Chuck Berry faz farra do rock em templo country

São 22h45 de uma noite empoeirada de sábado. Chuck Berry está enfiado num grande sofá branco com uma jaqueta vinho, calça preta de tecido fino e um boné de capitão de barcaça do Missouri. Ao seu lado, uma loira platinada silenciosa. Refestelado como um rei, um genuíno monarca do rock´n´roll, ele finalmente concordara em dar entrevista, uns 15 minutos antes de entrar no palco do Jaguariúna Rodeo Festival, no sábado à noite."Mulher não é parte da minha música", ele resmunga, ao negar resposta à pergunta do Estado sobre os problemas que enfrentou com mulheres ao longo da vida. "Eu vivi 52 anos com a mesma mulher, e acho melhor tratar do assunto música, isso é coisa que não tem nada a ver", responde.Mas Chuck Berry também não esclarece muito sobre o assunto música. Conta que gosta de ouvir, ainda hoje, Tommy Dorsey, Glenn Miller, Frank Sinatra, Muddy Waters, Everly Brothers e seu amigo Eric Clapton. E lembra que já faz 15 anos que fez seu último disco, motivo pelo qual está "em processo" de gravação de um novo álbum.Como soa seu novo álbum? "Soa como Chuck Berry", responde, sempre laconicamente. "Eu gosto de ser um entertainer, vou fazer a mesma coisa de sempre", afirma, adiantando seus planos para a noitada no rodeio do interior paulista. "Durante 60 anos eu tenho tocado a guitarra elétrica, não tenho opinião sobre isso", responde - de novo sem elaborar muito - a questão se tem ouvido os novos gêneros musicais. "Não há nada de novo sob o sol", sentencia.Segundo Chuck Berry, o que o mantém com um entusiasmo sempre renovado quando entra no palco é "a resposta". Ou o público responde ao seu apelo suingado ou nada acontece. E Jaguariúna respondeu ao chamado do rock´n´roll.Um som ruim, mal equalizado, não impediu que um dos inventores do rock´n´roll ("São os outros que dizem isso, não eu, isso não partiu de mim", comenta o guitarrista) fizesse os chapéus de caubói voarem na arena do rodeio. Depois de uma jornada de touros, cavalos e quedas no estrume, entra Chuck em cena, com sua guitarra Gibson vinho, uma camisa pink lantejoulada, a calça preta e o indefectível boné."When I was a little biddy boy/ My grandma bought me a cute little toy/ Two Silver bells on a string/ She told me it was my ding-a-ling-a-ling", ele cantarola, em My Ding-a-Ling. A platéia quase vai abaixo, improvisando uma dança de salão no chão maltratado pelos cascos dos cavalos. Seus refrões cinquentenários são irresistíveis: Little Queenie, Johnny B. Goode, Sweet Little Sixteen.Ele mesmo confessa-se surpreso, às vezes, com a permanência dessas coisas. "Às vezes vejo alguém muito jovem cantando minhas músicas e pergunto: como você sabe?", comenta o astro, que mantém a pose de bad boy, mas tem um olhar mais compreensivo do que no passado. Ele cumprimenta as pessoas com a mão direita e bate no ombro do sujeito com a outra mão, lembrando aqueles rituais de hip hop.Berry parece que tem 20 anos a menos, está em plena forma física e sua fidelidade ao credo inicial do rock´n´roll o mantém como uma exceção entre os pioneiros do gênero. Quando morreu, Elvis quase virara uma atração circense. Little Richard parece hoje um arremedo de si mesmo no estilo espalhafatoso de drag. Bo Diddley, a quem se credita uma espécie de "decodificação do genoma" do rock, não trouxe as inovações que estes aí em cima trouxeram.Mas Chuck Berry não está em decadência, está simplesmente parado no tempo, congelado como um polaroid de uma época. Ele toca com bateria (William Metros), baixo (James Lee Marsala) e teclado (Robert Baldore, que também toca gaita, ou harmônica, para os americanos). Ele tira da guitarra um som sujo, cru, centrado mais na pegada do que na elaboração. No meio do show, pára para afinar a guitarra com o teclado.E mantém religiosamente o ritual que criou, há 46 anos. "Segurança, sua atenção por favor!", ele disse, no meio do show. "Três garotas desse lado, três daquele lado", comandou, deixando subir ao palco voluntárias da platéia para animar sua festa. Cinco minutos depois, as 6 garotas iniciais já eram 15 mulheres dançando freneticamente. Sempre funciona.Não estava lotada a arena. Podia-se caminhar com facilidade e as arquibancadas estavam vazias. O rodeio de Jaguariúna é a imagem do interior paulista bem-sucedido, próspero, com uma estrutura de organização invejável e um conceito pop, que abraça mais do que o arcabouço clássico da cultura country.Havia um set para DJs nos camarotes e a programação incluiu de Gloria Gaynor, a Disco Queen, a Chuck Berry e Daniel, cantor sertanejo, que se apresentaria no domingo. Do lado de fora, um galpão onde lojas de grife vendiam roupas de couro, botas, chapéus e até cocada branca e doces.Durante a tarde e um pouco antes do show, a cidade ficou agitada com uma invasão de motoqueiros que foram fazer um passeio em homenagem ao velho Chuck. Cerca de 1.500 deles saíram de São Paulo, da frente do Pacaembu, e concentraram-se nas ruas da cidade, invadindo o rodeio à noite. Estavam na comitiva os Rebel Biker´s, Abutres, Falcões, Filhos do Vento e Morcegos.Chuck Berry olhou toda a movimentação e não se mostrou tão convencido. Tocou apenas cerca de uma hora e não deu bis. Recolheu sua guitarra, caminhou até o fundo do palco e desapareceu.

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