Francis Vernhet
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Chucho Valdés refaz encontro histórico com Ivan Lins no Rio Montreux Jazz Festival

Além do pianista, participam da primeira edição do festival nomes como Stanley Clarke, Hermeto Pascoal, Al Di Meola, Yamandú Costa, Andreas Kisser, John Scofield, Quarteto Tom Jobim com Maria Rita e Corinne Bailey Ray

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2019 | 03h00

Depois de alguns bons anos em negociação, o Rio de Janeiro recebe, a partir da próxima quinta (6), com término no domingo (9), uma das maiores marcas em festivais de jazz do mundo. O Rio Montreux Jazz Festival, capitaneado pelo produtor Marco Mazzola, será uma espécie de Jazz in Rio, guardada as devidas proporções com o festival de Roberto Medina. Se está na contramão de um momento econômico difícil, onde os investidores em cultura têm esperado para saber como serão acomodadas as reformas recentes da Lei de Incentivo à Cultura (antiga Rouanet), a parte do copo meio cheio reflete a imagem de uma espécie de salvador. Nenhuma notícia foi tão boa ao meio musical em 2019 quanto essa.

São muitas e boas atrações, algo como 40, distribuídas em três palcos montados no hoje elegante Pier Mauá. Dentre os nomes que passarão por eles estão os de Stanley Clarke, Hermeto Pascoal, Al Di Meola, Yamandú Costa, Andreas Kisser, John Scofield, Quarteto Tom Jobim com Maria Rita e Corinne Bailey Ray, um dos shows mais aguardados. Na noite de domingo, no palco Villa-Lobos, um encontro deve marcar a despedida desta primeira edição. O pianista cubano Chucho Valdés traz músicos jovens da moderna geração do grupo Irakerê, um dos pilares do jazz cubano moderno, para refazerem um encontro celebrado primeiramente em 1996, quando Ivan se apresentou com os músicos em Havana e gravou com eles um disco estupendo. Em todas as entrevistas que consegue a brecha, Chucho diz que este foi um dos momentos mais gratificantes de sua carreira. 

Agora, ele fala de sua casa, na Flórida (ele tem também residências em Buenos Aires e Málaga, na Espanha): “O Irakerê tem músicos novos, mais jovens, mas vamos repetir aquele disco no show com todos os arranjos originais”, diz Chucho. O álbum, nunca devidamente lançado com cuidado no Brasil, tem músicas de Ivan relidas com arranjos explosivos e divisões latinizadas da orquestra de Chucho. Começar de Novo, Vitoriosa, Lembra de Mim e Somos Todos Iguais Nesta Noite são os destaques. “Não nos complica o fato de termos um outro acento rítmico, estamos musicalmente muito próximos, nossas raízes são as mesmas.”

Apostas no futuro. O pianista que não fala de política desde os anos em que Fidel Castro mantinha o poder soberano na Ilha diz que sente ser hoje um dos melhores momentos da música em Cuba. De hoje, ele cita como exemplo o grupo Havana D’Primera como um dos destaques que devem ser descobertos pelo Brasil e, de ontem, fala de seu maior herói, o pianista e compositor prodígio Ernesto Lecuona, o que poderia explicar sua forma de tocar tomando todo o espaço do teclado. Mas Chucho, diz ele sobre ele mesmo, é mais percussivo (uma herança afro mais acentuada) e consegue uma independência de mãos que não se vê em músicos mais tradicionais. “Uso muitas vezes a mão esquerda para cantar (fazer a melodia) e deixo a base na direita. O fato de tocar tambores batá fez minha música ser bastante percussiva.”

Quando perguntado se considera-se um produto do pensamento de ensino cubano de música, onde todos os alunos precisam passar pelo piano antes de tocarem outros instrumentos, ele responde: “Eu sou produto do meu pai, é graças a ele que toco o que toco hoje.” Chucho é filho de Bebo Valdés, morto em 2013, também compositor e pianista cubano da chamada era de ouro, e pai de seis filhos, todos músicos (três bateristas). Sobre a música brasileira, vai além de Ivan e fala de Hermeto Pascoal, Djavan e Gil (os mais lembrados). Mas sai da curva quando recorda de dois grupos instrumentais dos anos 60 que fizeram sua cabeça assim que recebeu discos brasileiros de amigos influentes em Havana. “O Tamba Trio e o Zimbo Trio, adoro a música que eles fazem.” Quando a conversa toma outro rumo, ele retorna apressado. “Aquele Mariano... Cesar Camargo Mariano, fabuloso.. e Hamilton de Holanda também.”

O festival abriu a venda de ingressos no dia 16 de abril, com preços diferentes para cada palco. O Tom Jobim (com capacidade para 773 pessoas sentadas, no Armazém 2) vai de R$ 25 (meia) a R$ 187. O palco Villa-Lobos (que recebe 3,5 mil pessoas em pé, no Armazém 3) segue a mesma tabela. E o Ary Barroso, menor, para mil ingressos (na varanda do Pier Mauá), varia de R$ 25 a R$100, com a diferença de que cada bilhete dá direito a dois shows por noite.

Paulinho da Costa, maior músico de estúdio do País, vem ao Rio Montreux

Ele falou com a reportagem no dia de seu aniversário de 71 anos, no última sexta (31). Paulinho da Costa não é o mais conhecido percussionista brasileiro no Brasil, mas certamente tem o cartel mais impressionante dentre todos os músicos brasileiros de todos os tempos. Sua lista de participações e colaborações com artistas pop é infindável. Ou melhor, segundo sua mulher, Alice, sua gravações contabilizam 963 artistas diferentes, gente como Michael Jackson (Thriller), Madonna (True Blue) e Celine Dion (Let's Talk About Love). Segue por Eric Clapton, Elton John, B.B King, Take 6, Eagles, Earl Klugh, Ernie Watts, Earth, Wind & Fire e muitos outros.

Por isso fica quase obrigatório ver o carioca portelense Paulinho em ação no Brasil, lugar onde ele faz pouquíssimos shows. Sua apresentação será no dia 8, sábado, às 19h30, no Palco Tom Jobim, no Pier Mauá (Rio) como convidado do bandolinista Hamilton de Holanda. Paulinho sabe ser bem dois tipos de músico: o sideman, aquele que fica ao lado servindo o cantor, e o protagonista. E é esse que deve aparecer mais na noite do Rio Montreux.

“Não sei exatamente como vamos fazer o show, muitas coisas acontecem no momento”, ele diz. Perguntado o que pode estar na música de Paulinho que o fez eleito entre todos os nomes com os quais tocou, ele reconhece que leva algo do menino percussionista da Portela em cada trabalho. “Eu sempre coloco algum acento da brasilidade que tenho, e acho que devo parte da aceitação a isso.” 

Paulinho só não formou um grupo seu, como fez Naná Vasconcelos ou Airto Moreira. “Eu não quis formar meu grupo, acabei optando por ser músico de estúdio. Muitas pessoas cobram isso de mim, mas sou feliz como trilhei minha carreira”. 

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