Chuck Berry comemora 80 anos no palco com show nos EUA

Na noite desta quarta-feira, ao subirao palco do Blueberry Hill?s Duck Room de Saint Louis, Missouri(EUA), um antigo garoto problema do rock?n?roll chamado CharlesEdward Anderson Berry estará completando 80 anos, juntando-se aoutro gênio de uma geração de ouro que se tornou octogenário (obluesman B.B. King, que faz sua última turnê pelo Brasil no mêsque vem). Eles inventaram o rock: Chuck Berry, Bo Diddley, LittleRichard e os Kings of Rhythm de Ike Turner. Mas Chuck já veiocomo a imagem bem-acabada da transgressão, adolescente quepassou dois anos num reformatório preso por roubo, operário queestudava para ser cabeleireiro à noite, insolente lúmpen queousou tocar para multidões e impor um ídolo negro para multidõesde garotos brancos seguirem. Chuck Berry já veio algumas vezes ao Brasil, a última em2002, para um inacreditável show para animar um rodeio, emJaguariúna, interior de São Paulo. A reportagem falou com ele,na ocasião, no camarim de seu concerto - ele com seu olharsempre arrogante, vestindo uma jaqueta vinho, calça preta detecido fino e um boné de capitão de barcaça do Missouri. Ao seulado, uma loira platinada silenciosa. "Durante 60 anos eu tenho tocado a guitarra elétrica. Eusou um entertainer, vou fazer a mesma coisa de sempre, não hánada de novo sob o sol", decretou Chuck. Ele cumprimenta aspessoas com a mão direita e bate no ombro do sujeito com aesquerda, lembrando aqueles rituais de hip hop. Contou que gostade ouvir hoje o que ouve desde sempre: as orquestras de TommyDorsey e Glenn Miller, Frank Sinatra, Muddy Waters, EverlyBrothers e seu amigo Eric Clapton. Em 1976, Gilberto Gil o homenageou com "Chuck BerryFields Forever", que fala da gênese do rock. "E assim gerados, arumba, o mambo, o samba, o rhythm?n?blues/Tornaram-se osancestrais, os pais do rock and roll/Rock é o nosso tempo,baby/Rock and roll é isso/Chuck Berry fields forever." Rock?n?roll é isso, é Chuck Berry em sua essência, comrostos diferentes e mudanças de abordagem: Iggy Pop e suablitzkrieg infernal no palco; a atitude marrenta de LiamGallagher; o estilo corajoso de Joe Strummer de afrontarunanimidades e autoridades; o incêndio existencial de JanisJoplin e Jim Morrison. Segundo disse Brian Wilson, dos Beach Boys, Chuck Berryescreveu "todas as grandes canções e inventou todas as batidasdo rock?n?roll". A lista de grandes canções nem é tão extensa:"Roll Over Beethoven, Maybellene, Round and Round, Carol,Brown-Eyed Handsome Man, Back in the USA, Little Queenie, SchoolDays, Sweet Little Sixteen, Johnny B. Goode". Mas, de fato, nafusão pioneira de country, blues, R&B e a batida da guitarra, ojeito especial de um negro tocar o hillbilly branco, Chuckcolocou o rock na ordem do dia. Em maio de 1955, durante uma viagem para Chicago, eleconheceu o bluesman Muddy Waters, que o apresentou a LeonardChess, da Chess Records. Berry deu a Leonard uma fita demo com amúsica "Ida Red", que o executivo rebatizou de "Maybellene" eenviou para o disc jockey Alan Freed. Tocada, a música se tornouo hit número um da estação. O homem começava a forjar seu mito. Ainda por cima,tinha um timing de palco inigualável. Criou o "duck walk" (opasso de pato), um jeito de solar com a guitarra andando deforma esquisita, lateralmente. Até hoje usa o recurso. A lista de inimizades e barracos de Chuck Berry élonguíssima. Seu discípulo e fã confesso, Keith Richards, nãoresistiu às gravações de algumas sessões com o mestre. "Ele éuma prostituta às vezes, dá mais dor de cabeça do que (Mick)Jagger", afirmou Richards. John Lennon, que também seguia as pegadas do pato,disse: "Se você quiser dar ao rock?n?roll um outro nome, vocêdeverá chamá-lo de Chuck Berry." Nada menos que perfeito.

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