicos baianos uma narração bem-humorada, na qual o próprio compositor, do além, comenta cada trecho da peça - e a vida no céu ao lado de figuras tão díspares como Elvis, Poulenc, Debussy e Jimi Hendrix. No plateia e no palco, o clima era de descontração, com direito a Marielle Labèque fingindo dormir sobre o piano durante Tartaruga, quarta parte da peça, e a todos procurando o cuco recriado pelo clarinete de Seyfarth, escondido pelo teatro. Apesar da chuva, o Música em Trancoso dava enfim sua largada. E, depois desta celebração da natureza e do prazer de fazer música, bem que a chuva podia dar uma trégua…

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